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Eginaldo Honorio: Periferia (‘quebrada’)

EGINALDO MARCOS HONORIO | 11/05/2018 | 04:00

Periferia (“quebrada”). Voce já ouviu essa expressão né?Estranhamente – na minha opinião – estabeleceram que “periferia” significa não só lugar distante do centro, mas de lugar ruim, sem qualquer recurso, ordem, de total desrespeito, de malfeitores, de pessoas sem caráter, pobres etc.

Desde há muito não concordo com tal definição, lembrando ainda que, como se sabe, o “centro” perdeu seu “glamour”, encanto, vida social etc há muito tempo. Neste sentido, tudo o que for diferente disso é “periferia”, além do fato de que em referidos ambientes residem pessoas de altíssimo nível de educação, respeito, dignidade e demais adjetivos correlatos.

Certa feita, em um evento realizado, por exemplo, junto a um grupo grande de alunos no Jardim São Camilo, desta cidade de Jundiaí, ao abordar a questão da autoestima um dos alunos tocou exatamente nesse tema, oportunidade em que trouxe alguns exemplos que validam o meu pensamento, como por exemplo alguém que resida na Vila Marlene e diz que mora na “periferia”, enquanto que outra pessoa que resida no Portal do Paraíso e mais distante do centro que a Vila Marlene não diz que mora na “periferia”, mas sim no “Portal do Paraíso”.

Naquela oportunidade notei que os alunos gostaram, na medida em que se passa a olhar o próprio bairro com mais amor e elevando a autoestima, a ponto de o garoto mencionado dizer que não falaria mais que mora na “periferia” , mas sim no Jardim São Camilo.

Nessa mesma trilha, por ocasião de uma intervenção policial naquele bairro, a imprensa chegou a noticiar que o ato (intervenção policial) ocorria no “Morro” São Camilo, obviamente com o fim de rebaixar todo o local!
Ainda em minhas andanças, pude notar, sem qualquer esforço, que a vida na chamada “periferia” ou “quebrada” funciona desde que o forasteiro respeite a região na forma de transitar e se postar. Não é difícil, basta pôr em prática o respeito.

Em referidos ambientes, o código de conduta é respeitado, ainda que pareça que não! As pessoas se protegem até porque não querem interferência. Já vimos milhares de vezes, pela mídia, notícias dando conta da ocorrência de fatos relevantes e de vulto e, estranhamente, ninguém viu nada! Noutra, com raras exceções, um morador não ofende ou ataca sem motivo o outro. O que se vê são confrontos de grupos de bairros diferentes. Isso é fato!

Da mesma forma o estrago imensurável que fizeram e alguns grupos ainda insistem em fazer ao visitar agrupamentos indígenas, impondo cultura, religião, mudanças estruturais, provocando danos irreparáveis e de difícil reparação, notadamente sob o aspecto de ordem cultural e histórico, com a radical mudança de vida dos irmãos indígenas.

Por final, ao comparar os ambientes, é fácil notar estruturas e comportamento naturalmente diversos e que aqueles a que se atribuem “bagunçadas” são os que melhor atendem aos interesses dos moradores. Antes de se propor políticas públicas, é recomendável conhecer essa realidade.

EGINALDO MARCOS HONORIO é advogado e membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Jundiaí – eginaldo.honorio@gmail.com


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