OPINIÃO

Fernando Bandini: Nélson e a seleção brasileira

O sujeito era um gênio. Nélson Falcão Rodrigues foi o maior dramaturgo da literatura brasileira e um de seus melhores cronistas. Em época de Copa do Mundo, beira o dever cívico lembrar os dois volumes de suas crônicas de futebol: “À sombra das chuteiras imortais” e “A pátria em chuteiras”. Porque Nélson não via “apenas” o jogo (por sinal, enxergava pouco, míope teimoso, inimigo dos óculos). No futebol, para ele, aparecia a procura humana pelo transcendente, pela beleza, pela poesia.

Nos estádios, criou personagens e batizou jogadores com apelidos definitivos: Didi, o lendário maestro da seleção nas conquistas de 1958 e 1962, era o “Príncipe etíope dos ranchos de Carnaval”; Amarildo, substituto de Pelé na Copa do Chile, era “O Possesso”; e Pelé, o “Sublime Crioulo”. Por sinal, quanto ao Rei do futebol, profetizou que seria o maior de todos, em crônica anterior à Copa da Suécia (“A realeza de Pelé”, publicada em fevereiro de 1958, meses antes da consagração mundial do então garoto de 17 anos).

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Ufanista, via na seleção a possibilidade de nós, brasileiros, superarmos o que ele mesmo definiu como “nosso complexo de vira-latas”, um abissal sentimento de inferioridade diante do estrangeiro. Nélson dizia que “o brasileiro é o Narciso às avessas, que escarra na própria imagem”. E a seleção canarinho, com seu jogo empolgante e vistoso, traria uma alegria única, ainda que fugaz. Publicou suas crônicas na imprensa paulista e carioca e acompanhou o futebol brasileiro entre as décadas de 1950 e 1970 (ele morreu em dezembro de 1980), em sua época de afirmação e esplendor, com os três primeiros títulos mundiais e o surgimento de uma constelação de craques: Pelé, Didi, Garrincha, Nílton Santos, Rivellino, Gerson, Tostão…

Aos que o acusavam de não se ater aos fatos e de ser pouco objetivo, retrucava com imagens insólitas: “Os jornalistas objetivos sobem nas paredes como lagartixas profissionais e vão acabar trotando num Sete de Setembro, como um dragão de Pedro Américo; são como quadrúpedes de 28 patas”. E mais: para tratar do imponderável do jogo, criou o “Sobrenatural de Almeida”; os que nada sabiam do futebol eram representados pela “grã-fina das narinas de cadáver” que, ao entrar nas tribunas do Maracanã lotado em dia de clássico, perguntavam: “Quem é a bola?”. Nélson Rodrigues fez do futebol um esporte ainda mais bonito e divertido.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

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