ESPECIAIS
Jundiaí, 19 de agosto de 2017
14/01/2017 22h00 - ENTREVISTÃO DE DOMINGO

Equilibrar desenvolvimento com preservação garante água

Luciana Muller
lmuller@jj.com.br
© Alexandre Martins
AFONSO PECHE FILHO, 59 anos, engenheiro agrônomo, pesquisador científico, natural de Tanabi (SP), cidadão jundiaiense com título concedido pela Câmara Municipal, é morador da cidade há 32 anos, mesmo tempo que tem de trabalho no IAC
Profundo conhecedor do tema água, Afonso Peche Filho, pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas / Centro de Engenharia e Automação (IAC/CEA), afirma que Jundiaí precisa se atentar para melhorar sua captação e produção de água para não sofrer com escassez no futuro.

Jornal de Jundiaí: Como vê as relações da cidade com questões do abastecimento hídrico e o desenvolvimento urbano? 

Afonso Peche Filho: Vejo relações nebulosas. As questões do abastecimento hídrico não podem ser tratadas estando distantes da comunidade. É a população que demanda a maior parte do consumo, é ela que mais contribui para a ocupação das áreas ciliares, para a degradação de APPs, e com a poluição dos cursos d’água. Além de tudo, é a população que deve ser preparada para enfrentar extremos como enchentes e longos períodos de seca.

O desenvolvimento urbano passa por atingir a soberania hídrica, que é dotar a cidade de autonomia na captação e reservação de água no seu território. De nada adianta aumentar o tecido urbano se isto vai comprometer a capacidade do município em utilizar seus recursos hídricos.

Como o senhor analisa a política municipal de recursos hídricos?
Para mim ainda não está claro qual é a política municipal de recursos hídricos. Uma cidade não pode tratar de recursos hídricos somente visando o abastecimento.

O primeiro ponto é entender a cidade inserida no ciclo hidrológico regional. Como é a influência de tecido urbano e do tecido rural no ciclo hidrológico do município? Como o município se comporta nos períodos de abundância e de escassez hídrica? Como o município trata a soberania hídrica do seu território? Como está estruturado o plano de gestão hidrográfica do município?

Como o poder público se compromete com a gestão dos recursos hídricos do município? Estas são perguntas que eu gostaria de ver respostas claras e objetivas. Respostas como diretrizes para planejamento de ações de curto, médio e longo prazos.

Podemos dizer que a cidade está numa posição tranquila?
De forma alguma, a cidade está a cada dia mais vulnerável. É inegável o grande valor da água reservada na represa do DAE. Mas nunca podemos esquecer de que a demanda pela água do Rio Atibaia aumenta a cada ano e no futuro o volume da transposição pode sofrer redução.

Além disso, a transposição provoca um significativo aumento no fluxo de água causando erosão nas margens do Rio Jundiaí–Mirim. Todo este sedimento gerado pela transposição vem parar na represa causando um ritmo forte de assoreamento. Se persistir esse problema, com o passar do tempo, a cidade vai demandar mais água e a represa vai reservar menos. No futuro esse sistema pode entrar em colapso. Não existe posição de tranquilidade, temos muito o que fazer para assegurar água boa para o futuro da cidade.

Fez um levantamento sobre as águas de Jundiaí. Quais os resultados?
O que fizemos, eu e outros pesquisadores coordenados pelo pesquisador Dr. Jener Fernando Leite de Moraes, foi estudar águas da Bacia do Rio Jundiaí-Mirim, e águas das cabeceiras da Bacia do Rio Capivari.

O estudo mostrou contaminações generalizadas por coliformes fecais, eutrofização (fósforo e MO) em vários pontos; poluição difusa por resíduos sólidos; além de diversificado tipos de poluição biológica (plantas, moluscos e peixes). Em resumo: é necessário despoluir e diminuir o risco de poluição nas duas bacias estudadas.

Existe como a cidade ficar mais tranquila em relação ao abastecimento? Como?
A tranquilidade pode vir se efetivamente tivermos um plano de gestão estratégica focado na certeza de que as condições de abastecimento no futuro serão muito melhores do que são no presente. Se não tivermos ações claras e bem planejadas o futuro do abastecimento com qualidade está seriamente comprometido.

Existe uma tendência de aplicarem a ‘culpa’ pelo consumo de água na agricultura. Ela é vilã ou heroína no ciclo de produção de água?
Sim, há uma tendência generalizada, nem só de pesquisadores, em afirmar que a agricultura gasta muita água, principalmente sistemas de irrigação por pivô central. Mas na verdade grande parte da água de irrigação infiltra ou evapora, portanto não é perdida.

Os problemas acontecem quando há escassez hídrica, a competição pela água leva a declarações e procedimentos muitas vezes exagerados ou inadequados. Outro agravante é o equipamento de irrigação mal dimensionado ou com problemas de manutenção gerando perdas.

Nestas condições, sem planejamento, sem preparação e sem adequações a agricultura irrigada fica muito vulnerável às pressões da sociedade. Toda cidade deveria ter diretrizes para uso agrícola da água; bem como os Planos de Gestão de Bacias devem prever perímetros adequados para irrigação levando-se em conta a outorga, e segurança ambiental. A agricultura não pode e não é a atividade vilã desta situação.

Como os agricultores podem colaborar para que a terra ‘produza’ mais água?
Se adequando para uma nova realidade necessária às prioridades ambientais da cidade, que dentre tantas, a recarga dos aquíferos e aumentar a capacidade de reservar. O agricultor pode buscar habilitação para prestação de serviços ambientais, e receber por isso. Dentre eles a readequação hídrica da propriedade para aumentar e melhorar a infiltração e a captação das águas de chuva.

Como caracterizar essa “nova realidade” para uma agricultura que a cidade precisa?
Os agricultores foram orientados para trabalharem num modelo de produção reducionista, mais simplificado, com objetivos mais focados no produto econômico (uva, verdura, madeira, leite, carne) sem levar em consideração que eles constroem ou produzem ambientes, ecossistemas modificados, os agroecossistemas.

Esse ambiente agrícola (agroecossistema) é complexo e produz muitos produtos além do econômico. Produzem coisas boas, como beleza cênica, sequestro e armazenamento de carbono, proteção de biodiversidade, recarga de aquíferos (armazenamento de água), alimentos não convencionais (PANCs), alimentos para abelhas e outros seres vivos. 

Nas cidades como Jundiaí, a agricultura tradicional muito econômica vai ser ou está sendo substituída por uma mais racional, com fortes valores socioambientais. As áreas agrícolas do território municipal são de suma importância para a qualidade de vida e bem-estar da cidade, pois compõem o que denominamos territórios estratégicos. Os agroecossistemas modernos buscam sustentabilidade produtiva e não é mais permitido conviver com áreas que apresentam algum tipo de degradação.

Existe trabalho desenvolvido que aponte números sobre quanto se consegue aumentar a produção de água com o trabalho de solo adequado?
Estudos mostram que a readequação de ocupação e uso de terras e instalações permitem captar quase todo volume de chuvas incidentes nestes locais. Para Jundiaí, que tem um regime pluviométrico por volta de 1300 mm, isso significa que podemos captar e armazenar por volta de 1300 litros por metro quadrado de área readequada, ou seja, se tivermos uma eficiência na ordem de 76% podemos captar 10.000.000 litros por hectare.

É possível recuperar nascentes mortas? Como? Exige muito investimento?
Perfeitamente, aumentando a recarga hídrica do local. Isto se faz com a readequação de ocupação e uso do solo, que foca restabelecer a funcionalidade hidrológica através de ações para melhorar a cobertura vegetal, a infiltração, captação, condução e dissipação das águas de chuva.

O plano de readequação se desenvolve dentro das capacidades de investimento do agricultor e através de políticas públicas de incentivo, como o pagamento por serviços ambientais. Mas de uma coisa a gente sabe: a escassez hídrica é muito mais cara do que a abundância. Para municípios como Jundiaí, vale a profecia: “Invista agora na reestruturação hídrica do seu território para no futuro ficar distante da escassez de água”.

A água da Serra do Japi também poderia ser usada para o abastecimento ou previsão de futuro abastecimento sem prejudicar o ecossistema? Como?
Sim, na minha opinião as águas da Serra do Japi poderão ser mais utilizadas para o abastecimento da cidade. Para não alterar profundamente os ecossistemas (Mata Atlântica e Cerrado) por qual essas águas percorrem, será necessário um conjunto de estudos sobre alternativas de captação sempre acompanhados de previsões de impactos.

O fechamento da unidade IAC/CEA de Jundiaí irá interferir nas pesquisas sobre água?
Se isto ocorrer, a cidade vai ficar marcada por perder um centro de pesquisa, sonho de qualquer cidade desenvolvida que se preze. É evidente que ocorra um prejuízo às pesquisas, principalmente aquelas nos laboratórios do CEA/IAC e nas terras do município, que são realizadas com custos muito reduzidos, isto graças a um perfeito entendimento que temos com a Prefeitura, com o DAE, Associação Mata Ciliar, ETEC Benedito Storani e com o imenso apoio dos produtores rurais do município. Quanto ao possível remanejamento ainda não sei como isto vai acontecer.

Sabemos que o mundo é regido pelo financeiro. Podemos mensurar quanto o desenvolvimento de pesquisas poderia render para a economia? O valor é imensurável. Quanto custa o bem-estar? Quanto custa a qualidade ambiental de território?
Quanto custa uma estrada para o futuro melhor? Não existe um estudo específico, existe uma convicção de que podemos e queremos ajudar a cidade a equilibrar o desenvolvimento econômico com um desenvolvimento mais humano e ambientalmente mais correto. O Centro de Engenharia e Automação é um centro que estuda, “engenha” sistemas de desenvolvimento mais eficientes.

Comente esta matéria 12 comentários
Flávio 15/01/2017 08:26:05
Este sim seria um profissional digno para o comando dá DAE em Jundiaí, mas nossos políticos que dizem amar tanto a cidade preferem fazer o loteamento político pra brincar de Lego de um assunto crucial pro futuro, as futuras gerações não vão perdoar nem eles nem nós que permitimos como gado manso.
Orlando Paggiaro 15/01/2017 19:38:58
Parabéns amigo Afonso,você é uma pessoa preocupada com o futuro do bem estar da população de nossa região.
Roberto Mangieri Junior 15/01/2017 20:46:50
....muito lucido. Uma oequena parte dos agrucultores e do poder oublico têm rsta noção, mas agrandr maioria não. Novamente é preciso educar. . Ernest Gotsch diz: "a agua a gente planta"
Flora Tereza Rodoski Faouaz 16/01/2017 12:19:03
Me sinto orgulhosa de ser amiga do Afonso,grande protetor do nosso meio ambiente, de uma inteligência invejável,que poderia estar descansando tranquilamente e em vez disso é um incansável defensor de toda natureza ! Obrigada Afonso por todo seu trabalho !
Guido costa 16/01/2017 13:34:58
muito bom Afonso sempre brilhante
Abraços
André Chain 16/01/2017 15:00:32
Com muita clareza e competência você, Afonso, dá a solução preventiva a esse problema que, pela grandeza de nossos governantes, infelizmente só vai ser levado a sério quando tornar-se grande e caro demais. Enquanto for possível culpar agricultores e S. Pedro, sempre vão deixar para que seus sucessores o resolvam.l
Acho que este tema deveria ser incluído no currículo do ensino básico para que nossos filhos e netos não sejam mais iludidos e pressionam os gestores.
Minha reverência a você, por ter sido convidado a discorrer sobre o assunto, e meus parabéns pela desenvoltura com que o apresentou! Abraço.
Osvaldo Fustinoni 17/01/2017 06:06:15
Parabéns,,Falando e explicando com muito conhecimento e sabedoria e prevendo oque pode ocorrer em futuro bem próximo.
Fabio Silva Schavinski 17/01/2017 07:48:11
O mundo precisa de mais pessoas como o Prof. Afonso.
Leonardo Coda 17/01/2017 09:14:23
Excelente diagnóstico, que exige um trabalho muito bem amparado pelo órgão de pesquisa. Só quem vive essa realidade, dá valor.
Flávio Peixoto 18/01/2017 16:53:11
Eu me pergunto quando haverá consciência necessário por parte da população e dos políticos para que esse tipo de atitude conservacionista seja efetivamente implantada, pois programas que nunca saem do papel não resolvem nada!!!
Fernando Machado 13/04/2017 16:54:55
Parabéns, prof. Afonso! Uma excelente exposição sobre a questão hídrica. A leitura de seus textos é sempre um grande aprendizado!
Mauro Orsi 13/04/2017 21:26:20
A Serra do Japi é a única fonte de água potável de Itupeva e Cabreúva, e abastece parte de Itu, Salto, Indaiatuba e Jundiaí, mas está cheia de eucalipto!

O Novo Código Florestal Brasileiro (Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012, oriunda do Projeto de Lei nº 1.876/99) permite “reflorestar” a Serra do Japi e toda a Mata Atlântica de São Paulo com eucalipto, exceto as áreas de proteção integral. Por isso, mais do que nunca, é preciso transformar toda a área tombada da a Serra do Japi em Unidade de Conservação de Proteção Integral (PARQUE ESTADUAL - SERRA DO JAPI) e as demais áreas particulares em RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural).

"O Projeto de Lei Estadual 652/2009 que prevê a criação do Parque Estadual Serra do Japi encontra-se com a instrução completa e apto à deliberação do Plenário da Assembleia Legislativa do Estado, a critério dos deputados estaduais de São Paulo." Deputado Fernando Capez, presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, em resposta ao In
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