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Fora da cadeia, pivô da prisão de Temer tenta blindar empreiteira

FOLHAPRESS | 31/03/2019 | 10:37

Pivô da prisão do ex-presidente Michel Temer, o empresário José Antunes Sobrinho cumpre as obrigações de seu acordo de delação em uma trajetória pós-Lava Jato que destoa das de outros grandes executivos que foram detidos na operação.
Diferentemente de outros empresários delatores que foram forçados a se retirar da linha de frente de suas construtoras, ele tenta reerguer a empreiteira Engevix, em crise desde o primeiro ano da investigação, e é ativo no dia a dia do grupo empresarial.
Antunes fechou um acordo de colaboração com a PF em 2018, prerrogativa que a polícia só passou a ter após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) em meados daquele ano. Antes, em 2015, tentou firmar delação com a força-tarefa do Ministério Público Federal no Paraná, que não aceitou sua proposta.
Por ordem do ex-juiz Sergio Moro, ficou detido cerca de cinco meses em regime fechado, no Paraná.
Condenado em duas ações penais a 29 anos de prisão pelo juiz Marcelo Bretas, do Rio, para onde seu caso foi transferido, aguardava o recurso em liberdade e corria o risco de voltar para a cadeia, caso tivesse suas condenações por pagamento de propina no âmbito da estatal Eletronuclear confirmadas em segunda instância. Esses recursos ainda não foram julgados.
No ano passado, conseguiu ter seu acordo com a PF homologado pelo ministro do STF Luis Roberto Barroso. Os termos do compromisso e suas obrigações, como reparação aos cofres públicos, estão sob sigilo. A defesa e a empresa não comentam o assunto.
O depoimento acusando Temer de receber repasse de R$ 1,1 milhão por meio de uma empresa do coronel da PM paulista João Baptista Lima Filho foi crucial para a ordem de prisão do ex-presidente cumprida no último dia 21. Temer ficou só quatro dias preso -foi liberado por ordem de um juiz federal de segunda instância que entendeu que não havia fatos novos que justificassem a permanência na cadeia.
A acusação contra o ex-presidente, que envolve contrato do grupo nas obras da usina nuclear de Angra 3, trouxe de volta à tona o grupo empresarial que se enfraqueceu com a operação e que hoje Antunes tenta blindar dos efeitos de seu passado.
Na tentativa de marcar a retomada do grupo, rebatizou-o de “Nova Engevix”, que agora exibe com destaque em seu site um manual de compliance (conformidade, em inglês), que orienta, por exemplo, integrantes da empresa sobre relações com o poder público.
Até 2016, o grupo era de propriedade, em partes iguais, de Antunes e de outros dois sócios, Gerson Almada e Cristiano Kok. A prisão de Almada, junto com outros grandes executivos de empreiteiras, em 2014, marcou negativamente o histórico da empreiteira, que entrou em crise e se desfez de parte de seus negócios.
Em 2015, foi a vez de Antunes ser detido por ordem de Sergio Moro. Acabou absolvido em processo em que era acusado de pagar propina junto com Almada. Argumentou que se dedicava apenas a projetos no setor elétrico e de aeroportos, e que o ex-sócio mantinha total autonomia sobre as atividades da empresa na Petrobras. Moro considerou “pouco plausível” que Antunes não soubesse dos pagamentos de seu parceiro, mas entendeu que a acusação não apresentou provas suficientes.
Almada reconheceu ter cometido crimes e conseguiu habeas corpus, mas, com a confirmação de sua sentença em segunda instância, acabou novamente preso no início de 2018 -e permanece detido até hoje.
Antunes agora tenta se distanciar do antigo sócio. Diante do noticiário da Lava Jato, o grupo publicou comunicado à imprensa no ano passado informando que Almada não tem mais “qualquer relação com a empresa”.
No ano passado, o atual dono da Engevix estimou que o faturamento anual da empresa passou de R$ 1,5 bilhão antes da crise para R$ 300 milhões.
Após comprar a participação dos sócios por valor simbólico, voltou a circular pelos meios empresariais. Paralelamente, preparava os tiros de sua proposta da delação. Entre os alvos estão os negócios da construtora na usina hidrelétrica de Belo Monte e a liberação de empréstimos pela Caixa, que incluiu uma menção a suposta influência política do senador alagoano Renan Calheiros (MDB) -o emedebista nega.
Em novembro passado, Antunes participou de um debate promovido por um site de notícias jurídicas. Pediu uma força-tarefa governamental para acordos que permitam a sobrevivência das empresas envolvidas na Lava Jato e chamou a operação de “diálise de uma situação da civilidade brasileira”.
Disse ainda que um dos problemas das empresas do país é de cultura. “Temos uma cultura, infelizmente, torta. A cultura é um pouco torta, torta por todos os lados. Então a formação, o treinamento das pessoas para que se invista em uma cultura correta dentro das companhias é fundamental”, disse ele.

BRASÍLIA, DF, 23.02.2016: CPI-FUNDOS DE PENSÃO - CPI dos Fundos de Pensão ouve o depoimento do sócio da Engevix, José Antunes Sobrinho, ao lado do presidente da CPI, deputado Efraim Filho (DEM-PB), nesta terça-feira (23), em Brasília (DF).  (Foto: Renato Costa/Folhapress)


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