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Dobra número de afastamentos por transtornos mentais em Jundiaí

Em apenas um ano, o número de profissionais que se afastaram do trabalho e receberam auxílio previdenciário ou acidentário relacionados a transtornos mentais mais que dobrou em Jundiaí. Entre janeiro e outubro de 2017, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) cedeu 325 auxílios relacionados a 28 transtornos mentais e comportamentais diferentes, todos listados na Classificação Internacional de Doenças (CID). No mesmo período de 2018, o número de auxílios chegou a 694. A quantidade de doenças listadas também aumentou para 31.

Os afastamentos causados por ansiedade e doenças relacionadas quase triplicou, de 54 casos em 2017 para 142 em 2018. O número de auxílios cedidos por episódios depressivos ou depressão recorrente também mais que dobrou, de 89 casos em 2017 para 201 em 2018.

Quando se trata de transtornos relacionados ao estresse, o número praticamente quadruplicou, indo de 13 para 40 casos no período analisado. No Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Jundiaí, 148 pessoas foram atendidas na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) por problemas relacionados a estresse grave e síndrome de burnout em 2017.

Este ano, outras 148 pessoas estão sendo atendidas pelos mesmos transtornos. O psicólogo Alexandre Moreno Sandri, coordenador de Saúde Mental do Caps, explica que a síndrome de burnout está relacionada ao excesso de estresse no trabalho. “Os pacientes apresentam claros sinais de esgotamento”, afirma.

AMBIENTE HOSTIL
A psicóloga Gabrielle Marques atribui o aumento de afastamentos a alguns fatores, entre eles a crise política e econômica no país, que vem causando desemprego e uma série de problemas no ambiente de trabalho, como acúmulo de funções e sobrecarga, o que pode desencadear uma série de sintomas nos trabalhadores. “Pressão por rendimento, cobranças desmedidas, desmotivações, relacionamentos hostis e assédio moral são alguns dos problemas comumente relatados em relação ao trabalho”, diz.

Alexandre concorda com a tese, e acrescenta que o uso da tecnologia quebrou a barreira entre vida profissional e pessoal, causando ainda mais danos para a saúde mental dos trabalhadores. “Ao ficar conectado o tempo todo, a separação entre o trabalho e outras áreas da vida fica mais tênue. A falta de tempo para atividades de lazer, esportes e fruição da vida em família também contribui para o aumento dos casos”, diz.

Gabriella ainda arrisca outro palpite: a falta de estrutura da sociedade em relação a valores, relações e políticas públicas. “Ouso dizer que a situação tem piorado por falta de preocupação das gerações anteriores com a saúde mental”, opina. “Eles não foram ensinados a cuidar da mente, mas a buscar sucesso profissional, reconhecimento, dinheiro e fama. As necessidades e dificuldades emocionais de cada indivíduo nunca foi abordada”, diz.

CONSEQUÊNCIAS
Somados, o número de afastamentos relacionados a estresse, depressão e ansiedade (308) chega a ser quase duas vezes maior que o número de profissionais afastados do trabalho por apresentarem problemas relacionados a álcool, tabaco e outras drogas, como cocaína, opióides e substâncias mais fortes (186 casos em 2018). Para Gabrielle, estes casos também denunciam uma necessidade urgente da socidade em tomar maiscuidado com a saúde mental. “O abuso de álcool e outras substâncias está relacionado à busca por relaxamento e fuga da realidade”, analisa.

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