LITERATURA

Fernando Bandini: O preto que falava iídiche

Língua que mistura alemão, hebraico e aramaico, com doses de eslavo, o iídiche é o idioma de judeus da Europa oriental, que se espalhou pelo mundo a partir do século 19. O romance “O preto que falava iídiche”, lançado em 2018, de Nei Lopes, conta a história de Lindonor Santana, garoto negro e órfão, criado na Praça Onze (o nome engloba a praça e o bairro do seu entorno, na região central do Rio de Janeiro). Ambientado entre as décadas de 1910 e 1920, na então capital da República, o livro recria o Rio do início do século passado em que negros, portugueses, italianos, árabes e judeus ajudavam a criar um Brasil que se urbanizava, impulsionado pelas diversas culturas que por aqui aportaram. Mas não se limita ao espaço carioca: o protagonista Lindonor – conhecido por Nozinho – tem facilidade em aprender idiomas. Na Babel da Praça Onze, na qual libaneses, italianos, bantos, judeus e espanhóis se relacionam, Nozinho vai ouvindo e aprendendo. Do francês ao inglês, passando pelo árabe e pelo iídiche, transforma-se num poliglota. Apaixona-se pela bela Rachel, de família de judeus do leste da Europa, mas o romance é proibido pelos pais da garota, que a mandam para a casa de parentes. Romeu se vê separado de sua Julieta, e percorre o Brasil a sua procura, correndo atrás de informações nem sempre confiáveis. Vivencia fatos marcantes da História pátria, como a Coluna Prestes e o golpe de 1930. Aventura-se pelo mundo: do continente americano (andou por São Paulo, Salvador, Nova York…) vai para o africano (Luanda,em Angola, Mogadíscio, na Somália e Adis Abeba, capital etíope, são alguns de seus destinos). Na Abissínia (outro nome da Etiópia), conhece a lendária história de amor do rei judeu Salomão e da negra rainha de Sabá. Até retornar ao Brasil, via Rio Grande do Sul.
O escritor, letrista de música pop e ensaísta Nei Lopes é o autor da esplêndida “Enciclopédia brasileira da diáspora africana”, de que já tratei neste espaço. Pesquisador da cultura negra, Lopes arrisca-se nesse romance de realismo fantástico, falando de um país que se desenhou mestiço, riquíssimo de culturas variadas de todos os continentes – ainda que muitos não aceitem nem reconheçam tal fato. Um país que tem enredo suficiente para muitos ranchos de carnaval, como essa “rapsódia afro-hebraica” concebida na Praça Onze de um Rio de Janeiro miscigenado, elegante e único.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

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