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Embate entre os indivíduos e a opressão guia programa da Flip

EDIÇÃO 2019 | 16/05/2019 | 08:30

Inspirada por Euclydes da Cunha, o escritor homenageado, e na história do Arraial de Canudos, a próxima Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) será marcada pela alta temperatura política, com uma programação com temas pinçados -ou surgidos como desdobramento- da obra do autor de “Os Sertões”.

A programação completa, de 10 a 14 de julho, foi anunciada ontem (15), em entrevista na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Como nos últimos anos, a festa literária aposta em nomes internacionais menos conhecidos no Brasil.

Alguns temas atravessam todos os debates agendados: a crise climática, a ciência, a questão indígena. Esta última traz um recorte específico de outra linha que cruza o programa, que é a questão dos indivíduos em atrito com as instituições.

Os assuntos podem ser depreendidos do principal livro de Euclydes, que viajou para acompanhar a campanha militar contra Antônio Conselheiro e seus seguidores, na virada para o século 20, e voltou de lá horrorizado com a brutalidade cometida pelo Estado contra os habitantes do local.

“Chamei pessoas que eu admiro e que têm a ver com Euclydes de diferentes formas. Acho que é sim , mas menos ativista, mais para o universo da pesquisa”, diz Fernanda Diamant, curadora da edição. “As pessoas que estão pensando o contemporâneo estão lidando com essas questões.”

Os indivíduos em confronto com forças maiores do que eles estão em nomes internacionais como o angolano Kalaf Epalanga, que se inspira em um episódio real, quando foi preso ao tentar cruzar uma fronteira europeia sem passaporte, para escrever “Também os Brancos Sabem Dançar” (Todavia). O franco-ruandês Gäel Faye trata do genocídio de Ruanda no romance “Meu Pequeno País” (Rádio Londres).

Esse recorte também está na americana Kristen Roupenian, autora de “Cat Person e Outros Contos” (Companhia das Letras), que causou celeuma ao publicar o conto que dá título ao livro na revista New Yorker, em 2017. A história foi vista como um exemplo das agruras femininas, com uma personagem vítima de um homem que desrespeitaria a noção de consentimento. Ela divide a mesa com a canadense Sheila Heti, que acaba de lançar “Maternidade”, na qual discute a decisão feminina de ser mãe.
Os debates identitários de gênero surgem nomes como a cubano-americana Carmen Maria Machado, autora dos contos de “O Corpo Dela e Outras Farras”, em geral classificados como fantasia feminista. A brasileira Jarid Arraes, autora de cordéis que lançará seu primeiro livro de contos na Flip, também tem uma obra que trata da opressão feminina.

Ainda dentro desse campo político, mas no espectro da opressão estatal, está a venezuelana Karina Sainz Borgo, autora de “Noite em Caracas” (Intrínseca), romance sobre a destruição causada pelo chavismo em seu país. Ela foi um dos nomes mais badalados na Feira de Frankfurt do ano passado e já teve seu livro vendido para 22 países.

Outra autora dentro desse universo é a nigeriana Ayobami Adebayo, que escreveu “Fique Comigo” (HarperCollins), no qual reflete sobre a tradição poligâmica de seu país e seu efeito sob as mulheres -com um viés crítico, portanto.

Com ela, está uma das estrelas em ascensão da literatura internacional, a israelense Ayelet Gundar-Goshen, ainda pouco conhecida no Brasil. No romance “Uma Noite, Markovitch” (Todavia), um grupo viaja da Palestina à Europa sob domínio nazista para resgatar uma jovem judia por meio de um casamento fictício.

Já questão indígena, por exemplo, aparece no convite à antropóloga Aparecida Villaça, autora que relata em “Paletó e Eu” (Todavia) sua relação filial com um líder indígena da etnia wari. Outro convidado é Ailton Krenak, uma das principais lideranças indígenas do país.

A ciência, por sua vez, está representada por Stuart Firenstein, biólogo da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, com um livro em que defende como a ignorância serve para fazer avançar o conhecimento científico. Nessa esfera, mas tratando de mudança climática, participa do programa o jornalista americano David Wallace-Wells, autor de “A Terra Inabitável”.
Na lista de convidados brasileiros estão nomes como Adriana Calcanhotto, José Miguel Wisnik, Marcelo D’Salete, Zé Celso e José Murilo de Carvalho, entre outros. A tradicional conferência de abertura da festa será realizada pela crítica literária Walnice Nogueira Galvão, uma das principais especialistas na obra de Euclydes do país.

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