- Jornal de Jundiaí - http://www.jj.com.br -

Grupo de voluntários leva ioga aos detentos no CDP Jundiaí

Um sonho só tem sentido se for coletivo e atingir o maior número de pessoas para a construção da paz. Esta é a principal inspiração para um grupo de iogues de Jundiaí que resolveu levar a prática de ioga aos detentos do Centro de Detenção Provisória de Jundiaí, há seis meses, no projeto Yoga Social.

A jornada começou quando a ceramista Silvia Moreira assistiu ao documentário “Como a ioga salvou minha vida”, relato de um fotógrafo que se reabilitou fisicamente com a prática e que começou a conhecer praticantes no mundo todo. Um grupo em especial chamou a atenção, pois levava ioga para presos no corredor da morte, nos Estados Unidos. Silvia enviou o filme à jornalista Ariadne Gattolini, que o assistiu e passou o final de semana chorando. “Senti que o ioga poderia ser uma bênção maior.”

Em um telefonema de trabalho, Ariadne conheceu o diretor do CDP, Alexandre Apolinário, que topou abrir o raio 2, onde ficam os detentos menos perigosos, para a prática de ioga. Imediatamente, o professor da jornalista e da ceramista, Thiago Castillo Salin, assumiu a mentoria do projeto e, meses depois, chegou Carlos Vinicius da Silva, também professor da prática.

O que poderia parecer uma prática menos relevante ou ser tratada com machismo pelos detentos, logo foi encampada por eles. Eles são ótimos praticantes e gostam de desafios físicos. Uma fala chamou a atenção do grupo, logo após uma meditação de mindfullness, com ampliação da consciência. “Quer dizer que eu não preciso mais ser um homicida, que posso fazer outra escolha em minha vida?”, perguntou um rapaz de menos de 25 anos no final da aula. “Respondemos que sim. Que é possível não cair sempre no mesmo buraco”, afirma Silvia Moreira.

Thiago se recorda de uma data em especial, quando um garoto de 20 anos aniversariava. “Dedicamos nossa prática a ele. No fim, ele nos disse que foi a primeira vez que ele se sentiu liberto dentro de uma prisão, após dois anos de detenção.” Os olhos dele se encheram de lágrimas e o grupo foi tocado profundamente com a fala. “A intenção é que eles tomem consciência de suas ações, como todos nós precisamos estar conscientes o tempo todo para não cometer uma atitude errada”, afirma Thiago.

RELATOS
Os relatos de vida são intensos. Não raro, durante a prática ou na meditação final, eles se emocionam ou choram. Esta semana, um detento, alcoólatra, explicou como o vício o levou a ser preso. De alta classe social, com quatro filhos, já na meia idade, mostrou ao grupo como fica tocado com as aulas. “Eu sei que sou doente e que preciso me tratar. Agora, sei que a consciência é para a vida inteira”, afirmou.

Ao contrário do que a maioria da população pensa, o grupo não sente medo ao entrar no raio. “Eles são tratados com respeito e nos respeitam”, afirma Ariadne. “Outro dia mesmo, chovia e eu dava aula em um pedacinho de quadra coberto. O tempo todo, eles mudavam meu tapetinho de lugar para não me molhar. Aquele gesto me comoveu muito”, afirma.  Carlo Vinicius diz que não há diferença entre as aulas comuns e as que são ministradas no CDP. “Entendo que são pessoas, independente de sua cor, sexo ou religião, ou mesmo dos atos que tenham cometido. É muito importante entender que a liberdade pode estar dentro deles”, revela.

Para Alexandre Apolinário, diretor do CDP, logo nos primeiros meses do projeto, a direção conseguiu verificar uma melhora relevante no comportamento dos reclusos, até mesmo no relacionamento do homem preso com os agentes. “Percebemos que diminuiu significativamente a incidência de embates entre as partes (presos e agentes), bem como o ambiente se tornou menos hostil. Nesta esteira, esperamos ampliar as atividades durante o próximo ano, atingindo maior número de presos e estender o projeto aos servidores penitenciários, fazendo com que os bons fluidos da prática se difundam em nosso CDP de Jundiaí.”

A prática dos exercícios e da meditação da ioga abrem uma nova percepção de mundo para a maioria, que vem de classe economicamente baixa e com pouquíssima instrução, não raro analfabeta ainda na idade adulta. Outra fala de um detento emocionou Silvia. “Obrigada por nos trazer a bondade. Ficamos em paz na presença de vocês”, disse um senhor de mais de 70 anos, ao se despedir, na última aula antes do Natal.

T_DSC_0621 [1]

[2] [3]