ESPECIAIS
Jundiaí, 12 de dezembro de 2017
04/06/2016 22h00 - ENTREVISTÃO

‘Não basta dizer não à cultura do estupro‘

Ariadne Gattolini
agattolini@jj.com.br
© Alexandre Martins
Margareth Arilha, 59 anos, é doutora em Saúde Pública
Há 30 anos, a psicanalista Margareth Arilha estuda um tema que incomoda a sociedade moderna: a sexualidade feminina e os direitos reprodutivos das mulheres.

Pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos da População Elza Berquó, da Unicamp) e do Cebrap (Centro Brasileiro de Análises e Pesquisas), assessora da ONU (Organizações das Nações Unidas) e atuando também na FMJ (Faculdade de Medicina de Jundiaí), Margareth é defensora do diálogo para se construir uma sociedade em que a sexualidade nem esteja sob a tutela do Estado nem tampouco das igrejas.

“Quando a gente vê um episódio como o estupro coletivo no Rio, entendemos que o tema não está sendo nem estudado pela sociedade e muito menos discutido na educação nas escolas.” A psicanalista lembra que as forças conservadoras cresceram sob a tutela do governo de esquerda. “A Dilma não avançou no tema. Resta agora construir um novo diálogo com o governo que ora se apresenta.”

JJ Regional: Como você analisa a crise brasileira?

Margareth Arilha: Além da crise econômica anunciada, a Operação Lava Jato deu uma conotação de fundo, com a delimitação de uma barreira, em que a sociedade diz: “Vamos parar por aqui. Vamos olhar profundamente para os gastos e ações do Estado, que precisam ser revistos.” Foi muito importante o apoio à operação, que veio de políticos e pessoas de todos os tipos, incluindo jovens, independentemente de partidos. A mensagem que ficou é a da construção de uma nova ética, que estamos na gestação de algo melhor.

Você concorda que há pouca participação das mulheres na política? 

Sim. Tudo o que vimos na política brasileira ultimamente foi de um cenário masculino absoluto. As mulheres só apareciam como parceiras (cúmplices) de seus maridos. Entretanto, toda esta cisão que houve no País nos leva a acreditar que haverá a construção de um diálogo. Da problematização, temos de sair com análises mais profundas.

O Estado “cuidador” de Dilma e Lula não deu em nada. Não há mais “pai” nem “mãe”, imagens construídas pelo marketing. Agora é hora de olhar para os conflitos e tensões e costurar um novo País. A gente se pergunta, quando vê aquela multidão protestando: “De onde veio tudo isso?” Estava em gestação e ninguém reparou.

Como você analisa o estupro coletivo do Rio de Janeiro?

Tenho visto muitas mulheres dizerem não à cultura do estupro. Mas não basta assinarmos. Precisamos saber quem são os 33 estupradores. Como foram formados? Como estamos construindo este modelo na mídia, na sociedade, que enaltece a figura da mulher objeto?

Atualmente, as mulheres no Brasil têm quatro anos a mais de estudos do que os homens. Para a camada mais pobre qual a possibilidade masculina? Entrar para o narcotráfico ou virar homem religioso? É uma realidade empobrecida, sem capacidade de expressão e de produção.

Até hoje, há pouquíssimas ONGs que trabalham a sexualidade masculina e a violência. Eu mesma fundei uma em São Paulo, mas é muito pouco. Infelizmente, no Brasil, a educação sexual ficou perdida nas escolas e nas igrejas e, certamente, não foi bem cuidada.

Quando nos deparamos com este assunto, voltamos a Freud, não é mesmo? 

Sim. Porque a sexualidade é a pulsão da vida. Não há como escondê-la e não pode ser destruída. É, por si, um canal de expressão que não precisa ser desviado nem destruído. O discurso de que a sociedade será destruída pela sexualidade é falho. A sexualidade é o canal livre de sua expressão.

E, diante de tantos retrocessos, não temos avanços quando falamos de políticas públicas para a saúde da mulher?

Começamos a discutir saúde pública para mulheres na década de 80. Até mesmo as delegacias especializadas (DDMs) vêm do governo Montoro, tendo como secretário de Segurança Pública, Michel Temer. De lá para cá, os avanços foram lentos. Naquela época, era ousado falar em planejamento familiar.

Hoje, as mulheres têm livre acesso aos métodos. Temos que avançar ainda no direito à esterilização para as mulheres com mais de 25 anos e dois filhos. Ao mesmo tempo, percebemos que houve aumento no número de vasectomias. Temos avanços e mudanças comportamentais, mas muito lentos.

Você tem atendido na área de Saúde Mental da FMJ as gestantes que tiveram bebês com microcefalia. Como está o estudo?

Participo de um estudo na área de Pediatria, coordenado pelo Saulo Ramos, no qual pretendemos estudar um universo de 500 gestantes (atualmente, há 200 em estudo). É um trabalho que está começando, mas que é pioneiro, e está pari-passu com várias entidades universitárias.

A própria OMS (Organização Mundial de Saúde) já associa o zika com a microcefalia. Nosso trabalho é acompanhar estas gestantes, fazer os exames, coletar materiais e fazer o acompanhamento gestacional desta criança até os 3 anos. Lembro que todos estes casos têm a obrigatoriedade de notificação.

Por enquanto, temos mais de dez casos de microcefalia na FMJ em acompanhamento. Para a minha área, especificamente, percebo que há uma certa resistência e negação das mulheres em aceitar a condição de seus bebês, já que elas não percebem diferença alguma no desenvolvimento. Temos que ter compreensão nesta parte do processo mesmo porque não podemos mensurar o impacto da microcefalia na vida desta criança.

Por que o Brasil enfrentou esta epidemia de zika? 

Porque não enfrentamos nossos problemas, como saneamento básico ou a extinção do mosquito aedes Aegypti - que está na pauta de discussão desde a década de 80. E, obviamente, as camadas mais pobres é que sofrem mais, já que trafegam por estas áreas de risco.

O que esperar do governo conservador de Michel Temer? 

Um governo conservador não nasce do dia para a noite. O PMDB era aliado do PT antes de se tornar governo, fazia parte da base desde sempre. Não dá para falar que o governo do PT foi progressista, já que nem Lula nem Dilma avançaram em temas sociais importantes. Muito pelo contrário, não foram progressistas porque compuseram seu governo com forças conservadoras como estratégia de poder. Portanto, talvez agora haja mais esforço para que as discussões de políticas públicas avancem, com diálogo e discussão.

Comente esta matéria 7 comentários
Shofia 05/06/2016 09:07:46
Não entendi, cultura do estupro até onfe eu sei estupro é crime e ninguém apóia isso no Brasil quem comete tal até e punido, mal punido mas é a lei.
Marco 05/06/2016 12:07:09
Agora estupro é cultura e não crime, próximos passos na país da piada, trafico sera cultura, e roubo também cultura, ou seja teremos a cultura do crime, esse é Brasil
Marco 05/06/2016 12:07:09
Agora estupro é cultura e não crime, próximos passos na país da piada, trafico sera cultura, e roubo também cultura, ou seja teremos a cultura do crime, esse é Brasil
Antonio X. 05/06/2016 16:53:57
Para feminista estupro é cultura.....Qualquer um sabe que estupro é CRIME !! Ninguém mais aguenta esse discurso das feministas/esquerdistas...
dcastel 05/06/2016 21:38:25
A grande maioria dos estupros é feita por bandidos que nada respeitam.
Não é cultura é CRIME!
Marina Salgueiro Silva 06/06/2016 19:56:35
Quem não conhece o papel do CEBRAP no gerenciamento de 36 milhões de dólares da Fundação Mac Arthur nos anos 1990-2002 e o papel da Fundação Ford no desenvolvimento da plataforma teórica dos "Direitos SExuais e Reprodutivos" como meio de legalizar o aborto no mundo inteiro, chega até a acreditar que a dra. Margareth Arilha realmente luta pela defesa da mulher. Mas, como o conhecimento livra da ignorância, uma vez que se sabe do Histórico da Formação da Agenda abortista mundial todo esse castelo de cartas se esvai e a verdade brilha radiante: feministas que trabalham para ONGs abortistas comem na mão dos mega-capitalistas!
Isabel Cruz 07/06/2016 10:55:15
Parabéns, Margareth!
Irretocável a entrevista.
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