Cultura

Teatro se encontrou com o cinema em 2021 e voltou a ter plateia presencial


Divulgação
Broadway reabre lotando teatros em Nova York após isolamento severo
Crédito: Divulgação

Ainda que uma série de companhias se propusessem a descobrir novas linguagens para o teatro, foi de supetão que os grupos migraram para peças com atores confinados nos quadradinhos do Zoom em 2020.

Mas o ano em que as artes cênicas finalmente retornaram ao encontro com o público no palco também foi o período em que elas deram um passo adiante na produção virtual e miraram peças que flertaram cada vez mais com o audiovisual, criando um híbrido entre as duas linguagens.

"Num primeiro momento, esse movimento de ir para o virtual aconteceu por uma necessidade, como se fosse a única opção para se gerar presença", afirma a diretora Yara de Novaes, que esteve à frente de produções híbridas e que também voltou aos palcos recentemente.

"Com o tempo, a gente foi percebendo de que modo a gente poderia estabelecer um diálogo que fosse mais equânime e gerar uma linguagem que não fosse só resultado de uma falta, mas que tivesse um valor em si."

Essa maior consciência da linguagem no ambiente virtual, para ela, aparece em produções como "A Árvore", dirigida por Ester Laccava e João Wainer, com a atriz Alessandra Negrini e a série de trabalhos em plataformas diferentes que o Grupo Galpão propôs durante o ano, com peças encenadas até dentro de um grupo de Telegram.

Está também na sua própria websérie "Farol de Neblina", feita em parceria com a cineasta Clarissa Campolina, que partiu do espetáculo teatral para criar um novo filme.

Num ano que começou sem se saber o que seria das apresentações presenciais, o ambiente online também ajudou a manter em pé festivais importantes, como a MITsp, e outros grupos de teatro, como o Tapa, que fez mais de 15 peças gravadas ao longo dos quase dois anos de pandemia.

Eduardo Tolentino de Araújo, diretor e fundador do grupo, conta que a diferença do primeiro espetáculo que filmaram para o último, que foi ao ar em dezembro no festival Sempre Aos Domingos do teatro Aliança Francesa, é significativa. Segundo ele, trata-se do "estabelecimento de uma nova sintaxe".

E a maior difusão desse tipo de apresentação é inegável. Assim como o Tapa, uma série de outros grupos relataram ao longo do ano terem sido vistos no Brasil todo e no exterior. Mas também é fato que esse é um modelo que não se sustenta financeiramente.

Vários projetos que foram ao ar neste ano se sustentaram por editais, como os da Lei Aldir Blanc de auxílio emergencial ao setor cultural, que foi aprovada neste ano para auxiliar a classe artística.

"Muitas vezes uma sessão online dava o equivalente a uma sessão de teatro com bilheteria. O problema é que para fazer uma sessão com bilheteria que se pague, é preciso de pelo menos 30 ou 40 sessões", afirma Tolentino.

Eduardo Moreira, do Galpão, concorda e afirma que apesar de ter sido um período artisticamente provocador -com peças em texto em aplicativo de mensagem, em áudio como um programa de rádio ou um podcast- não foi possível monetizá-las de maneira satisfatória.

"Foi um ano muito penoso sob todos os aspectos -do isolamento, da pandemia, dessa questão política que a gente vive no Brasil. E a gente tentou desesperadamente manter essa coisa da chama do trabalho, de uma coisa que nos provoque artisticamente", diz Moreira.

Agora, o Galpão já tem tornado a ensaiar presencialmente, e deve voltar com espetáculos em janeiro de 2022, ano em que o grupo completa 40 anos e que pretende também retomar as viagens pelo país.

Enquanto alguns grupos esperam a virada do ano para retornar aos palcos, já em 2021 as peças foram aos poucos voltar aos teatros, ainda que com temporadas mais curtas. O próprio Grupo Tapa se apresentou em agosto, com "Um Picasso", e em novembro com "De Todas As Maneiras Que Há de Amar", que foi interrompida pela pandemia.

Mesmo com o retorno, Yara de Novaes afirma que nas primeiras peças apresentadas presencialmente, ainda havia um clima de luto entre elenco e público em função da pandemia.

Mas em setembro, quando o quadro da Covid já dava sinais de melhora mais efetivas e a cobertura vacinal da população estava mais significativa, foi a vez de os musicais voltarem aos palcos e chamar um público de maior peso. A lista contou com o clássico da Broadway, como "Cinderella", no recém-inaugurado Teatro Liberdade, "Donna Summer", que teve temporada interrompida pela pandemia, e "Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolate".

Os espetáculos que mais chamam público em São Paulo demoraram para voltar justamente porque contam com uma grande produção e equipe. Barbara Guerra, produtora e coreógrafa de "Donna Summer", conta que foi rígida a rotina de protocolo para que tudo ocorresse bem numa equipe com mais de 70 pessoas.

E mesmo que tudo estivesse seguro nos bastidores, o público ainda ficou com um pé atrás para retornar às poltronas e ao ambiente fechado do teatro. Foi em novembro, segundo a produtora, com a capacidade inteiramente permitida e a maioria da população paulistana vacinada com as duas doses, que a procura por ingressos aumentou.

Ela tem esperança de que o musical faça outra temporada em 2022, assim como fará "A Cor Púrpura", que ficou em cartaz no teatro Sérgio Cardoso até 19 de dezembro, e "Barnum - O Rei do Show", com sessões de outubro a novembro, no Rio de Janeiro.

Já os musicais "Brenda Lee e o Palácio das Princesas" e "Cabaret dos Bichos", apresentados online neste ano e ambos dirigidos por Zé Henrique de Paula -nome que lotou a agenda teatral da cidade nessa retomada-, ganham nova montagem em 2022, dessa vez com público presencial. Para o diretor, que trabalha ao lado de Fernanda Maia nas produções, é como recomeçar do zero.

Ainda assim, 2021 gera dúvidas do que vem a seguir -e diretores ainda se veem na esperança de um retorno mais certo e de mais um fechamento com o avanço do vírus. Para Yara de Novas, só agora as companhias realmente voltaram a se rearticular com instituições culturais e começam a vislumbrar novos espetáculos e programações.


Notícias relevantes: