UM DIA DE AGENTE DE SAÚDE

‘Um cafunezinho’ pela saúde da comunidade

“Que bom te ver, minha Rainha”, “Você está ótima, minha nega”. É assim, mais um abraço caloroso, que se cumprimentam a agente de saúde Maria Antonia de Oliveira Galvão, 54 anos, e a aposentada Noêmia Maria da Conceição Silva, 87 anos. “Como você está?”, “Tem tomado seus remédios?” e “Já marcou a cirurgia?” são alguma das perguntas que Maria faz durante a visita de rotina.

A aposentada pergunta como está o “Rei” (O Dr. André, um dos médicos da Unidade Básica de Saúde do Tulipas) e pede mais Paracetamol “para aguentar a dor”. Maria checa em seu caderno os remédios e as quantidades que deve levar na próxima vez.

Dona Noêmia e seus filhos são uma das 107 famílias que Maria visita por mês no bairro, onde também mora. Depois de bater o ponto na UBS Tulipas, ela anda pelo Jardim Adélia a pé, sob sol ou sob chuva, verificando se as famílias estão com as consultas em dia ou se as crianças estão com a carteira de vacinação atualizadas, orientando sobre como controlar a hipertensão ou o diabetes e vistoriando os jardins em busca de pneus ou locais com água parada e esconderijos de animais peçonhentos, trabalho que auxilia a Unidade de Vigilância de Zoonoses (UVZ). Às vezes vai sozinha, às vezes com uma enfermeira ou um médico.

A rotina é incerta. “Tenho a meta de visitar cada uma das famílias pelo menos uma vez por mês, mas os idosos e acamados eu visito com mais frequência e às vezes atendo emergências”, conta. Dona Noêmia precisará passar por uma segunda cirurgia no rosto para tratar um câncer de pele, o que exigiria de Maria algumas visitas mais frequentes se ela não estivesse de férias. “Saio dia 14 e volto só na metade de fevereiro e não tem outro agente de saúde que possa me substituir. Virei visitá-la porque me importo, mas infelizmente o bairro fica sem cobertura”, lamenta.

Segundo a Prefeitura de Jundiaí, a quantidade de agentes comunitários em um território depende da necessidade e do perfil epidemiológico local. Em áreas de maior vulnerabilidade, é preconizado pelo Ministério da Saúde, por meio da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB/2017), um agente para o máximo de 750 pessoas.

Maria é agente comunitária de saúde há 15 anos. Ela começou como voluntária da Pastoral da Saúde e depois prestou concurso. Por amor, ela vai além de suas funções. Para quem não tem sinal de telefone ou internet, ela marca as consultas. Para quem mora onde não chega energia ou água encanada, ela assina uma procuração que substitui o comprovante de residência no registro das UBS. Algumas propriedades do bairro são sítios, que ela visita com o próprio carro sem nenhuma ajuda de custo com a gasolina. “Gosto de estar junto das pessoas e me sentir útil”.

Os nove filhos de Dona Noêmia, o ex-presidente Lula e as rosas no jardim – cuja primeira muda foi dada por Maria – também viram pauta da conversa de aproximadamente uma hora com a aposentada.

A prosa gostosa entre as duas denuncia um dos aspectos essenciais – quiçá o mais importante – da profissão de agente de saúde: o laço emocional entre assistente e assistido. “Todo mundo precisa de um cafunézinho, um carinhozinho”, diz Dona Noêmia sobre o trabalho da amiga.

 

 

 

 

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