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Floresta agoniza, Justiça intervém e comunidade se une pelo clube

No ano em que completou seis décadas de fundação, a Associação Atlética Floresta luta para evitar que o que sobrou do patrimônio seja posto abaixo ou fique apenas na memória dos ex-associados. Desde 28 de fevereiro de 1958, quando os amigos Antônio Tortorella, Indalécio Elias e Zico Português se reuniram na Barbearia do Billy (hoje o endereço é ocupado pelo Restaurante do Hélio), até 14 de novembro de 2009 (data em que foi assinado um contrato de comodato com o Circolo Italiano di Jundiaí), muitas histórias foram contadas, cartas de baralho foram jogadas sobre a mesa em rodadas de truco prá lá de animadas e beijos foram trocados (ou arrancados) nos bailinhos realizados no pequeno salão social enquanto, da vitrola, saía toda a afinação de Johnny Mathis (“Its not for me to say” era um dos sucessos daquele 1958) ou a jinga de Carlos Gonzaga, que explodia de vender discos com a versão de “Diana”, de Paul Anka (“Não te esqueças, meu amor/Que quem mais te amou, fui eu…”).

José Antônio Rengagnin, hoje com 66 anos, não podia nem pensar em entrar no salão de baile naquela época. Mas, já moleque, gostava de jogar futebol com os amigos e passava dias inteiros na quadra do Floresta. Décadas depois, quando já havia assumido a presidência do clube, ‘Itatiba’ (apelido que Rengagnin herdou do pai) ficava vendo as duplas se engalfinhando para o truco ou para a caixeta. “Se pudesse escolher, o Tortorella (que está em viagem por Portugal, devendo retornar esta semana a Jundiaí) gostava de fazer dupla com o Antônio Barcari”, conta Itatiba. Com sorriso no canto da boca, ele parece que vai adivinhar quem daria o próximo grito para pressionar a dupla adversária. Dupla que, aliás, geralmente era formada pelos amigos Antenor Formes e “Divinão”.

“O truco era diário, a partir das 6 da tarde. O Formes fechava o armazém, o Barcari vinha da olaria e o ‘Divinão’ saía da Krupp, onde trabalhava. Era só o tempo de chegar do Tijuco Preto”… Tempo de chegar para encontrar o amigo Tortorella, que já estaria por ali, após ter descido as portas do seu depósito.

Quem também tem muitas e gostosas recordações do Floresta é Barbie Tavares, que nasceu na Vila Rami, estudou na Escola Napoleão Maia e “estava todos os dias” no clube. Todos os dias e o dia inteiro, exceção feita ao período escolar. “Aprendi a nadar na piscina do Floresta. Meu pai (o caminhoneiro José Tavares) jogava todo mundo na piscina (ela se refere, também, aos irmãos Sol e Rodrigo). Ele dizia: ‘Vocês têm de aprender a nadar’. E ia jogando a turma na água”…

Com tantas histórias e lembranças saborosas, o jundiaiense lamenta que o Floresta seja objeto de disputa judicial. Por causa de uma reclamação trabalhista, o clube perdeu uma área estimada em R$ 5 milhões – vendida em leilão por meros R$ 1,05 milhão. As acusações recaem sobre o Circolo (a quem cabia, segundo reza o contrato de comodato, tanto cuidar das propriedades quanto assumir as despesas de água, energia elétrica e tributos a partir da posse).

Por um lado, a Justiça recebeu denúncias de que o acordo não foi cumprido pelo Circolo. Mais: que o Circolo penhorou um imóvel de valor muito superior ao necessário para saldar uma dívida trabalhista de pouco mais de R$ 20 mil. Mais ainda: que o patrimônio do Floresta está sendo dilapidado.

Vittorio Mario Scappini, da Confederazione dos Circolos Italianos no Brasil, rebate e diz que pagou muitas contas do próprio bolso ao longo destes anos, por conta de empréstimos contraídos por ex-presidentes do Circolo. Sobre o leilão da área citada, diz que ficou sabendo horas antes. “A Justiça jamais nos avisou”, afirma.

Ao lado dele, o advogado Eduardo Guedes (que defende o Floresta) trabalha para regularizar toda a situação, anular o leilão e se manter na causa – porque também há quem o queira destituir como advogado do clube. Enquanto isso, Dirceu Cardoso, interventor nomeado pela Justiça, observa tudo. E torce para que Nenê (o camisa 10 do São Paulo nasceu nas quadras do Floresta) leia a reportagem e, quem sabe, possa marcar mais um golaço, ajudando o Floresta do coração de tanta gente.

Rengagnin lembra das duplas que faziam os duelos no truco e na caixeta

 

 

 

 

 

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