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Jundiaí, 24 de maio de 2017
04/07/2015 23h00 - PELA IGUALDADE

Discriminação sentida na pele se transforma em exemplo

© Fabiano Maia
Ademir José da Silva compõe a Secretaria Municipal de Gestão de Pessoas da Prefeitura de Jundiaí como analista de gestão em direito
Ele nasceu em Mato Grosso do Sul, vive em Campinas, mas é na Prefeitura de Jundiaí, que desde 2012, o advogado Ademir José da Silva, divide boa parte de sua experiência no Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra, além do apoio jurídico concedido a Coordenadoria Especial de Promoção da Igualdade Racial. O despertar de toda esta vontade emgarantir direitos iguais, independente da etinia, garantiu a ele o convite para integrar a Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no País. Hoje, ele faz a diferença, faz diferente e espera pela mudança que ainda virá e que contempla todas as cores.

Jornal de Jundiaí: Como o senhor recebeu a convocação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Campinas para integrar a Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no País?
Ademir da Silva: Desde 2003 eu participo de comissões da OAB, entre elas, a de Igualdade Racial. Eu acredito que o convite veio do vasto trabalho desenvolvido ao longo da minha história na comunidade negra e que chegou a Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra.

JJ: Como será o trabalho desenvolvido por esta comissão?
AS: Na verdade, os trabalhos estão em fase embrionária, embora a comissão nacional já está instalada. Composta por representantes dos 27 estados, a comissão tem como objetivo levantar, documentar e analisar o processo de escravização que, oficialmente, se estendeu por 354 anos, mas que pelo nosso entendimento ainda existe no Brasil. Hoje, não apenas pelos negros, mas sabemos de trabalho escravo praticado de forma ilegal no País. A outra frente da comissão será levantar uma possibilidade de responsabilidade do Estado com relação a este processo. A terceira vertente será a proposição de políticas afirmativas de inserção de forma concreta de integração, participação e apropriação de tudo o que se produziu neste país e que hoje ainda os afrodescendentes estão muito distantes.

JJ: Neste sentido, o senhor teria algum exemplo?
AS: Entre os cargos criados no Brasil, hoje, tanto nos três poderes, como na iniciativa privada, apenas 18% são ocupados por negros. No Supremo Tribunal Federal não há um negro. O Supremo Tribunal de Justiça eu conheço apenas um negro, o mesmo vale para o Tribunal Superior do Trabalho. Entre os 39 ministros da Presidência da República, apenas a de Política e Promoção da Igualdade Racial, Nilma Lino Gomes é negra. Em contrapartida, as estatísticas apontam que 52% da população é negra.

JJ: E o racismo institucional?
AS: É o olhar de naturalidade da sociedade diante da ausência de negros nas instituições, como se não houvesse capacidade ou interesse dos negros em ocupar estas vagas. Basta passar os olhos pelas galerias de fotografias das Câmaras municipais, prefeituras e instituições de outras instâncias que se constatará a ausência quase que toral das mulheres e dos afrodescendentes. A democracia avançou muito, mas a sociedade ainda é predominantemente branca e masculina.

JJ: As cotas permite aos negros esta igualdade ou é mais uma ferramenta de discriminação?
AS: Hoje, 80% dos juízes que prestam concurso para ingressar o Poder Judiciário. Isso também é cota. Na época do Sarney, em 1986, foi criada a Lei do Boi, que instituiu vagas para os filhos de fazendeiros garantirem vagas nas escolas agrícolas. Isso também é cota e existe até hoje. Existem cotas para os deficientes físicos. ou seja, as cotas para os afrodescendentes não é novidade. Se fizermos uma análise de todo o arcabouço histórico dos negros, verificaremos que somente em 1993, em uma conferência internacional de direitos humanos, na Suiça, o governo brasileiro reconheceu que ainda não tinha resolvido o problema da discriminação. A partir daí, ficou decidido corrigir esta discriminação racial, por meio da criação de políticas compromissadas com a reparação deste processo de escravidão. No Brasil, temos as políticas afirmativas, cujas cotas são apenas uma espécie para que os negros tenha maior participação em diferentes esferas institucionais. Ou seja, as cotas é um instrumento de discriminação positiva, sendo que anegativa nós já temos que é 100% de cotas nas instituições para os não negros. Se temos 50% da população negra, porque apenas 20% das vagas são destinadas aos afrodescendentes.

JJ: O senhor já sofreu alguma discriminação?
AS: Até os meus 18 anos de idade eu nunca sofri qualquer tipo de discriminação. Hoje, eu sei que até tive momentos que poderiam ser caracterizados como disciminatórios. Após os 18 anos, eu vivi uma situação triste. Eu morava na avenida Orozimbo Maia, em Campinas, e trabalhava como alfaiate. Ao fazer a entrega de uma roupa, o porteiro do prédio sugeriu que eu utilizasse o elevador de serviço. Este caso mexeu comigo, porque despertou um sentimento de baixa autoestima. Quem discrimina nem imagina o mal que causa. Há casos de pessoas que se deprimem. Uma outra situação de discriminação aconteceu quando eu tentei me tornar sócio de um clube de Campinas e enfrentei dificuldades. Na época, eu trabalhava em uma multinacional e o meu gerente, que era sócio do clube, decidiu me ajudar. Foi quando eu descobri que o único sócio do clube negro era o Amaral, zagueiro central da seleção brasileira. Neste momento eu assumi o desejo de lutar pela igualdade racial e, ao me associar ao Clube Cultural Recreativo Campinas, que foi fundado por um grupo de pracinhas negros que estiveram na 2ª Guerra Mundial. Foi quando comecei a desenvolver este trabalho que segue na minha vida até hoje.

JJ: Como o senhor vê as relações sociais dos negros na sociedade?
AS: Eu vejo como um processo que todos os brasileiros têm que resolver: cada um na sua parcela de intolerância. Nós não temos condições de ter um País viável onde quase 50% da população vive em situações aleijado. Eu tenho amigos negros que sonham em ser médico, mas não possui condições e não é por falta de força de vontade. Tudo é consequência: quando uma empresa não aceita um negro da recepção, ela não só esta tirando este afrodescendente dali, como tira a possibilidade do filho deste negro estudar em uma universidade.

JJ: Qual o maior direito que o negro ainda não conseguiu conquistarar?
AS: O direito material, nós só temos o direito formal. Nós temos uma estrutura que não reflete o que a lei prega. Hoje, nós temos que buscar o direito na prática. Se somos todos iguais diante da lei, temos que ocupar o mesmo espaço, os mesmos cargos e na mesma proporção.

JJ: Como o senhor enxerga o futuro do negro na sociedade?
AS: Eu sou um otimista. Eu vejo o futuro com bons olhos. Nós vivemos um momento de discussão, debate e consciencia de que podemos ter um País muito mais forte. Todas as instituições, pública e privada, devem olhar para o arco iris que é o Brasil, teremos um futuro brilhante pela frente.

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