Economia

Clientes poderão comprar online com Pix sem abrir aplicativo de banco


Marcello Casal JrAgência Brasil
Pix é o pagamento instantâneo brasileiro. O meio de pagamento criado pelo Banco Central (BC) em que os recursos são transferidos entre contas em poucos segundos, a qualquer hora ou dia. É prático, rápido e seguro.
Crédito: Marcello Casal JrAgência Brasil

O início da implementação da terceira fase do open banking, nesta sexta-feira (29), abre caminho para que consumidores façam pagamentos com Pix, sistema de pagamento instantâneo, por meio de empresas chamadas iniciadoras de pagamento.

No cronograma original, a fase começaria em 30 de agosto, mas foi adiada pelo Banco Central a pedido dos bancos.

Na prática, a etapa possibilita que clientes façam compras em lojas virtuais com o Pix sem precisar abrir o aplicativo da instituição, por exemplo.

Elaine Shimoda, chefe de inovação em pagamentos e parcerias do Mercado Pago, explica que, quando o cliente compra em uma loja virtual, ele é redirecionado para o aplicativo do banco para confirmar e aprovar a transação.

"Isso foi criado pela autorregulação [pelos próprios bancos e fintechs], considerando a percepção de segurança dos consumidores brasileiros", diz.

A figura do iniciador de pagamento foi criada em outubro do ano passado para operar dentro do modelo de open banking. São empresas autorizadas a intermediar o repasse de recursos (inclusive pagamentos) entre contas de bancos diferentes.

Em maio, o BC deu aval para o serviço de transferência de dinheiro do WhatsApp, que se enquadra na categoria.

A previsão da autoridade monetária é que outros meios de pagamento também sejam incluídos em 2022. Segundo especialistas e executivos do setor, a primeira parte, só com o Pix, implementada de forma escalonada.

"Nas primeiras duas semanas funcionará com usuários selecionados pelas instituições financeiras. Eles podem ser usuários internos, funcionários, colaboradores, entre outros. O uso será feito em dia útil, com horário determinado e limite de valor de até R$ 1 mil. Ou seja, um escopo bem reduzido em público-alvo", explica Rogerio Melfi, coordenador do grupo de trabalho de open banking da ABFintechs (Associação Brasileira de Fintechs).

Depois, as instituições vão liberar a funcionalidade para 1% da base de clientes, ainda com limite de R$ 1 mil e com horário reduzido. O percentual aumentará para 10% nas semanas seguintes.

Em 1º de dezembro, a ferramenta será disponibilizada para todos os clientes, 24h, todos os dias, mas ainda com limite de R$ 1 mil. A partir de 17 de fevereiro de 2022 a funcionalidade passará a ser oferecida sem restrição de valor.

O open banking é um conjunto de regras e padrões estabelecidos pelo BC para o compartilhamento de dados, sob expressa autorização do cliente, entre instituições financeiras.

O modelo dá ao consumidor a possibilidade de autorizar ou não que bancos e fintechs consultem seu histórico bancário e outras informações, que antes eram privadas e de difícil acesso inclusive para o próprio usuário.

Dessa forma, ele não precisa construir um novo relacionamento na hora de migrar de instituição, pode apenas levar seus dados. Além disso, o sistema permite que sejam oferecidos produtos e serviços mais vantajosos por bancos com o qual não se tem vínculo.

Melfi ressalta que a partir do conjunto de regras, cabe ao setor criar novos modelos de negócio para que os dados e as novas tecnologias sejam usados. Por isso, o consumidor não deve sentir as mudanças de imediato.

"Depende muito das fintechs e das instituições financeiras criarem produtos e soluções que se usem desses dados [compartilhados] e da iniciação de pagamento. A expectativa é que o consumidor final comece a sentir as mudanças entre dezembro e fevereiro. O começo é muito mais preparatório, de infraestrutura, e começa toda uma questão de inovação e empreendedorismo para consumir esses serviços e dados que podem ser compartilhados", ressaltou Melfi.

A terceira fase do open banking começa a ser implementada nesta sexta, mas só deve terminar em setembro do próximo ano, com a inclusão de pagamentos com débito em conta.

Entre fevereiro e junho, transferências entre contas do mesmo banco e com TED (Transferência Eletrônica Disponível) e pagamentos com boletos também serão autorizados.

"Aplicativos de mensagem ou rede sociais como WhatsApp, Discord, Instagram e outros vão poder oferecer transferência e pagamento de produtos acessando diretamente a conta dos usuários sem precisar de nenhum tipo de cartão ou boleto", explica Rodrigoh Henriques, especialista em open banking da Fenasbac (Federação Nacional DE Associações dos Servidores do Banco Central), parceira da autoridade monetária no projeto.

"Gerenciadores financeiros pessoais e sistemas de gestão de empresas também podem virar iniciadores de pagamento e oferecer a possibilidade de acessar uma conta e pagar direto no sistema", ressalta Henriques.

Além disso, a terceira etapa prevê o encaminhamento de proposta de crédito em março. Na modalidade, clientes poderão solicitar em ambiente eletrônico propostas de empréstimos e financiamentos a várias instituições ao mesmo tempo e ficará mais fácil comparar taxas, prazos e outras condições.

"A possibilidade de ter propostas de crédito encaminhadas para um número expressivo de instituições financeiras e escolher a que me atende melhor, com melhor prazo e melhores taxas será uma revolução no sistema financeiro. Temos certeza que com esse novo serviço a competitividade do setor aumentará e com isso a qualidade melhora e os preços ficam mais atrativos", diz o especialista da Fenasbac.

Henriques afirma que o open banking é seguro, mas frisa que o cliente deve ficar atento para não cair em golpes.

"É fácil imaginar que bancos, cooperativas de crédito, fintechs, seguradoras e corretoras são atacadas o tempo todo e todas as formas. Mesmo assim vazamentos no setor são muito raros e, quando acontecem, superficiais em relação às possíveis ações de hackers", pondera.

Segundo ele, o mais comum são os ataques usando engenharia social, quando alguém se passa por uma instituição confiável e pede comprovação de dados, senhas ou troca de cartão. "A população precisa ficar muito atenta", alerta.

"A tecnologia da segurança é bastante avançada e as instituições têm todos os incentivos tanto pelas possíveis punições do regulador tanto quanto dos próprios clientes para garantir o maior nível de segurança possível", pontua.

Shimoda, do Mercado Pago, concorda que o sistema é seguro.

"Não acreditamos deva agravar a situação de vazamento de dados, mas sim ajude a implantar um novo patamar para gestão de informações dos clientes. O sistema financeiro atualmente possui diversas camadas de autenticação e segurança e, adicionalmente, o open banking tem incluído protocolos de segurança mundiais", ressalta.

Mesmo com os avanços tecnológicos, a inclusão financeira e digital ainda é um desafio no país. Passados oito meses do início da implementação do open banking, em fevereiro, muitos ainda não conhecem o novo ecossistema.

Um estudo da TecBan em parceria com o instituto de pesquisas Ipsos, divulgado nesta semana, mostra que o interesse do consumidor pelo open baking cresce conforme a renda.

Segundo a pesquisa, apenas 20% dos entrevistados com renda familiar de até um salário mínimo consideram extremamente relevantes as opções de serviços que possam surgir com o novo modelo. O percentual vai para 39% entre aqueles que possuem renda familiar acima de cinco salários.

No grupo de menor renda, apenas 31% concordam totalmente que os serviços facilitariam a vida. O percentual vai para 48% entre os que ganham mais.

"Os resultados nos mostram que um grande desafio é justamente levarmos informações de qualidade para todos sobre as oportunidades, incluindo o maior acesso ao crédito. Em um país de dimensões continentais, como é o Brasil, há muitos desafios que precisam ser superados e estamos trabalhando para isso", diz o , superintendente de Novas Plataformas da TecBan, Tiago Aguiar.

De acordo com o levantamento, 52% dos participantes estariam mais propensos a utilizar os serviços de open banking caso fossem oferecidos pelo seu banco.

"Os benefícios do open banking estão abertos para todos, independentemente da faixa de renda. Inclusive é uma grande oportunidade para trabalhadores informais abrirem seus históricos financeiros para conseguirem boas oportunidades de acesso a novos recursos, por exemplo", coloca Aguiar.

A pesquisa foi realizada de forma online, com abrangência nacional. Foram entrevistados 1.000 homens e mulheres das classes A, B e C, com acesso à internet. A margem de erro é de 3,1 pontos percentuais.


CRONOGRAMA DA TERCEIRA FASE DO OPEN BANKING

29 de outubro de 2021 - Início de pagamentos com Pix no open banking de forma escalonada

Até 14 de novembro de 2021 - iniciação de pagamento por chave Pix ou inserção manual de dados entre clientes previamente selecionados pela instituição com limite de R$ 1.000 em dias úteis, das 6h às 20h.

Até 30 de novembro de 2021 - Até 1% da base de clientes da instituição com de R$ 1.000 em dias úteis, das 6h às 20h.

Até 31 de janeiro de 2022 - Iniciação de pagamento por QR Code para todos os clientes, com limite de R$ 1.000, 24 horas, todos os dias da semana.

Depois de 17 de dezembro de 2022 - Para todos os clientes sem restrição de horário e valor.

15 de fevereiro de 2022 - Pagamentos com TED e transferência entre contas na mesma instituição

30 de março de 2022 - Encaminhamento de proposta de crédito

30 de junho de 2022 - Pagamento de boletos

30 de setembro de 2022 - Pagamentos com débito em conta


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