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Especialistas alertam ao vício da internet

| 27/04/2014 | 16:57

Em pontos de ônibus, restaurantes e até reuniões familiares, os costumes têm mudado: ao invés de interagirem uns com os outros, as pessoas estão ligadas em seus celulares, especialmente nas redes sociais. Os olhos não se despregam da telinha. Entre o público jovem, nascido na era digital, isso é ainda mais presente e mostra que esse mergulho abusivo na internet pode, sem se darem conta, levar ao vício.

Para muitos jovens e outros usuários da rede, as redes sociais passam a fazer um papel de parceiro ou mesmo de mural de lamentações, onde o usuário deposita seus sucessos e descontentamentos – evitando dividí-lo com os outros ao lado, de carne e osso. “Nós mudamos nosso comportamento e perdemos a empatia da conversa com o outro, que está ao lado, o que exige uma postura da pessoa que não se vê no celular”, explica o psicólogo Paulo André Ceo Rosa, especializado no cuidado a adolescentes.

O prejuízo, diz o especialista, é a perda de identidade familiar, pois muitas vezes o adolescente deixa de conhecer as próprias pessoas de seu convívio. O relacionamento com familiares, por exemplo, passa a ser desinteressante ou a ficar sempre em segundo plano. “Às vezes, o pai pode tirar qualquer coisa do filho, menos o celular, pois ele não consegue mais ficar sem”, aponta.

O professor de filosofia Jorge Alves de Oliveira, que dá aula para jovens a partir de 14 anos, vai além: “Tal como um relógio, que olhamos a todo o momento, o celular e os computadores fazem parte da vida das pessoas.” Para o professor, a internet pode se tornar um vício “no sentido de quebrar as relações pessoais, aquela relação de toque, que antes era mais presente”.

Jorge diz que, como tudo o que é feito em excesso, o uso da internet, especialmente das redes sociais, pode causar vício. “Se entendermos o vício como algo que destrói, isso pode ser ruim”, explica. No entanto, o professor diz não ter um olhar moralista nesse terreno e acredita que as redes sociais, se bem utilizadas, podem também ser um meio positivo para se comunicar e compartilhar conteúdos.

“Mas é um meio de exposição, e uma exposição a todo o  momento”, pondera  professor. O psicólogo Paulo André lembra que, atualmente, jovens de todas as classes têm acesso à internet, com contas em redes sociais. E os usuários sempre ficam à espera das curtidas ou dos comentários, o que pode causar ansiedade e insegurança.

A estudante M. mora na Vila Rami e tem 19 anos. Todos os dias, ela diz, sente necessidade de postar algo na rede e não soltar mais o celular – sempre à espera das novidades, como curtidas e comentários. O que começou como diversão hoje virou um vício, e ela reconhece.

“Às vezes vira até uma competição, pois internautas disputam entre si quem leva mais curtidas e recebe mais comentários. Algumas pessoas apelam para ter mais audiência, mas não é o meu caso.” M. tem contas no Facebook e no Instagram. Quando tem problemas, ela descarrega suas raivas por ali, onde também tecla quando precisa avisar os “amigos” sobre suas conquistas pessoais.

O espaço serve também para expor sua beleza. M. não nega: “Eu gosto de postar minhas fotos, gosto de aparecer nelas.” O professor J.,  22, não se considera um viciado em redes sociais e na internet em geral. No entanto, ele não esconde que hora ou outra também sente vontade de postar algo – e não tem problema em dividir seus selfies – as famosas fotos de si próprio.

“Tem gente na internet que perde os limites, que coloca fotos todas as horas, de coisas às vezes banais, mas não é meu caso.” Para o professor de filosofia Jorge Alves, as redes sociais não oferecem grande espaço para reflexão, mas são um poderoso meio de comunicação.

“Mesmo que se coloque algo para refletir, acredito que tudo é automático demais.” Paulo André reforça esta opinião, ao notar que as mensagens acabam sendo reduzidas e vazias. E além disso, perde-se a oportunidade de viver a vida de forma integral. “Os jovens ficam sem os sentimentos gostosos de antigamente e não se curte mais as coisas como antes. Tiram milhares de fotos, mas não aproveitam o momento.”

O fenômeno do vício na internet fez nascer um site voltado ao tema: o Dependência de Internet (dependenciadeinternet.com.br), mantido por um grupo de psicólogos e psiquiatras. O site apresenta testes e os resultados podem surpreender.


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