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Guaraci Alvarenga: naquele distante dia

Uma pequena cidade do interior. Corria o ano de 1957. Garoto que não chegara aos dez anos de idade. Na pequena rua de terra, o local das brincadeiras de criança. A bola de capotão rolava na ilusão de um gramado dos sonhos. No olhar da ilusão brincava o sonho distante. Uma partida de futebol, num grande estádio. Ligava o rádio, me encantava com que o locutor narrava. Ele percebeu.

Numa noite de sábado, mandou-me dormir bem cedo. Tinha que acordar de manhãzinha. Vestiu-me com a melhor roupa, sapatos de ir para a igreja e meias brancas. Segurou firme a minha mão. O relógio da estação marcava 6 horas. O trem partiu A surpreendente viagem, um descobrimento ao menininho humilde. Quantas cidades. Jundiaí, a cidade das antenas. Mal sabia que iria tanto amar esta terra. A chegada. Estação da Luz, na Capital. Tanta gente. Tanta novidade. Continuava surpreso.

Não lhe perguntei aonde iríamos. Nem ele me havia dito. Sua mão carinhosa, não me largava. Entramos num ônibus. Vale do Anhangabaú. O edifício Martinelli, O cruzamento das avenidas São João e Ipiranga: “Alguma coisa acontece em meu coração”! A avenida Pacaembu. Corredor de duas torcidas em tempos de paz. Bandeirolas e distintivos do time do coração marcando território. O arquitetônico portal do estádio do Pacaembu. Aglomeração na entrada. Avisou-me para acelerar o passo. Tínhamos que encontrar um lugar no meio da arquibancada para melhor ver o jogo. A entrada dos jogadores pelos túneis dos vestiários. O espocar do foguetório. Luzes e cores. Era verdade. O narrador de rádio não fantasiava o espetáculo. Início da partida. A cada lance, um aperto de emoção. O gol. Não vi. Os torcedores da frente se levantaram primeiro. Mas não precisava ver. Eu já o tinha feito antes, nos meus sonhos. Fim de jogo.

Nossas mãos dadas pareciam coladas. Paramos numa lanchonete. Pela primeira vez apreciei o famoso “bauru”. Uma descoberta deliciosa, Retornamos pelo mesmo velho trem. Dentro do vagão, encostei minha cabeça no seu colo e adormeci. Ao acordar, em meu êxtase, estava confuso. Sonho ou realidade? Hoje, passados tantos anos, ao tentar reverenciar a memória de meu saudoso pai lembrei-me deste inesquecível episódio em minha vida. Não pelos acontecimentos vividos à luz de meus primeiros passos fora de casa, mas sim pela doce imagem viva das mãos dadas. Lágrimas furtivas escapam de meus olhos, com gratidão e o reconhecimento ao meu saudoso “velho” por nunca ter deixado de segurar minhas mãos.

A benção, meu pai!

GUARACI ALVARENGA é advogado. E-mail: guaraci.alvarenga@yahoo.com.br

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