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Ator diz que novela toca na ferida dos neonazistas

| 27/06/2014 | 21:19

O ator Marcos Pitombo revela que está enfrentando um grande desafio ao dar vida ao neonazista Paulão da novela “Vitória”, da Record. Ele afirma que o personagem de classe média alta, que praticará atos violentos e crimes contra nordestinos, negros, homossexuais, moradores de rua e todo tipo de ser humano que não se encaixa dentro de sua ideologia, é o mais complexo de sua carreira. “Não só por ele ser o antagonista, mas pelos temas que estamos abordando, como intolerância e preconceito”, comenta Marcos Pitombo.

Nos bastidores, segundo o ator, tudo é feito com muito cuidado, justamente por ser um assunto espinhoso. A direção está dispensando uma atenção especial ao núcleo. Paulão faz pós-graduação em Administração, namora Priscila (Juliana Silveira) e mora na casa dela, que também abriga integrantes da organização neonazista da trama. Todo esse contexto criado pela autora, Cristianne Fridman, visa gerar um debate dentro das casas dostelespectadores.

“Eles promovem ações para assustar pessoas que eles julgam diferente deles como, por exemplo, o ataque a um ônibus vindo do Nordeste. Na cabeça dos neonazistas, os nordestinos devem permanecer em sua região. O objetivo, nesse caso, era fazer uma verdadeira chacina”, exemplifica o ator, referindo-se a uma sequência exibida recentemente.

Pitombo conta que, após estudar muito para interpretar Paulão, ele ficou mais atento ao noticiário, pois há, no Brasil, ações de neonazismo camufladas. “Não tem o nome neonazismo, mas o assunto está presente. São os casos de racismo no futebol ou crimes de homofobia, que estão cada vez mais agressivos. Os neonazistas camuflados querem abolir o sistema de cotas e são a favor da pena de morte”, diz o ator.

De acordo com Pitombo, numa economia como a brasileira, que não está muito bem, um discurso como o dos neonazistas pode seduzir pessoas. Por isso, o ator acredita que promover o debate sobre o assunto é muito importante. Logo na primeira semana de “Vitória”, o núcleo neonazista fez ações terríveis para o público saber quem eles são.

O ator, que estava fazendo o Ramiro em “Pecado Mortal” (novela anterior), confidencia que sai muito mais cansado das gravações. “Não existe violência física, como lutas, mas tento relaxar assim que chego em casa, porque as cenas têm muita tensão. Nas primeiras sequências, eu tive muita dor de cabeça. Quando eu ensaiava em casa, era difícil falar o que o Paulão fala: ‘Não aceito perder para uma negra’ ou ‘Você vai contratar esse boiola?’”.

O foco da novela é tocar na ferida de muita gente e levar um pouco de informação também. Pitombo afirma que o discurso do personagem não o toca em nada. Por isso, é tão difícil fazer esse papel. “Fomos preparados para ter uma noção do que vamos fazer em cena, e os personagens são intelectualizados. Eles têm o poder da palavra. Eu abomino qualquer tipo de atitude, como discriminação racial ou intolerância aos nordestinos. Foi difícil entrar na cabeça do Paulão. Ele tem uma avaliação deturpada”. 


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