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Ed Sheeran ratifica a vitória do pop genérico e bom moço em 'Equals'


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É o pub mais exclusivo de todo o Reino Unido. Chamado Lancaster Lock, fica num vilarejo de 4.000 habitantes a duas horas de Londres. É lá que o cantor inglês Ed Sheeran pode receber os amigos para tomar umas e outras sem ser importunado pelo assédio do público.
O estabelecimento fica dentro de um complexo de casas pertencente ao astro apelidado de "Sheeranville" pelos tabloides britânicos. O valor de mercado do conjunto é de mais de R$ 26 milhões, segundo o jornal The Sun.
Com a fortuna que acumulou ao longo da última década, graças a um longo comboio de hits globais como "Shape of You" e "Photograph", Sheeran, com 30 anos, pode comprar o que quiser -inclusive seu próprio pub. Com dinheiro para viver nos melhores imóveis de Londres ou Nova York, escolheu fincar o pé na minúscula Framlingham, onde passou a infância e adolescência. Tudo a ver com a imagem transmitida pelo cantor, a de um cara que valoriza as coisas simples da vida, gente fina e agradável, livre de afetações ou deslumbres. O sorriso de Charlie Brown, personagem da tirinha Peanuts, coroa essa aura de bom moço.
Sheeran lança nesta sexta seu quinto álbum, cujo título é o símbolo matemático para "igual". Vamos nos referir a ele como "Equals". O disco segue uma sequência que começou com o sinal de "mais", ou "Plus", de 2011, seguiu com o de "multiplicação", ou "Multiply", de 2014, e chegou ao de "divisão", ou "Divide", em 2017. Dois anos depois, houve também o "No.6 Collaborations Project", só de parcerias com outros artistas, especialmente rappers, incluindo Eminem, Stormzy e Travis Scott.
A se contar só os álbuns solo, o novo trabalho chega quatro anos depois do antecessor. Nesse período, uma porção de coisas aconteceram na vida de Sheeran. Ele completou em agosto de 2019 uma exaustiva turnê mundial de 260 datas. Desde então, o cantor se refugiou em seu retiro na zona rural britânica, se casou em uma cerimônia secreta com Cherry Seaborn, amiga dos tempos de escola e, já em plena pandemia, teve sua primeira filha, Lyra Antarctica.
Não à toa, a faixa de abertura do novo álbum, "Tides", traz uma reflexão sobre o amadurecimento. Sheeran vê seus 30 anos como uma época com menos espaço para loucuras ou pessoas de quem não gosta. "Fico constrangido com relação às coisas que fiz na minha juventude, porque agora tenho um filho", pondera. A sonoridade é de guitarras altas sobre a clássica batida criada pela gravadora Motown, nos anos 1960.
A seguinte "Shivers" traz o ouvinte ao território de costume; versos de amor de um homem enlouquecido por uma mulher, cantados por cima de uma batida pop de bem com a vida. "Nunca experimentei uma boca como a sua/ Morangos e daí alguma coisa a mais." É a mesma equação que levou "Shape of You" aos mais de 5,5 bilhões de visualizações no YouTube.
"Shivers" também revela ao ouvinte mais atento que Ed Sheeran está cantando de maneira um pouco diferente. Seu timbre soa mais amaciado e limpo, trazendo sua interpretação mais para o campo de um vocalista de R&B do que o cantor de traços folk de obras anteriores.
O direcionamento fica mais evidente em "Bad Habits", lançada como single em junho de 2021. Com batida dançante-eletrônica, a música foi comparada ao material do cantor e produtor canadense The Weeknd. Faz até sentido esteticamente, mas Sheeran e Weeknd operam em chaves distintas -o segundo habita uma zona de intensidade e "vida louca" que o britânico parece nunca ter experimentado.
A canção "2Step" junta elementos acústicos com batidas de hip-hop, uma combinação que o cantor pratica desde os primórdios da carreira, com graus variados de sucesso. Aqui, ela funciona bem. "Love in Slow Motion" é uma "power ballad" com toques de guitarra celta. É bem acompanhada na sequência por "Visiting Hours", que traz coros e um clima sentimental que cairia bem em um dos rocks dramáticos que a banda Journey fazia nos anos 1980.
O novo álbum mostra mais uma vez que Ed Sheeran não brinca. O cantor trabalha duro para gerar sucessos que vão dominar a cabeça de ouvintes com suas frases de quadro da loja Imaginarium e suas melodias talhadas para cenas finais de comédias românticas. É pop genérico, que transita por estilos diversos e procura não ofender ninguém. Em meio a astros pretensiosos ou emocionalmente complicados, é um contraponto que tem dado muito certo.


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