LITERATURA

Cristina Castilho: Mulheres de aço e flores

Pensei em escrever hoje sobre a senhorinha que veio ao meu encontro, em primeiro de janeiro, na porta da Igreja do Rosário e São Benedito – Santuário Diocesano Eucarístico. Conheço-a faz algum tempo. Perguntei-lhe sobre o companheiro, morador de rua como ela: separaram-se. Roubou-lhe as moedinhas. Quantas vezes a vi de olhos roxos por violência dele. Não conseguia, contudo, distanciar-se, pois, com lágrimas me repetia: “Eu amo ele…” Falar o quê?

No dia seguinte, comecei a ler o livro “Mulheres de Aço e de Flores” do Padre Fábio de Melo. Com vinte contos, retrata mulheres diferentes, algumas delas doentes de amor. A cozinha, coloca como lugar de amor eterno e que esse amor mora nos potes de tempero, nos tabuleiros de bolos caseiros…

Sobre linhas e bordados, no texto Antiguidades: “Linhos e linhas nas linhas da alma. O artesanato das mãos atingia as origens de nossas causas. O que bordávamos no pano bordávamos mesmo era dentro de nós…” E a costureira viaja nas cores dos tecidos.
Em relação à cozinha como às teceduras, das quais pouco entendo, creio que seja exatamente dessa forma, pela minha convivência com mulheres dos quitutes e dos saberes com linhas e gostos diversos.

Verdadeira a afirmação de uma das personagens: ”Sou mulher de poucas palavras. Por vezes tenho medo, por vezes tenho coragem”. Por mais seguranças que se possua, sejam elas materiais, de proximidades, de poder, de fé, temores e valentia se misturam, conforme a que afirma: “A arquitetura de minha alma é barroca. Sou fraca, sou forte, sou luz e sou sombra. Sou de aço, sou de flores”.

Mas voltando à senhorinha, de doçuras e olhar de via crucis, que veio em minha direção: não resistiu à morte do filho. Perdeu-se no álcool e, mais tarde, no crack. Entregou os três cômodos, de propriedade sua, para pagar a dívida e conseguir um lote de pedras. Sem rumo, chegou aqui e, no moço, também dependente químico, de braços fortes, viu a possibilidade de recomeço.

Em sua terra entendia de cozinha, de artesanato, de costura, de determinação. Talvez fosse ele o amor que a alcançara quando ruíam os últimos pilares de sua vida, como no conto “Amor de Sol Poente” do livro em questão. O crack lhe roubou a dignidade e ele lhe tirou o valor da vela que acenderia pela alma do filho. Pediu-me para lhe indicar uma clínica para recuperação.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

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