OPINIÃO

Maria Cristina Castilho: Testemunhos de claridade

O moço, que de profissão é jardineiro, sentou-se ao meu lado para um café e, com seriedade, “derramou” sua história na mesa antiga, pela qual já passaram e passam excluídas. Fortes os acontecimentos de seu dia a dia, desde a infância: a mãe, atraída por baladas, deixou os quatro filhos para o pai cuidar. O indivíduo os assumiu sem protestos, mas teve dificuldade de diálogo.

Pareceu-lhe que, pelo menos, ser severo os protegeria de acontecimentos trágicos. Chegavam a apanhar sem saber o motivo, mas aceitavam. Era a realidade da família; a forma com que o pai aprendera, por tradição, a cuidar. Aos 18 anos incompletos, acompanhou a prima a uma reunião da comunidade de jovens. Não havia, por parte dele, qualquer motivação para assuntos de espiritualidade. A rua em que residiam era escura, sem iluminação. Gostava muito dela e temia que algo lhe acontecesse nessas idas e vindas.

Enquanto aguardava o final da reunião, observou um crucifixo dependurado e se questionou sobre quem seria aquele homem de sofrimentos, que parecia observá-lo. Levou com ele, por inúmeros dias, a impressão de que o Crucificado desejava lhe dizer algo. Aproximou-se da igreja, conheceu o Senhor e, hoje, a partir d’Ele, perdoou o passado, compreendeu o pai, participa de inúmeras atividades do bem e é, sem seguranças materiais, de alicerce do amor, que desculpa tudo, crê tudo, espera tudo e suporta tudo, como escreveu São Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios (13,7).

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Emocionou-me e me fez compreender porque a terra, tratada por suas mãos, responde com grama de um tom diferenciado de verde e com flores. Milagres de uma alma clara. Recordei-me de outro jovem que, em crise, cheio de dúvidas e trevas, entrou na igrejinha de São Damião, em Assis, na Itália, e se prostrou diante do Crucifixo. Tocado de maneira única pela graça divina, transformou-se interiormente e ouviu: “Francisco, vai e repara minha casa que está em ruína”.

Como diz a música tema do filme “Irmão Sol Irmã Lua”: “Doce é sentir / Em meu coração / Humildemente / Vai nascendo amor / Doce é saber / Não estou sozinho / Sou uma parte / De uma imensa vida / Que generosa reluz em torno a mim / Imenso dom / Do Teu amor sem fim”… Creio que o moço do relato de sua experiência de encontro com Deus, por suas posturas, compromissos e atitudes, ouviu: “Vai e repara meus jovens que se encontram em decadência”.

MARIA CRISTINA CASTILHO é professora e cronista

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