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Spike Jonze mostra que o amor sobrevive

| 08/05/2014 | 10:30

Em sua essência, “Ela” é um filme de amor. Mas não um filme de amor como se está acostumado. É a história de um rapaz nem sempre sociável, do tipo que sofre quieto, aos cantos, e que certo dia se vê apaixonado por um programa operacional. Ou melhor: por uma máquina com voz de mulher e até sentimentos. Um amor futurístico, em suma.

Em cartaz em Jundiaí, no Moviecomarte, neste fim de semana, “Ela” saiu da cabeça de Spike Jonze, o mesmo realizador de “Quero Ser John Malkovich” – o filme em que algumas pessoas viciavam-se ao entrar na mente do famoso ator, vivendo ele próprio. Depois veio o ótimo “Adaptação”, sobre o processo criativo de um roteirista.

Em essência, um filme sobre o cinema e mais uma vez povoado por pessoas excêntricas. Com “Ela”, Jonze parece criar seu personagem mais “normal”, no sentido amplo da palavra. Theodore (Joaquin Phoenix) vive em um tempo não tão distante do real, um tempo em que as pessoas estão cada vez mais conectadas às máquinas de bolso.

Por outro lado, Jonze traz uma ótima notícia aos futurologistas: o amor sobreviverá a esse futuro um pouco amargo, no qual o sol nem sempre aparece sobre as cidades. Escritor, solitário e às vezes sorridente (apesar de tudo), Theodore passa a amar Samantha (voz de Scarlett Johansson), aquele ser suave que lhe acorda, que lhe traz todas as notícias e o acompanha a todo o momento.

É possível se apaixonar por uma voz ou só se ama apenas quem se vê? O filme leva a pensar em um futuro em que a solidão será preenchida pela tecnologia e pela aparência de amor proporcionada por ela. Por outro lado, não se trata de um filme com tom crítico, no qual as máquinas são malvadas e dominadoras.

Ao longo da relação entre Theodore e Samantha, o espectador começa mesmo a entender o que ela tem de tão especial. A moça – se assim pode ser chamada – é, ao mesmo tempo, namorada, secretária, confidente e, como ele, sofre. Engraçado que nesses tempos de conexão constante, em que todo mundo “tem” alguém ao ter um celular na mão e uma conta em alguma rede social, demorou tanto para surgir um filme como “Ela”.

No fundo, não deixa de ser uma fita simplista – também no sentido amplo da palavra – e que se volta a esse nobre sentimento batido: o amor, tão usado como mote de longas-metragens. Um filme que lida com situações simples, no qual seu protagonista perdeu quem amava (a personagem de Rooney Mara) e tem uma amiga para conversar e até mesmo falar um pouco mais sobre a vida (vivida por Amy Adams).

Mas a esse homem sempre faltará algo, o que talvez nem mesmo Samantha poderá preencher. “Ela” é sobre o caminho desse personagem que está em quase todos os quadros do filme. A ele Phoenix entrega mais uma bela interpretação, entre o homem perdido e amargo e sorridente e apaixonado: talvez o homem moderno que, em sua indefinição, torna-se ainda mais interessante. Com Theodore, Jonze chegou à forma da pessoa comum, que ama e sofre. A quem sempre faltará “ela” – no sentido amplo da palavra.


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