MERCADO DE TRABALHO

Mulheres negras se desdobram para provar que podem competir

Estudos realizados anualmente pela Fundação Seade, em parceria com o Dieese, e divulgados sempre próximo ao Dia Nacional da Consciência Negra, mostram que ainda há diferença de empregabilidade entre brancos e negros. E o cenário atual não é muito diferente. Em 2017, os negros representavam 41,9% da População Economicamente Ativa (PEA), na Região Metropolitana de São Paulo, enquanto sua proporção no total de ocupados era de 40,5%.

E quando se fala em mulher negra essa diferença ainda é maior, em especial em algumas atividades, por isso muitas delas procuram fazer dos estudos e da qualificação um trampolim para sair das estatísticas negativas. Aos 43 anos, Ana Paula de Souza Silva precisa se desdobrar para conciliar o trabalho que realiza como consultora de vendas em uma financeira durante a semana e de maquiadora aos finais de semana. Mesmo tendo graduação em marketing, ela não atua diretamente na área. Mas procura colocar em prática o que aprendeu na faculdade, em ambos os trabalhos.

“Para a mulher tudo é mais difícil e, principalmente, para a mulher negra porque temos sempre que provar que somos capazes de realizar qualquer trabalho que é nos é imposto. Para mim, mesmo não tendo atuado na área que me formei, uso a propaganda para divulgar meu trabalho com a maquiagem porque ela surgiu de repente na minha vida e acabei me apaixonando, mesmo tendo surgido como um lado B”, pondera.

Ana Paula acredita que a mulher precisa aproveitar cada oportunidade que o mercado lhe oferecer, mas para isto é preciso se atualizar sempre. “Sou realizada em ambas as profissões que eu exerço, porém procuro me atualizar porque o mercado profissional é muito competitivo e temos que estar sempre nos atualizando para não ficarmos para trás.”  Assim também pensa a cabeleireira Kátia Teófilo, de 38 anos. Formada em serviço social, ela atuou por 10 anos como servidora pública, mas foi na área de beleza que se encontrou. Especialista em cabelos crespos, cacheados e ondulados naturais, ela conta que se tornou cabeleira após aceitar seu cabelo natural para dar exemplo para sua filha.

“Eu era funcionária pública concursada e trabalhei no serviço público por 10 anos. Nos últimos três anos eu conciliei as duas funções profissionais, além de ser mãe e cursar faculdade de serviços sociais, mas pedi exoneração do meu cargo este ano e hoje tenho meu salão, onde emprego oito pessoas”, conta, orgulhosa.

Mesmo fazendo o que gosta, ela sabe das dificuldades do mercado, por isso deixa um recado. “Estudem. Não deixem de aprender pelo menos uma coisa a cada dia. Foco naquilo que você quer, ajuda muito para não perder tempo com as coisas que não agregam nada. Não duvidem da sua capacidade.”

PESQUISA
Ainda de acordo com o Dieese, com a repercussão da crise econômica no mercado de trabalho da Região Metropolitana de São Paulo, em 2015 e 2016, quando as taxas de desemprego aumentaram intensamente, os negros foram particularmente atingidos. Mesmo o desempenho ligeiramente positivo da economia em 2017 não foi capaz de evitar o aumento do desemprego. Entre 2016 e 2017, a taxa de desemprego dos negros ampliou-se de 19,4% para 20,8%, enquanto a dos não negros avançou de 15,2% para 15,9%.

Durante a crise, ocupações não formalizadas e independentes cresceram entre os negros, aspecto destacado nesta edição do boletim, que introduz uma análise pormenorizada sobre os ocupados segundo tipos de relações de trabalho entre o 2º semestre de 2014 e o 1º semestre de 2018.

Marcha
Além da programação cultural a ser realizada no Sesc e no Complexo Fepasa (veja programação em Cultura & Lazer 8), será realizada hoje, em Jundiaí, a tradicional Marcha da Consciência Negra com o tema “A Falsa Abolição (Inacabada)”. A saída será as 9h30 na rua Barão de Jundiaí, 109, seguindo pelo Centro até a Catedral Nossa Senhora do Desterro.

Foto: Rui Carlos

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