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Mulheres fatais, homens quadrados

| 03/10/2014 | 20:06

Ora ou outra, em “Sin City: A Dama Fatal”, os personagens banham-se em suas próprias consciências: falam para si mesmos – e para o espectador – sobre suas dores, suas dúvidas e seus esquecimentos. Mas é bom não se enganar: não se trata de um filme profundo, com figuras e situações complexas. Quase dez anos após a primeira parte, de 2005, surge a segunda, também dirigida por Robert Rodriguez e Frank Miller. O último, vale lembrar, é o autor das histórias em quadrinhos que servem de base a ambos os filmes.

São diferentes passagens, personagens e resquícios de consciência na mesma cidade obscura. A violência, por ali, chega em doses cavalares: cabeças cortadas, olhos arrancados, sangue à vontade. Tem o mesmo Marv do filme anterior, o personagem mais interessante e ainda vivido por Mickey Rourke – dessa vez como um coadjuvante que sempre aparece para ajudar os outros. No mesmo bar sujo e frequentado por criminosos, a bela Nancy (Jessica Alba) continua a sacudir o corpo. É ali que homens como Marv e outros se debruçam para ver sua dança, beber um pouco, fazer valer a síntese de toda aquela cidade.

Para fora, correria, crimes, reviravoltas: histórias diferentes envolvendo homens poderosos e damas fatais. Na verdade, são três histórias paralelas que em algum momento se encontram: a situação de Johnny (Joseph Gordon-Levitt), que desafia um poderoso senador nas mesas de pôquer; a de Dwight (Josh Brolin), seduzido e traído pela dama fatal do título; e a de Nancy, que leva novamente ao poderoso senador. Para Rodriguez e Miller, mais vale o visual. “Sin City” é inteiro feito de cenários digitais, com um preto e branco cristalino, frequentemente cortado pelas cores. O resultado é inegavelmente interessante, como no primeiro filme.

Mas, na rabeira do longa de 2005, fica a impressão de um filme repetido, sem muito a acrescentar, feito de referências aos antigos filmes noir dos anos 40.
A começar pela dama fatal. Vivida pela bela Eva Green, Ava enfeitiça os homens ao seu redor. Usa roupas transparentes e às vezes não usa nada. Gosta de se banhar nua, à noite, em sua piscina. Ela manobra o detetive Dwight em um jogo perigoso, depois um policial e até mesmo seu fiel capanga – cujo olho direito é retirado por Marv.

Na Hollywood sombria dos anos 40, sob as luzes e sombras da Segunda Guerra Mundial, a dama fatal era a figura feminina poderosa, que reivindicava seu protagonismo em histórias quase sempre encabeçadas por homens – presas fáceis ou mesmo detetives durões e de moral duvidosa. “Sin City” presta-lhes homenagem. Cinéfilos atentos deverão lembrar o clássico “Pacto de Sangue”, de Billy Wilder, e outros. Quando Dwight aparece com o rosto todo enfaixado e depois muda o visual, impossível não pensar em “Prisioneiro do Passado”, de Delmer Daves.

Ao gosto de Rodriguez, e a partir do clima criado por Miller, há também outras belas mulheres – outras damas fatais – com metralhadoras em riste, roupas curtas e de couro, para fazer a alegria dos homens no cinema.
Se estas são belas demais, os homens também têm seu estilo próprio: possuem rostos quadrados, cheios de cicatrizes e aquela forma de resmungar que faz pensar em um buldogue – a exemplo, claro, do próprio Marv de Mickey Rourke.

O primeiro “Sin City” é mais empolgante, dinâmico, e tem uma sequência dirigida por Quentin Tarantino. O segundo segura-se bem. Falta-lhe, contudo, certo tempero para além de efeitos esperados e reviravoltas conhecidas. Busca diferencial na violência extrema, mesmo quando esta é naturalmente falsa. A exposição da consciência dos personagens soa como mera brincadeira frente às tantas sequências de ação em cenários digitais, frente às várias frases de efeito. Nem tudo está perdido na “cidade do pecado”. Há ainda um pingo de humanidade.


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