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05/05/2017 10h38 - ENTREVISTA
Mãe, amor incondicional em qualquer época ou cultura
Luciana Alves
lalves@jj.com.br
© Divulgação
Maura e seu filho Ricardo
A escritora Maura Palumbo conta que desde criança tinha uma biblioteca a sua disposição. Ela adorava ler as enciclopédias e livros bem organizados pelo pai. Aos 14 anos conta que se deparou com o Diário de Anne Frank e se apaixonou pela história da menina e pelo tema da Segunda Guerra Mundial.

“Eu me transportei para a época de uma maneira tão forte que a partir daí nasceu meu interesse pelo nazismo. Material para acrescentar esse aprendizado não faltava, minha mãe enriquecia nossa biblioteca constantemente. Ela foi minha maior referência e sempre me impulsionava para novas e intermináveis descobertas. Essa foi a maior herança que ela deixou”, relembra a escritora do livro O Perfume das Tulipas, romance histórico ambientado na Alemanha nazista, que também é pesquisadora e palestrante sobre a Segunda Guerra Mundial.

Em suas pesquisas para escrever o livro, Maura conta que se deparou com diferentes faces de mãe, dentro deste conflito tão aterrorizante. “Minha indignação foi tão grande, quanto o desastre moral a que muitas delas ficaram sujeitas. De um lado, as mães nazistas que foram reduzidas a procriadoras e do outro, as mães judias que morriam com e pelos seus filhos. Enquanto umas geravam vidas, as outras caminhavam literalmente para morte”, afirma.

Ela conta que as mães arianas nazistas ganhavam prêmios para dar a luz ao maior número de filhos e os educar dentro dos preceitos de Hitler. Do outro lado, rodeada de muros e arames farpados, a mãe judia defendia seus amados filhos com seu abraço e seu silêncio. “A prece para salvá-los parecia estar na morte rápida, após o cansaço pela sobrevivência. A luta inglória em defender seus filhos estava nos olhos assustados e no coração dilacerado. A privação da vida em forma de fome e doença transformou a mãe judia na provação máxima, incalculável, de viver a aflição de sua prole”. Confira a entrevista exclusiva de Maura para a Hype sobre o tema maternidade em diferentes culturas.

Você acha que o papel da mãe e o tão enaltecido amor materno mudam muito em diferentes culturas? Ou a essência é a mesma?

A essência deve ser a mesma. É inadmissível não ser. Precisamos acreditar que esse amor imenso pode salvar, pode transformar. A figura da mãe é forte, é poderosa. A cultura é um fator determinante nessa expressão de ser mãe. Acredito que independentemente da cultura, existe uma necessidade de dar continuidade a esse amor, como uma transmissão de conhecimento, de valores, de sentimentos e principalmente de estabelecer fortes relações.

No livro Depois de Auschwitz de Eva Schloss, que viveu o horror do nazismo ao lado de sua mãe, ela conta a importância da força da mãe para que conseguisse sobreviver. Como você vê essa força da mãe judia que fazia de tudo para proteger seus filhos dentro de um campo de concentração? De onde vem essa força, esse amor? Tem algum caso que chamou sua atenção durante suas pesquisas?

Todo depoimento de qualquer estágio da vida contém a presença da mãe. A presença dela está em nós. Nascemos de nossas mães. Só a mulher gera vida humana. Essa condição não se rompe. É inegável. Imagine as condições de extrema barbárie a que essas mulheres foram submetidas. Elas precisavam presenciar o sofrimento diário de seus filhos em um local de privações básicas e de execuções sumárias. Qual seria a melhor opção para seus filhos dentro daquela miséria acompanhada de um medo aterrorizante? A tortura diária ou a morte instantânea? O livro "Depois de Auschwitz" de Eva Schloss, retrata o amor de sua mãe exatamente nesse palco de horror. A manifestação do poder materno mostra-se como cura e libertação.

Vários casos me chamaram atenção e alguns deles estão no meu livro "O Perfume das Tulipas". Não há como descrever a dor dessas mães. Esse coração dilacerado está nas imagens de uma mãe no gueto de Varsóvia gritando com seu filho morto em seu colo e ao assistir o jornal pela TV, constatar um pai desesperado abraçado com suas pequenas filhas, mortas pelas armas químicas. Dolorosamente, quase nada mudou. A guerra se torna presente.

É muito interessante esta abordagem sobre as mães judias e as mães arianas nazistas. Você faz uma descrição forte sobre a mãe alemã da época nazista, mas será que ela também não foi uma vítima desse sistema que manipulou, aniquilou até os sentimentos mais puros das pessoas?

A mãe nazista, assim como todos que tem sua mente manipulada, tornam-se vítimas. Elas eram conduzidas pelo fanatismo e pela devoção ilimitada ao sistema, perdendo o discernimento. O que pretendo é mostrar que essas mães tinham absoluta convicção que suas atitudes e seus ensinamentos eram para o bem de seus filhos. Tudo era justificável, absorvido como legítimo e glorioso. Afinal, o poder de convencimento era o alicerce do nazismo. O que foi impregnado naquelas mulheres era a lei de obediência máxima ao Führer (Hitler) e à nação. Ser mãe ariana era uma honra digna de congratulações, cruz de ouro, prata e bronze, dependendo do número de filhos. Elas eram incentivadas e reconhecidas como perpetuadoras da raça superior, gerando filhos para o Reich. O amor materno era demonstrado pela dedicação, pela formação dos filhos dentro do código de fidelidade e submissão incondicional ao regime.

Quais as manifestações mais emocionantes relatadas em depoimentos, pelos sobreviventes, que você constatou que esse amor materno funcionou como arma poderosa, dentro de um conflito tão aterrorizante, como foi a Segunda Guerra?

Vou falar em especial sobre uma delas. A mãe judia do meu querido Sr. Balkanyi, um sobrevivente de Auschwitz que tenho a honra de estar escrevendo sua biografia. Ele fala da mãe com profunda admiração, expressa a força e a grandiosidade do amor de sua mãe em alguns momentos muito decisivos. Na despedida para o campo de concentração ela intuiu (as mães têm esse dom, da intuição) que assim que todo aquele tormento chegasse ao fim, os três, pai, mãe e filho, se encontrariam novamente em sua cidade, Cacovec, na Hungria. 


Embora os três tenham sido enviados para Auschwitz, homens ficavam separados das mulheres. Pai e filho foram para Auschwitz - Monowitz, exercendo trabalho escravo. A mãe trabalhava no setor chamado Canadá, onde a triagem dos pertences dos prisioneiros era feita, separando tudo de valor para enviar ao Reich. Ela se arriscou, enviando após alguns meses naquele inferno, um bilhete para seu marido e seu filho, subornando um guarda. Esse ato era totalmente proibido e poderia causar a execução imediata.

A emoção, o olhar, o abraço, o choro no reencontro dela com o filho na Hungria é realmente um momento único e inesquecível.

Como você explicaria o amor materno e a força que dele vem? Você diz que pessoas simples mudam para proteger seus filhos e se tornam melhores. Temos muitos exemplos no dia a dia e na história, mulheres que fundaram Ongs, instituições, para cuidar e deixar um mundo melhor para seus filhos. O que você pensa sobre isso?

Chamo isso de propósito de vida. Adotei essa palavra "propósito", tão bem adequada ao assunto, quando minha amiga de infância, a psicóloga Patricia Pimentel, definiu essa força insuperável de ir adiante, como um propósito. Algo de proporções inimagináveis. Esse amor de mãe realiza, invade, enfrenta, constrói, com um poder sem limites. Estabelecer um propósito é se entregar por inteiro, naquilo que cultiva e acredita. E para isso, a mãe tem toda competência. Pelo filho, ela, recria, reinventa e surpreende.

E você, que tipo de mãe você é?

Mãe não tem um tipo, tem todos os tipos. Descobri isso com o tempo. Fiquei observando os termos: mãe clássica, mãe antenada. Mãe esportiva, mãe intelectual, mãe independente. Acho que mãe é camaleão. Um pouco de tudo, sempre. Tudo que existe em sentimentos raros define o que é ser mãe: doação, proteção, sacrifício. É uma transformação arrebatadora, que acaba igualando todas as mães. Eu Maura, tenho características próprias, claro, como qualquer pessoa. As minhas manias e teorias foram questionadas a partir da condição mãe. Eu brinco que tornar-se mãe, é quebrar a cara com tudo aquilo que a gente prega, como absolutamente certo e imutável. Aprendemos a ter paciência e tolerância e isso faz com que haja a mais profunda possibilidade de adaptação, de entrega, de rever conceitos e de perdoar.

Tenho um único filho, de 31 anos, o Renato. Ele é único, assim como todos os filhos. Poderia ter dez, todos seriam únicos. Ele é a minha maior inspiração e a minha maior expressão de amor incondicional. Sou exageradamente fascinada por ele. O bom é que tenho permissão para isso, eu sou mãe.

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