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No pós-crise, empresários apostam em qualificação e tecnologia 4.0

MÁRCIA MAZZEI E ARIADNE GATTOLINI | 14/06/2020 | 05:00

O surgimento da pandemia do novo coronavírus (covid-19) e a velocidade de sua propagação vão acelerar os processos de incremento de tecnologia 4.0 e maior qualificação de funcionários. Ainda sem capacidade de previsão futura, os empresários apostam na criatividade brasileira para encontrar soluções no pós-crise.

“Na verdade, esta pandemia apenas acelerou a transformação trazida pela 4ª Revolução Industrial”, defende o CEO da Indústria Fox, Marcelo Anderson Sousa. O termo, que foi usado pela primeira vez pelo governo alemão em 2012, engloba uma série de tecnologias que utilizam conceitos de sistemas cyber-físicos, Internet das Coisas e Computação em Nuvem. Seu principal atributo é a criação de fábricas inteligentes, que criam uma cooperação mútua entre seres humanos e robôs em tempo real. Essas tecnologias trazem inúmeras oportunidades para a geração de valor aos clientes e um aumento significativo de produtividade.

A chamada Indústria 4.0 deve finalmente ganhar mais atenção dos empresários brasileiros diante de um cenário em que existe grande dificuldade para conseguir insumos e matérias-primas nacionais e principalmente importadas devido às restrições logísticas e a alta do dólar. Muitas encaram ainda a dificuldade de conseguir capital de giro no sistema financeiro.

Segundo uma pesquisa da CNI (Confederação Nacional da Indústria), 79% das indústrias afirmam ter sofrido redução nos pedidos. Cerca de 53% apontam que a queda foi intensa. Os dados mostram que 86% das empresas estão com dificuldade para receber insumos e 83% enfrentam problemas na logística de transporte, tanto de produtos como de matérias-primas. Três em cada quatro empresas consultadas (73%) enfrentam dificuldades para honrar os pagamentos de rotina.

Na Fox a situação não foi diferente. Entre os setores de atuação, apenas o de remanufatura apresentou crescimento. Nos demais, eficiência energética e reciclagem, a queda oscilou entre 70% e 80%.

Neste sentido, Sousa revela que direcionou a companhia investindo ainda mais em tecnologia. “Hoje eu busco eficiência no meu quadro de colaboradores, profissionais com conhecimentos de tecnologia, de ferramenta de gestão de trabalho, de ferramenta digital. Ou seja, a projeção para o pós-pandemia é colocar em prática o ‘menos é mais’”, define.
Quanto ao futuro da economia, Sousa tem um sentimento contrário aos otimistas de plantão. “Esta injeção de dinheiro que estamos vendo é fruto de programas sociais dos governos, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e seguro-desemprego, mas para o segundo semestre a projeção é de uma taxa de desemprego ainda maior puxando a economia para baixo.”

Apesar do cenário relativamente sombrio, ele é incisivo quando se refere à tecnologia. “Estar preparado, entender e investir em novas tecnologias é o futuro em um momento de tantas incertezas. Fomos surpreendidos por uma crise abrupta, em que a economia desacelerou em uma velocidade recorde. Apesar disso, eu ainda considero esta alta do dólar um ponto positivo para a economia, já que valoriza a empresa brasileira e pode alavancar os negócios e até gerar empregos”, conclui.
Incerteza x criatividade

O vice-diretor do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) de Jundiaí, Claudio Palma, também é tomado pelo sentimento de incertezas quando olha para o futuro da economia do Brasil, mas aposta na criatividade como antídoto para superar uma crise sem precedentes.

“A retomada econômica é uma incerteza, pois nunca passamos por desligar o planeta como fizemos desta vez. Alguns setores poderão ser reativados mais rapidamente que outros. Por outro lado, alguns setores não têm demanda reprimida e, portanto, o máximo que poderão chegar em determinado tempo é atingir a sua antiga capacidade de produção. Ainda assim, o brasileiro leva vantagem porque possui a capacidade de ser criativo”, acredita.

Palma cita como exemplo os restaurantes, que interromperam sua operação e quando for reativado, o máximo que poderá alcançar no futuro será um antigo faturamento. “As pessoas que não puderam almoçar nele, por estarem em quarentena em casa, não almoçarão duas vezes por dia para recuperar os almoços perdidos”.

Ele lembra que as variáveis de recuperação da economia só não coincidem em relação ao modelo de curva de retomada. Se em V (queda rápida, recuperação igualmente rápida), em U (queda rápida e recuperação um pouco mais lenta) ou em L (queda rápida e certa estagnação antes de recuperação no longo prazo). “Ou seja, que virá depois ainda está no terreno movediço da incerteza, mas apesar de toda a dificuldade que o desemprego possa ter gerado eu aposto em uma recuperação rápida.”

Acelerar a retomada exigirá políticas públicas de apoio que, para Palma, precisam ser assertivas e cirúrgicas, sem empurrar o país para um novo pântano fiscal. De toda forma é preciso falar da crise econômica como uma oportunidade de crescimento. “A retomada será gradual, porém com muitas oportunidades. Quem conseguir enxergar nichos, se transformar, vai pegar carona nessas oportunidades. As pessoas costumam dizer que vivemos uma guerra. Geralmente, o pós-guerra vem acompanhado de crescimento”, conclui.

A economia pós-apocalíptica
Nem investimento tecnológico nem criatividade. Para o professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (Neit-IE/Unicamp), Marco Antônio Rocha, a longa crise do sistema industrial do Brasil criou uma condição de extrema vulnerabilidade provocada pelas transformações estruturais da economia brasileira ao longo das últimas décadas.

“A capacidade da indústria brasileira de responder produzindo equipamento de tecnologia já é um ilustrativo da dificuldade que haverá para a economia brasileira dar respostas sem depender de estímulos externos e sendo capaz de aproveitar os gastos autônomos para multiplicar os efeitos em termos de emprego e renda.”

Se pensarmos que estas empresas enfrentaram um período de quarentena, a perspectiva é ainda mais pessimista: na maioria dos casos já possui grau de endividamento e escassez de capital de giro. “Ao fim do processo e já pensando na pós-pandemia, esta empresa estará altamente comprometida financeiramente e, portanto, incapaz de investir em tecnologia que poderia ser uma tábua de salvação.”

 

Tecnologia vai ajudar Jundiaí a superar a crise

O setor público também enfrenta incertezas em relação à projeção de cenários futuros, principalmente por estarmos ainda no ápice da pandemia.

Entretanto, o gestor de Governo e Finanças de Jundiaí, José Antonio Parimoschi, afirma que a inovação tecnológica está acelerada com a disrupção do modelo de convivência da sociedade. “O novo normal vai impor novas formas e modelos de transações econômicas, porém, custará muitos empregos que atualmente sustentam centenas de milhares de famílias e este custo será absorvido por toda a sociedade. Pela ótica do governo, o Brasil terá dois caminhos para avaliar: um deles é aumentar a carga tributária para financiar o rombo fiscal, ampliado significativamente por conta do combate à covid-19. Outro, é estabelecer uma agenda emergencial e excepcional, para acelerar as reformas estruturais do estado brasileiro, a começar pela tributária, administrativa e o pacto federativo, com a redivisão das responsabilidades entre União, estados e municípios.

Pessoalmente, não creio que haja espaço para aumentar a já sufocante carga de impostos; o caminho passa pela substituição do modelo de estado concentrador para um estado muito mais liberal, com a livre iniciativa fluindo e no âmbito dos serviços públicos, desconcentrando recursos para quem efetivamente atende o cidadão em suas mínimas necessidades. Acredito muito que os municípios bem administrados, como é o caso de Jundiaí, têm melhores condições de fazer projetos de desenvolvimento local, com responsabilidade fiscal e com a participação do cidadão, oferecendo educação e saúde de qualidade, segurança, transporte, além de cuidar para que tenhamos um ambiente econômico favorável à atração de empresas e à geração de emprego e renda.”

Embora Jundiaí tenha feito seu dever de casa, apostando em educação de qualidade, com ensino de inglês, tecnologia e empreendedorismo, além de cortar gastos, como salários de agentes políticos e mantendo seus investimentos de R$ 210 milhões em 110 obras, será necessário manter a qualidade dos serviços públicos para continuar atraindo empresas que queiram se instalar aqui.

“Recentemente, Jundiaí foi escolhida para sediar uma empresa americana de tecnologia de ponta, que vai investir R$ 1 bilhão nos próximos três anos. O projeto já está em aprovação na Prefeitura. Interessante que Jundiaí disputou esse investimento com inúmeras cidades e a escolha foi feita em razão do conjunto de seus atributos. Isso mostra que estamos no rumo certo”, afirma o gestor.

Com um mundo cada vez mais virtual, Jundiaí avança na implantação da Cidade Digital, com serviços e-gov, digitais, desburocratização de processos, que devem contribuir para o empreendedorismo. “A proposta é que o poder público auxilie o cidadão e não atrapalhe as empresas, criando regras que impedem o desenvolvimento equilibrado e a geração rápida de novos empregos”, afirma Parimoschi.

Com uma infovia de 300 km, conectando escolas e unidades de saúde, com banda larga, a lição de casa mostra que a nova realidade do mundo pós-pandemia já bateu às nossas portas. Aulas virtuais, plataformas digitais, uso de inteligência artificial, realidade aumentada, e-learning, entre outras ferramentas podem ser usados para melhorar a qualidade do ensino para as crianças e também para agilizar o diagnóstico por imagens dos usuários da rede municipal de saúde. “Jundiaí é uma cidade inovadora e vai sair mais cedo da crise”, afirma Parimoschi.


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