Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Perder tempo nas redes pode levar à depressão

BÁRBARA NÓBREGA MANGIERI | 07/10/2018 | 09:15

Segundo o relatório “2018 Global Digital”, o brasileiro passa, em média, 9h14 por dia na internet. Desse tempo, 3h39 são gastas apenas com as redes sociais. Isso é sete vezes o tempo diário recomendado para fazer exercícios e ser uma pessoa saudável, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). É também um tempo que poderia ser gasto assistindo a dois filmes por dia, considerando que um longa-metragem hollywoodiano tem, em média, 1h50 de duração.

Considerando, ainda, que um leitor comum lê em média 150 palavras por minuto e um livro tem, em média, 64 mil palavras, o brasileiro conseguiria ler cerca de três livros e meio por semana usando o tempo diário que passa nas redes. Somados ao longo do ano, 3h39 representam 55 dias inteiros, ou seja, quase dois meses. O que você gostaria de fazer com este tempo?

As estatísticas apontadas pelo relatório da agência We Are Social revelam que o Brasil é o terceiro país cuja população passa mais tempo na internet, apenas atrás da Tailândia e das Filipinas. Em relação ao tempo gasto apenas nas redes sociais, o país está em segundo lugar, novamente atrás dos filipinos. Na opinião da psicóloga Karen Scavacini, este ranking não é motivo de comemoração. “Quanto maior o tempo gasto nas redes, maior a probabilidade de desenvolver depressão e, consequentemente, ter pensamentos suicidas”, afirma.

Solidão
Entre os efeitos do uso excessivo das redes sociais, Karen aponta o esvaziamento das relações, a sensação de solidão e isolamento e um tipo de ansiedade conhecido como FOMO, o Fear Of Missing Out. “A pessoa fica checando o celular insistentemente como se estivesse perdendo algo muito importante no mundo virtual”, explica.

A psicóloga afirma que o FOMO pode ser um sintoma do vício em mídias sociais. Sim, os especialistas colocam o Facebook e outras redes no mesmo nível do tabaco, álcool ou outras drogas. “Já foi provado que um like pode estimular a mesma área cerebral que o crack. Até o Hospital de Clínicas, em São Paulo, já tem um programa de tratamento para viciados em tecnologia”, diz Karen.

Karen define o viciado como uma pessoa que fica tão ansiosa longe do celular que não consegue se controlar. “No fim, ela substitui o contato pessoal pelo mundo virtual”, diz. A síndrome tem até sintomas físicos. “Não é raro começar a ter problemas de sono, olhos secos e vermelhos, dores de cabeça e até no corpo, por causa da postura”.

Outro fenômeno gerado pelas redes sociais é o que ela chama de felicidade tóxica. “Ninguém posta momentos ruins na rede e isso pode dar a impressão de que a vida do outro é sempre melhor”, explica a psicóloga. “Na verdade, tudo ali é editado, o que torna o mundo virtual mais interessante e cria uma falsa noção da realidade. Ninguém viaja tanto, come tantas coisas gostosas nem é feliz o tempo todo”.

Detox
Helena Canela sabe bem o que é ter essa sensação. A arquiteta costumava ser superativa em fóruns on-line e tinha vários seguidores nas redes, onde se expunha bastante. “Eu chamava a atenção das pessoas erradas e de formas erradas, mas momentaneamente o vazio diminuía”, reflete. Ela chegou a deletar seu Instagram no final de 2015. “Eu já lidava com uma depressão diagnosticada e estava passando por um momento difícil, lidando com um término de relacionamento, a morte do meu avô e o desemprego”, conta.

Ficar nas redes sociais agravava seus sintomas depressivos. “Eu via fotos das pessoas em lugares legais que sempre quis visitar e nunca pude, casais felizes, selfies deslumbrantes das amigas… minha autoestima estava baixíssima”, diz. Depois de aproximadamente oito meses ela voltou a usar o Instagram, e diz que sua relação com as redes melhorou muito. “Eu ainda uso bastante, principalmente aplicativos de relacionamento, mas parei de ficar com ciúmes e inveja dos meus amigos”, avalia. Ela também abandonou seus milhares de seguidores. “A Helena de 2018 é bem mais madura. Meu Instagram agora é fechado, exclui os desconhecidos das redes e não ligo se uma foto tem apenas 15 likes”, finaliza.

T_T_helenabaixa


Link original: https://www.jj.com.br/brasil-e-mundo/perder-tempo-nas-redes-pode-levar-a-depressao/
Desenvolvido por CIJUN