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Anunciado por Bolsonaro, plano de moeda única não teve aval da área econômica

FOLHAPRESS | 08/06/2019 | 12:03

Apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL), o plano de implementar uma moeda única para Brasil e Argentina não está em estudo e não faz parte de nenhuma análise técnica na área econômica no governo.

Em encontro com empresários na quinta (6), em Buenos Aires, Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, discutiram a ideia. O tema já teria sido debatido com o ministro da Economia de Mauricio Macri, Nicolás Dujovne.
Internamente, no Ministério da Economia, as afirmações sobre a criação da moeda única foram recebidas com cautela e aplicação de uma dose de realidade. Auxiliares de Guedes afirmam que não existe nenhuma análise sobre o tema em andamento na pasta.

Após as afirmações do presidente, o BC (Banco Central) se posicionou rapidamente. Por meio de nota, informou que não tem projetos ou estudos sobre eventual união monetária com a Argentina.

Levantar o debate sobre o tema neste momento não seria despropositado, avalia um membro da equipe econômica. O discurso pode fazer parte da estratégia política de Bolsonaro de mostrar que defende uma estabilização econômica da Argentina e, com isso, fortalecer politicamente o liberal Mauricio Macri, que deve tentar reeleição em outubro deste ano.

Nesta sexta (7), Bolsonaro afirmou que foi dado o primeiro passo para “o sonho” de unificar real e peso.
“Houve um primeiro passo para o sonho de uma moeda única. Como aconteceu com o euro lá atrás, pode acontecer o peso real aqui”, disse o presidente em Buenos Aires.

Bolsonaro disse acreditar que o Brasil tem mais a ganhar do que a perder com a unificação. Para ele, a medida seria uma forma de barrar “aventuras socialistas” no continente. “Uma nova moeda é como um casamento. Você ganha de um lado e perde de outro. Você às vezes quer ver o jogo do Botafogo e não consegue porque sua esposa quer ir ao shopping. Mas, como num casamento, a gente mais ganha do que perde. Temos mais a ganhar do que perder. Com uma moeda única damos uma trava às aventuras socialistas que acontecem em alguns países da América do Sul.”

O presidente acrescentou: “Já falei para vocês que a economia não é meu forte, mas acreditamos no feeling, na bagagem, no conhecimento e no patriotismo do Paulo Guedes”.

Embora Bolsonaro tenha sugerido que o plano começou a caminhar, um auxiliar de Guedes afirma que a proposta deve mesmo ser tratada como um sonho, algo que pode ser positivo no futuro, mas que hoje não é nada além de uma ideia, um ensaio.

A proposta de uma moeda única é uma ideia antiga de Guedes. Em 2008, em artigo publicado pela revista Época, ele defendeu a criação, para toda a América Latina, do “peso real”. O nome é o mesmo do que foi apresentado agora na Argentina.

Na época, Guedes argumentou que a empreitada deflagraria um ciclo de reformas tributária, trabalhista e previdenciária, com efeitos positivos para todo o continente.

Desde que o Mercosul foi criado, os países do bloco aventam a possibilidade de criar uma moeda comum, mas nenhuma iniciativa nesse sentido foi concretizada devido às diferenças de políticas cambiais dos membros. Neste momento, porém, os únicos que estariam negociando a nova moeda seriam Brasil e Argentina, deixando de fora, por enquanto, Uruguai e Paraguai.

A ideia, tratada como embrionária pelo governo, é questionada por especialistas e gerou críticas no meio político.
O ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman afirma se tratar de uma proposta sem sentido.
“É uma péssima ideia”, disse. “Não é nem colocar o carro na frente dos bois, porque você não tem nem os bois ainda, nem o carro.”

O economista diz que uma integração monetária exige o cumprimento de uma série de etapas anteriores, como harmonização de políticas fiscal e cambial entre os países. Ele cita o caso do euro, que nasceu após décadas de processo de integração econômica, livre-comércio e liberdade de mão de obra. “Não temos nada remotamente parecido com isso. Supostamente, o Mercosul é uma união alfandegária. A gente não tem nem livre-comércio nem tarifa externa única.”

Schwartsman ressalta que o nascimento da nova moeda ainda exigiria a criação de instituições supranacionais para cuidar do setor financeiro e da política fiscal. Leis comuns entre os dois países também precisariam ser aprovadas.
Para ele, a ideia contraria o discurso de Bolsonaro em defesa da soberania nacional. “A gente abandonou o passaporte com o símbolo do Mercosul, mas estaria disposto a criar uma moeda única? [A proposta] envolve ceder uma soberania gigantesca”, disse.


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