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‘Malévola’ inverte os conflitos

| 30/05/2014 | 21:02

Bruno Bettelheim já psicanalisou os contos de fadas, descobrindo significados profundos nas histórias de príncipes e princesas, fadas e bruxas. O cinema tem desvendado esses territórios, desde que Jacques Demy, nos anos 1970, propôs sua releitura de “Pele de Asno”. Basta lembrar “Shrek” e também como a “Bela e a Fera” dançaram no computador para constatar como as velhas histórias podem ganhar novas versões. 

Robert Stromberg começa “Malévola” com uma interrogação – conhecem “A Bela Adormecida?” Só que a história que ele conta não é a tradicional. Você se lembra – o rei e a rainha tiveram uma filha e, no batizado da princesa, a fada despeitada, que não foi convidada para a festa, metamorfoseia-se em bruxa e lança sua maldição. No dia de seu aniversário de 16 anos, ela espetará o dedo numa roca de fiar e morrerá. Uma fada consegue reverter em parte a maldição – e todo o reino mergulhará num sono profundo, até que a princesa seja despertada pelo beijo de amor de um príncipe.

Para ficar bem claro, essa é a história que Stromberg não conta. O feminismo tem contestado as narrativas de princesas que esperam por seus príncipes, rejeitando a ideia de que as mulheres só se realizam por meio dos homens e não conseguem escrever os próprios destinos. No firmamento de Hollywood, Angelina Jolie, como grande estrela, tem afirmado a força de suas heroínas, mas é verdade que o fato de se haver casado com um “príncipe” – Brad Pitt – transformou não ela nem ele, mas o casal, em mito. 

Há anos Angelina sonha com um filme que não sai. Ela quer personificar Cleópatra como o mito do eterno feminino. Na ausência de “Cleópatra”, a Disney propôs-lhe a “Bela Adormecida”. E como Angelina não é nenhuma garotinha, que tal deslocar o eixo e fazer dela a bruxa? A novidade é que a bruxa, Malévola, não é mais a vilã da história. Mas se não é ela – quem é?

Robert Stromberg, informam os créditos, baseou-se na Bela Adormecida da Disney e na de Charles Perrault. Ele chega a usar, no fim, a velha canção do desenho, “Once Upon a Dream”, “Era Uma Vez Um Sonho”, agora na versão da vencedora do Grammy, Lana Del Rey. 

Tudo é novo, e todo o começo mostra como Malévola se criou na floresta, como a maior das fadas, protegendo a criação ali dentro. A verdadeira serpente é o homem, o garoto que vai conquistar seu coração e traí-la para ser rei. E esse homem, esse rei, será o pai de Aurora, a Bela Adormecida. Num momento de ódio, consumida pelo desejo de vingança, Malévola lança sua maldição, mas Aurora a conquista e ela quer reverter o mal. Aurora é Elle Fanning, mas quando criança, aos 5 anos, ela é Vivienne Jolie-Britt, a filha do casal 20.

Repetidas vezes, Angelina e Brad já disseram que não querem que os filhos sigam carreira no cinema. O problema, como Angelina explicou à revista Vogue, é que crianças, nessa idade, são muito suscetíveis, e a produção não conseguia encontrar uma menina que não se intimidasse com seus chifres, os olhos amarelos e toda a maquiagem que Rick Barker criou para a personagem. Viv, além da idade, beneficiou-se da familiaridade com a mãe. Papai e mamãe já disseram que vão dar força se ela quiser continuar fazendo filmes. 

Robert Stromberg, antes de ser diretor, foi responsável pelos efeitos especiais de “Piratas do Caribe”. “Malévola” é cheio de efeitos, mas são ferramentas para contar a história. O tema de “A Bela Adormecida” é o afeto. Só o amor mais sincero pode reverter a maldição. A releitura de Stromberg consiste em reverter sentimentos. Num mundo dividido por conflitos, a ideia (revolucionária?) de Malévola é que o amor pode estar onde você menos espera. Ou seja, existe esperança.


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