OPINIÃO

Fernando Bandini: soneto a Carolina

Uma obra-prima de delicadeza e afeição. O “Soneto a Carolina” é o mais conhecido poema do escritor não menos famoso Machado de Assis. Aparece como dedicatória no livro de contos “Relíquias da casa velha”, publicado pelo escritor em 1906. O soneto é dedicado a sua mulher, Carolina, com quem viveu por 35 anos, e que falecera em 1904. Dizem os versos: “Querida, aos pés do leito derradeiro/Em que descansas dessa longa vida,/Aqui venho e virei, pobre querida,/Trazer-te o coração do companheiro./Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro/Que, a despeito de toda a humana lida,/Fez a nossa existência apetecida/E num recanto pôs um mundo inteiro./Trago-te flores, – restos arrancados/Da terra que nos viu passar unidos/E ora mortos nos deixa e separados./Que eu, se tenho nos olhos malferidos/Pensamentos de vida formulados,/São pensamentos idos e vividos”.

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Eles se conheceram em 1866, quando a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novaes veio ao Brasil para visitar o irmão Faustino. Poeta e jornalista, Faustino era amigo de Machado. O casamento foi celebrado em 1869. A noiva tinha 34 anos, e o noivo, 30. Mulher intelectualizada, Carolina foi a grande companheira do escritor, a primeira leitora de seus trabalhos, aquela com quem ele dividia impressões acerca das obras. Não se conhecem dissensões nem futricas desse relacionamento. Ao que parece, viveram em harmonia por três décadas e meia, a maior parte desse tempo na casa do Cosme Velho (o “recanto” em que cabia “um mundo inteiro”, citado no poema), no Rio. Não tiveram filhos.

Depois da morte da esposa, o viúvo ia diariamente depositar-lhe flores na sepultura (“o leito derradeiro”), no cemitério São João Batista. As flores, no texto, são “restos arrancados da terra”, essa terra em que viveram tão bem juntos, mas que agora separa os amantes. Na sequência, o adjetivo “mortos” tanto caracteriza a mulher que se foi como o homem que restou. O eu lírico encerra lembrando que, se ainda pensa em sua vida, são recordações que o cercam e não mais projetos, pois o futuro, sem o amor de Carolina, não existe. Em 2004, o jazigo foi leiloado por não haver descendentes que o mantivessem (Machado foi enterrado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras). Um advogado carioca – que exigiu anonimato – arrematou e conservou o túmulo, para que não fossem transferidos os restos mortais de quem inspirou tão bela dedicatória.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

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