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Relações, trabalho e fé serão impactados pelo ‘novo normal’

Kátia Appolinário | 07/06/2020 | 06:00

Abraços substituídos por acenos a distância, sorrisos ocultados por máscaras e o escritório substituído pelo trabalho remoto. Essas são apenas algumas características do chamado “novo normal” implantado em uma sociedade pós-pandêmica.

De acordo com o sociólogo e geógrafo do Colégio Divino Salvador, Júlio Cesar Maiolo dos Santos, de 40 anos, caberá à população adaptar-se a este novo cenário que veio para ficar. “Tivemos que enfrentar um vírus, o que nos colocou em uma situação extrema e impactante, portanto é impossível seguirmos nos antigos padrões de convivência. Teremos que nos adaptar, pois dificilmente voltaremos a viver como antes”, alega.

De acordo com o sociólogo Júlio César Maiolo, as relações interpessoais poderão ser alteradas

Essa nova realidade tangenciada pelo distanciamento também se caracteriza pela intensificação do uso dos meios digitais e isso já está sendo delineado pelos regimes de trabalho remoto. Uma pesquisa realizada pela consultoria Cushman e Wakefield mostra que 73,8% das empresas em nível nacional pretendem manter o home office mesmo após o controle da doença. “O trabalho ganhará novos formatos e, por consequência, veremos que a vida digital também tem seus pontos negativos, seja pelo impacto psicológico ou mesmo físico causado pelo contato com as telas por um período muito mais longo”, ressalta o sociólogo.

O comportamento das pessoas também poderá ser alterado, seja pela intensificação do individualismo ou mesmo pelo espírito solidário. “Isso fica evidente principalmente pela forma como as pessoas lidam com o vírus. Algumas sequer usam máscaras, colocando não só suas vidas, como a do próximo em risco. Por outro lado, há quem não meça esforços para ajudar pessoas em condições de vulnerabilidade”, afirma Maiolo.

Novos laços

As relações interpessoais, por sua vez, se tornarão ainda mais fluidas, característica incisiva da pós-modernidade. “Com a reclusão, fugir dos conflitos amorosos e familiares se tornará cada vez mais difícil. Contudo, isso poderá fortalecer alguns laços e fazer com que valorizemos ainda mais a presença do outro”, reitera.

Para o historiador, sociólogo e teólogo, sheik Jihad Hammadeh, o conjunto de mudanças contribuirá ainda para a recuperação da espiritualidade. “O novo normal poderá desencadear um momento de reconexão e valorização do que realmente é preciso: a saúde acima do dinheiro, o tempo acima dos desentendimentos. E, a partir disso, muitas pessoas também se conectam com suas crenças”, explica, valendo-se de que este é um movimento natural das pessoas em momentos de incerteza, segundo a própria história.

O teólogo e sheik Jihad Hammadeh fala sobre a intensificação da espiritualidade no novo normal

A cura

Do ponto de vista da medicina, ainda não é possível dizer o que está por vir. É o que conta o médico e professor de infectologia da Universidade de São Paulo e da Faculdade de Medicina de Jundiaí, Roberto Focaccia. “As perspectivas são ainda totalmente incertas. O covid-19 possui alta virulência e rápida transmissão, o que abalou o mundo. Nós profissionais ainda estamos aprendendo com a evolução da pandemia e sua história só poderá ser contada ao final da mesma”, declara.

Para o profissional, os desentendimentos políticos no país contribuíram para o descontrole da doença, uma vez que isso incidiu diretamente no sistema de saúde. “A resultante é um caos, com condutas conflitantes, pressões de inúmeros lados, sem rumo definido. Estamos de atingindo um platô de casos, sem seguir uma curva ascensional com pico e remissão. Isso é extremamente preocupante pela tendência de perpetuação da epidemia e uma avalanche de mortes”, emenda.

O infectologista Roberto Focaccia afirma que o futuro da doença ainda é incerto diante das possibilidades

Ao lado do caos e da incerteza, existe a esperança depositada na vacina. “Pelo menos cerca de dez laboratórios avançaram bastante e três deles já estão na fase II de suas pesquisas. Há que se constatar seus efeitos adversos, grau de proteção, durabilidade de tempo de proteção, custos, capacidade de produção em grande escala industrial. Se tudo correr certo, teremos uma vacina disponível em 2021”, almeja.

No entanto, mesmo que a vacina seja descoberta, será necessário aprender a conviver com a doença ou, na melhor das hipóteses, tomar repetidas doses para que a imunização seja efetiva. “Isso dependerá da capacidade do novo coronavírus se adaptar ao ser humano, bem como da sua capacidade de mutação. Provavelmente teremos que nos vacinar a cada ano, tal como no caso da Influenza, mas ainda este poderá ser o menor dos males”, aponta o médico.


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