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Novo ‘Aranha‘ é espetáculo infantil

| 08/05/2014 | 10:41

Alguns filmes de super-heróis têm características curiosas. Para muita gente, elas são tão normais que passam despercebidas. Em “O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro”, alguns confrontos entre o herói e os vilões são assistidos pelo público, na rua, como se tudo não passasse de diversão. É como um espetáculo televisivo para se torcer pelo mocinho e vaiar o bandido.

A cidade é destruída pouco a pouco, alguns prédios estão caindo, mas o público continua ali, aos gritos, a favor do querido e correto Homem-Aranha. Esse clima está presente em quase toda a aventura dirigida por Marc Webb: o atestado de infantilismo que algumas aventuras da Marvel trazem na bagagem. Enquanto produções como “Capitão América 2: O Soldado Invernal” levam os heróis para um futuro sombrio, político e ambíguo, outras ainda insistem em um espetáculo infantil, quase sempre ingênuo.

Nesse sentido, o novo “Homem-Aranha” aproxima-se de “Homem de Ferro 3”: são comédias travestidas de um filme de herói. Pois o que mais se faz nesse segundo “Homem Aranha” – à exceção do drama final, envolvendo a lourinha Gwen Stacy (Emma Stone) – é dar risada. A graça não seria um problema em menor dose. No entanto, o diretor Webb apela ao cômico sem parar. É evidente que alguns fãs reclamarão, dizendo que se trata apenas de um filme de super-heróis.

Certo, é verdade. No entanto, até mesmo a mais ingênua e descompromissada fantasia obedece a regras. Sendo como é, “Homem-Aranha 2” também deve respeitá-las e nada desculpa as falhas contidas em seu roteiro. A confusão não tem fim. Ora é uma comédia, ora uma aventura, ora um filme de romance adolescente no qual o menino – super-herói quase por diversão – toma um fora da moça que ama.

Nessa confusão, o filme não se define muito bem e sempre recorre àqueles toques de ingenuidade quando o Aranha dá conselhos às crianças, nas ruas. E nem sempre a ingenuidade é redimida pela comédia. O novo “Homem-Aranha” é vítima de sua própria forma e confusão, com o ator Andrew Garfield mais uma vez na pele de Peter Parker e ainda tentando ser o menino desastrado de sempre.

Nessa teia de confusão surgem vários vilões. Não bastassem as situações sempre apressadas na relação dos jovens amantes e nas descobertas sobre o passado do herói, o filme ainda encontra tempo – ou faz caber no meio – mais dois vilões de peso e um terceiro para fechar a fita. É tanta coisa que o espectador não respira. O tal Electro que aparece no título nacional não tem graça, tampouco mete medo.

Ele chama-se, na verdade, Max Dillon (Jamie Foxx), homem desprezado por todos, que sonha ser famoso como o Homem-Aranha. Ou seja, é mais um vilão que nasce da figura do rejeitado – como o Aldrich Killian de “Homem de Ferro 3”. O verdadeiro vilão é o jovem Harry Osborn, vivido por Dane DeHaan, à frente do ótimo “Poder Sem Limites”.

Com ele, o filme cresce um pouco, ganha contornos macabros e faz lembrar – por curto tempo – que as coisas podem ser mais sérias. Não há outro caminho para ele senão o do Duende Verde. Seu confronto com o Homem-Aranha não dura muito, mas é a melhor coisa de um filme confuso.

Ao fim, o espectador até chega a acreditar que o herói cresceu. E então retornam o pequeno fã vestido como o herói, o vilão sem cérebro e aquela plateia de UFC, aos gritos e a apenas alguns metros do caos. Tudo volta a ser como antes: infantil e vazio, como sempre.


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