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Artistas plásticos se inspiram na quarentena para produzir

Mariana Checoni | 21/06/2020 | 11:00

“É através da angústia que a arte é criada.” A frase do pintor, escritor e restaurador Elvio Santiago, conhecido em Jundiaí por suas telas e histórias infantis como “A Galinha Roxa e Quadrada” e “Tonho Pé com Tênis Pé sem Tênis”, resume um dos sentimentos mais comuns desta quarentena. A impossibilidade de sair de casa e produzir as artes tem mexido com a rotina de muitos artistas, obrigados a se reinventar e até mesmo aproveitando a oportunidade para criar novas obras.

Elvio, aos 83 anos é exemplo disso. Há 66 anos pintando, viu que possuía muito tempo livre neste momento em que está isolado com a esposa. Possui um ateliê em casa e nele passa os dias produzindo obras novas e revitalizando telas que já havia pintado, algumas com mais de 30 anos desde a data de sua criação. “Tenho mais de 80 anos e problemas cardíacos, minha esposa tem diabetes, estamos há mais de três meses sem sair de casa ou receber visitas dos nossos filhos e netos. O que me ajuda a distrair a cabeça e passar o tempo são minhas telas. Fico o dia todo pintando”, conta.

Ele explica que criou um processo de revitalização com uma técnica de veladura por cima das telas. “Aplico tinta óleo líquida por cima do que já está pintado com uma trincha, criando camadas por cima do desenho. Espero a camada secar até aplicar a seguinte. Isso cria nuances e degradês que transformam uma obra, muitas vezes gasta com o tempo”, afirma.

De acordo com o artista, a técnica foi aplicada em cerca de 50 telas que já haviam sido produzidas. Com o tempo e interesse que algumas pessoas manifestaram, Élvio criou uma lojinha virtual e coloca à venda alguns de seus trabalhos, que demoram de dois a três dias para ficarem prontos. As telas novas demoram por volta de dez dias para serem feitas.

A inspiração vem da infância e da cidade natal, Bragança Paulista. Em seus quadros surrealistas, predominam um traço infantil, remetendo a um desenho de criança. Além disso, pássaros e cores fortes aparecem com frequência nas obras. “Costumo dizer que sou um cronista da infância e pintor da minha própria história. Até hoje meus trabalhos são com essa temática. Outra marca registrada são os São Franciscos com rostos diferentes, que surgiram após o pedido de um padre de Jundiaí, que faleceu antes de conseguir retirar o quadro. Desde então, o santo é personagem recorrente em meus trabalhos”, conta.

O artista plástico Luis Augusto, 24 anos, conta que a quarentena também lhe rendeu tempo para produzir arte de uma maneira diferente. “Por conta da diminuição de trabalhos, acabei criando outra forma de arte, por falta de condição de comprar materiais novos. “Comecei fazendo desenhos em papel couchê até que as folhas acabaram, migrei para camisetas e até fiz algumas para amigos. Atualmente, faço várias telas com materiais recicláveis que consigo de graça em uma madeireira. São retalhos que iriam para o lixo e eu reutilizo como telas. Além de ajudar o ambiente, é uma maneira de treinar a criatividade e aproveitar para distrair a cabeça”, afirma.

Luis acredita que a inspiração é momentânea e aparece em muitos dias durante o isolamento. “Tive grandes picos de inspiração, ficava dias inteiros criando artes, escrevendo ideias de intervenção e estudando sobre o assunto. Contudo, por outro lado, existem semanas que não consigo me expressar de nenhuma forma, como um grande bloqueio criativo. Afinal, vivemos um momento complicado e muitas coisas acabam tirando o foco dos objetivos. Produzir meus desenhos e ideias ajuda muito”, explica.


IDEIAS E PROJETOS

Jensen Silva é grafiteiro e líder do Coletivo The King´s, um projeto sociocultural que atua no Jardim São Camilo. Está em isolamento total, pois seu filho contraiu covid-19. Conta que no início da quarentena, 95% dos clientes cancelaram serviços que já estavam programados, entre rodas de conversa, palestras, oficinas e o principal, todos os trabalhos com grafite em locais que gerariam aglomeração. “Consegui realizar alguns trabalhos em ambientes que ficava sozinho. Por ser mais elaborado, não produzo nada em casa, isso gerou certa dificuldade nesse período, já que sempre que tenho uma ideia ou inspiração artística saio às ruas para executá-las, agora durante a pandemia, é impossível fazer”, lamenta.

Apesar de ser um período atípico, o grafiteiro não está parado. Usa o tempo para produzir ideias e criar projetos. “Tenho usado parte do tempo para pensar em atividades pós-pandemia, pois estar em casa ajuda muito a pensar. Depois do período de isolamento por conta do meu filho, tenho dois trabalhos agendados em locais que não tem público. Quero fazer um passo a passo de como grafitar. Seria como uma oficina, mas on-line, uma adaptação para o momento que vivemos”, explica.


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