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Riscos para 2022 levam gestores a apostar na queda da Bolsa


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Riscos para 2022 levam gestores a apostar na queda da Bolsa
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Embora o Ibovespa já acumule uma queda acima de 10% em 2021, até 12 de outubro, gestores apostam que as incertezas fiscais e políticas devem fazer as perdas prosseguirem ainda por mais algum tempo.

Entre os fundos que mais se destacaram nas últimas semanas de forte volatilidade, têm sido figurinha carimbada aqueles com apostas conhecidas no jargão de mercado como "vendidas" --posições estruturadas via derivativos na B3 que ganham em momentos de queda generalizada das ações.

O fundo multimercado Macro da gestora de recursos Adam Capital é um exemplo assim. Em outubro, quando o índice da Bolsa teve um tombo de quase 7%, o fundo subiu cerca de 4%.

"Estamos vendidos na Bolsa brasileira há cerca de dois meses, e mais confiantes com o mercado de ações nos EUA", afirma André Salgado, sócio fundador da gestora.

A relação entre risco e retorno, acrescenta, tem se mostrado bem mais favorável ao mercado americano, quando comparados indicadores como o nível esperado para a atividade econômica e para a taxa de juros.

"Ainda que tenha preços razoáveis em alguns setores, o mercado local não compensa o risco frente às oportunidades no exterior, onde a atividade, o lucro das empresas e a política monetária estão mais atraentes", diz Salgado. Ele aponta o setor de tecnologia e o financeiro entre as principais apostas nos EUA.

Também com uma posição que se beneficiou da queda recente das ações brasileiras, o fundo Parcitas Hedge teve valorização de 4,2% no mês de outubro.

Segundo Marcelo Ferman, sócio fundador da gestora Parcitas Investimentos, a composição da carteira leva em conta a alta contundente de juros em curso pelo BC (Banco Central) necessária para controlar a inflação.

Historicamente, diz o gestor, os ciclos de aperto nas condições monetárias são períodos negativos para a performance da Bolsa.

O sócio da Parcitas prevê que a taxa de juros deve chegar por volta de 12% a 13% em meados de 2022, e, ainda assim, com o BC penando para entregar a inflação no centro da meta. Por outro lado, a Selic em dois dígitos deve favorecer uma apreciação do real, acrescenta.

Ferman afirma que também vem encontrando melhores oportunidades no exterior, em especial em ações de tecnologia como Amazon, Google e Salesforce, ou no índice acionário S&P 500.

"Temos que pescar no lago em que tem peixe. E vemos o Brasil em uma situação muito complicada, em que é preciso fazer uma pesca submarina para encontrar boas oportunidades", diz o gestor.

Rogério Xavier, sócio fundador da SPX Capital, disse durante evento da Genial Investimentos na quarta-feira (10) também ter no portfólio posições vendidas na Bolsa local, e compradas no dólar --o fundo multimercado Nimitz da gestora subiu 1,7% em outubro.

"O preço [da Bolsa] precisa mudar para chamar um novo comprador, seja eu, o estrangeiro ou as pessoas físicas", disse Xavier, acrescentando que a alta dos juros no cenário global deve contribuir para aumentar ainda mais a volatilidade nos mercados. "Pode ser que a gente se depare com preços melhores para botar no portfólio."

Já os gestores do fundo Opportunity Total dizem ter revertido a exposição ao mercado acionário brasileiro em outubro, passando a adotar posição taticamente vendida.

Os prêmios ainda não incorporaram totalmente o ambiente de renovadas incertezas fiscais, desaceleração econômica abrupta e aperto monetário significativo, escreveu a equipe de gestão do multimercado, que subiu 1,4% no mês passado.

Marcos Mollica, gestor do fundo, assinala que a inflação de outubro veio significativamente acima do consenso dos economistas -1,25%, ante 1.06%- com surpresas espalhadas por vários componentes indicando maior persistência do choque de preços.

"Neste contexto, acreditamos que cresce a pressão para o Copom acelerar mais uma vez o ciclo de altas de juros, possivelmente para 2 pontos percentuais já na próxima reunião e na reunião subsequente, para fechar o ciclo com a Selic em 11,75%", prevê Mollica.

Na Ace Capital, os gestores dizem que, no momento em que o teto ficou apertado e iria cumprir com seu papel de forçar o governo a fazer escolhas políticas para aumentar a eficiência, a opção foi pelo caminho mais fácil e populista.

"Isso, na prática, abre um precedente perigoso, que muito provavelmente decretou o fim do teto dos gastos", destacam os gestores da Ace Capital na carta de outubro, quando o fundo da casa subiu 1,2%.

Luiz Missagia, gestor de ações da Ace, afirma que além de carregar posições vendidas no Ibovespa como forma de proteção para o portfólio, tem apostas pontuais em alguns papéis que considera com preços excessivamente salgados. Rede D´Or, Cemig e Ambev estão entre eles.

No caso da Blue Line Asset Management, a avaliação dos gestores é a de que os preços dos ativos já remontam aos patamares do governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). O que não significa, contudo, que novas perdas não possam ocorrer.

"Continuamos com uma opinião bastante negativa no país, e operando levemente vendido em Bolsa e comprado em dólar contra o real", escrevem os gestores da Blue Line na carta de gestão do fundo, que subiu 2,7% em outubro.

Após terem promovido uma redução importante do risco entre agosto e setembro, os gestores dizem ter voltado a aumentar as posições nas últimas semanas, priorizando o mercado acionário americano.

Na visão dos especialistas, a temporada de balanços nos EUA, com resultados corporativos robustos, tem contribuído para o bom desempenho das ações por lá.

Na mesma linha, Carlos Eduardo Rocha, gestor da Occam Capital, disse durante evento da Empiricus na terça-feira (9) que também tem carregado apostas vendidas no Ibovespa que vêm se revertendo em ganhos para a carteira --o fundo Occam Retorno Absoluto teve alta de 1,6% em outubro.

Rocha disse que o cenário global mais adverso, com inflação pressionada e redução dos estímulos, tende a penalizar principalmente os emergentes, como os países da América Latina e do Leste Europeu.

O gestor afirmou que carrega posições que se beneficiam do ciclo de alta nos juros globalmente, e da queda da Bolsa local, tendo uma visão mais favorável para as ações nos EUA.

"Tem uma tendência de alta lá fora, e de baixa aqui no Brasil", disse Rocha. Ele afirmou que cerca de 80% do risco do fundo está direcionado ao mercado internacional.


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