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Fabio Sorge: O fim da corrupção?

FABIO JACYNTHO SORGE | 10/04/2018 | 05:00

A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou conta do noticiário na última semana. Desde a ordem dada pelo juiz Sérgio Moro para que ele se apresentasse até os últimos momentos de liberdade de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos, todos os atos foram transmitidos ao vivo.

A efetiva prisão do ex-presidente, com sua condução para Curitiba, foi comemorada por muitos, com fogos, rojões e também nas redes sociais com manifestações entusiasmadas. Seria o fim da corrupção? A resposta para isso, infelizmente, é um retumbante não.

A corrupção no Brasil não é obra exclusiva do Partido dos Trabalhadores e nem do ex-presidente Lula. Na verdade, ela é apartidária, atingindo as agremiações políticas de direita e esquerda, sendo uma decorrência do nosso sistema político. Portanto, é ingênuo e pueril pensar que a prisão de alguém, mesmo sendo um ex-presidente da República irá mudar esse quadro.

E mais, quem vende a prisão de Lula dessa forma ou é ingênuo ou está mal intencionado. Isto porque, a bem da verdade, mesmo com as diversas condenações obtidas pela Operação Lava Jato, não houve uma reforma em nosso sistema político. Assim, para a engrenagem da corrupção continuar, basta que novos atores tomem o lugar dos antigos.

Ou alguém pensa que o sistema de financiamento de campanhas mudou. Como serão pagas as contas milionárias feitas pelas campanhas Brasil afora? Como o novo presidente eleito irá formar seu ministério? Como ele irá obter maioria no Congresso? Como será a relação do Governo eleito com as grandes empresas?

Sem uma reforma política profunda, as campanhas continuarão a ser pagas por métodos ilícitos, os eleitos continuarão a dever “favores” a empresários e o presidente terá de continuar a fazer “leilão” de cargos na máquina pública para poder governar. E terá de continuar a fazer “concessões” a parlamentares em troca de apoio.

E mesmo a Operação Lava Jato – que tanto fez pelo país – tem alcance limitado, pois está sempre correndo atrás dos efeitos de um sistema político nefasto e antiquado.

É fácil culpar Lula por todas as nossas mazelas. Ele, de fato, muitas vezes se presta ao papel do demagogo (aquele que engana o povo em benefício próprio). Mas ao fazermos isso, esquecemos que nossos problemas são decorrentes de nosso sistema político e se quisermos caminhar, um pouco que seja, na direção do fim da corrupção, objetivo inatingível, mas que deve ser buscado, precisamos refundar o nosso sistema político. Do contrário, ficaremos apenas com a efêmera alegria da prisão do corrupto da ocasião.

FABIO JACYNTHO SORGE é defensor público do estado de São Paulo – Vara do Tribunal do Júri – e coordenador da Regional de Jundiaí


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