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Em fala inédita, papa cita ‘cultura de abuso e acobertamento’ na igreja

da folhapress | 03/06/2018 | 01:20

O papa Francisco se tornou o primeiro pontífice a falar publicamente em uma “cultura de abuso e acobertamento” na Igreja Católica. Em uma carta aos fieis chilenos divulgada nesta quinta-feira (31), Francisco disse estar envergonhado que nem ele nem os líderes católicos do Chile tenham verdadeiramente escutado às vítimas de abuso sexual por parte de religiosos chilenos. A cúpula da igreja no Chile é acusada de ter negligenciado denúncias. Na semana passada, o papa recebeu a renúncia coletiva de 34 bispos chilenos, fato inédito na história da Igreja Católica.

Papa Francisco

A carta de Francisco foi divulgada às vésperas de mais um fim de semana em que o papa irá ouvir vítimas do padre Fernando Karadima, acusado de atos de pedofilia nos anos 1970 e 80. Seu superior, o bispo Juan Barros, é acusado de acobertar os crimes. O escândalo foi descrito pelo papa como “uma dolorosa ferida aberta” –Barros foi indicado em 2015, por Francisco, para chefiar a diocese chilena. Também nesta quinta-feira, o Vaticano informou que seus principais investigadores irão retornar ao Chile em uma missão pastoral para continuar investigando abusos.

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No texto de oito páginas, Francisco agradece novamente às vítimas por sua “perseverança valiosa” em denunciar os abusos e em buscar a verdade “mesmo contra todas as esperanças ou tentativas de desacreditá-las”. Ele próprio se incluiu entre os culpados por falhar em acompanhar realmente as vítimas, dizendo: “Com vergonha eu preciso dizer que não soubemos como ouvir ou responder a tempo”. Francisco mencionou repetidas vezes uma “cultura de abuso e um sistema de acobertamento que permite a perpetuação” dos abusos.

Nenhum outro papa falou publicamente sobre práticas de acobertamento na igreja. Na última década, o Vaticano focou suas investigações em punir aqueles religiosos acusados de abuso, mas ignorou os bispos ou outros superiores que transferiam pedófilos de paróquia em paróquia sem removê-los da igreja ou denunciá-los à polícia. Em 2010, o então papa Bento 16 criticou bispos irlandeses pela “resposta frequentemente inadequada” aos casos de abuso. Mas o pontífice alemão nunca falou de um sistema de poder dedicado a proteger molestadores e a se esquivar das vítimas.


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