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Mart’nália empresta suingue a canções de Vinícius de Moraes

FOLHAPRESS | 23/04/2019 | 08:40

A homenagem que desonra aquele que a presta não honra aquele que a recebe. A cantora, atriz e percussionista carioca Mart’nália, 53, homenageia em seu mais recente álbum, o 12º de sua carreira, Vinicius de Moraes (1913-1980), honrando a si e ao poeta com suingue e propriedade.
O CD “Mart’nália Canta Vinicius de Moraes”, da gravadora Biscoito Fino, traz 14 faixas com direção, produção musical, arranjos e apoio na mixagem de dois craques: o guitarrista Celso Fonseca e o contrabaixista Arthur Maia (1962-2018).
O resultado? Arranjos certeiros que deixam a voz de Mart’nália “rouquear” palavras e sussurrar emoções de maneira ímpar e, por vezes, sedutora.
Na voz de Mart’nália, que iniciou a carreira aos 16 anos fazendo backing vocal nos shows do pai, o cantor Martinho da Vila, há timbres e pegadas dele e de Elza Soares, misturados a traços da voz da cantora Anália Mendonça, sua mãe e primeira mulher de Martinho.
Com ela, o compositor teve três filhos: Martinho, Analimar e Mart’nália, as duas batizadas com a união das iniciais dos nomes dos pais. Foi com a morte da mãe que Mart’nália encontrou forças no canto e deslanchou como cantora.
Nas canções do disco, soam as letras do homem que soube tão bem transcrever sentimentos, lugares e cenas do cotidiano em palavras a serem musicadas. “Sabe Você?”, “Eu Sei que Vou te Amar”, “Onde Anda Você”, “Canto de Ossanha”, “Deixa”, “Minha Namorada”, “Um Pouco Mais de Consideração”, “Samba da Bênção”, “Você e Eu” e “Maria Vai Com As Outras” são algumas nas quais Mart’nália tira uma onda, com muita naturalidade, ao interpretá-las.
A francesa Carla Bruni dá o ar de seu charme, cantando “Quelle Grande Sottise”, versão em francês de “Insensatez”, feita pelo cabo-verdiano Mario Lúcio. A rainha Maria Bethânia empodera com sua interpretação o “Soneto do Corifeu”. E o violonista, cantor e compositor Toquinho ataca em “Tarde Em Itapoã”.
Contudo, é em “A Tonga da Mironga do Kabuletê”, que Mart’nália retoma, em inspirada interpretação, a divertida música, cujos versos iniciais dão a chave para o sentido da canção: “Eu saio da fossa/ Xingando em nagô”.
Vinicius havia voltado da Itália para o Brasil em 1970 e estava descontente com a situação política da nação. Sua mulher na ocasião, a baiana Gesse Gessy, ligada ao candomblé, ensinou-lhe o xingamento em nagô, “a tonga da mironga do kabuletê.
O compositor aproveitou a expressão para, de uma maneira velada e jocosa, afrontar os militares que detinham o poder na ocasião e censuravam suas letras. Segundo consta, ele disse à mulher: “Essa letra passa na Escola Superior de Guerra, não tem um milico que saiba falar nagô”.

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