Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Estado de SP não se preparou para a tecnologia em sala de aula

NATHÁLIA SOUSA | 31/05/2020 | 05:02

A educação foi o setor mais afetado pela pandemia. No final de março, segundo a Unesco, cerca de 1,37 bilhão, ou 80%, de estudantes do mundo já estavam sem aula. No Brasil, houve suspensão de aulas em quase todas as instituições de ensino, do básico ao superior. No Estado de São Paulo, o ex-secretário de Educação, José Renato Nalini, afirma que a inovação tecnológica nas escolas estaduais está atrasada e que já deveria estar pronta para as novas exigências digitais. Pesquisa aponta que somente 50% dos alunos da rede estadual estão acompanhando as aulas.

A suspensão abrupta das aulas fez com que a inserção de ferramentas digitais no ensino acontecesse rapidamente. Essa mudança do analógico para o digital nunca foi, até então, regra na educação brasileira, mesmo tendo-se que a maior parte da geração que frequenta instituições de ensino hoje sejam nativos digitais, vivam de forma interativa a revolução tecnológica do 4.0 e tenham domínio de muitas ferramentas virtuais.

As discussões sempre existiram, pensadas muitas vezes como pertinentes a um futuro não tão próximo, muito por conta da estruturação social em que vivemos. Mas foi um fato imprevisto que cortou relações presenciais e, ainda por conta da estruturação social, faz com que pensemos se esta transferência será positiva ou negativa a longo prazo.

José Renato Nalini é advogado, leciona desde 1969 e hoje é professor na pós-graduação da Uninove, também foi secretário estadual de educação entre 2016 e 2018. Para ele, a adoção de tecnologias em sala de aula é algo positivo e deve permanecer além da volta à normalidade. “Lutei pela liberação dos celulares nas escolas. Os alunos sempre levaram os celulares para a escola, mas sempre relutaram em não os deixar usar, em deixar os celulares antes de entrarem e pegá-los somente na saída, era um tumulto. Isso eu consegui”, diz ele sobre a lei estadual que permite o uso dos aparelhos pelos discentes, aprovada em 2017.

“Lutei também pelos livros digitais, mais interativos, em que você pode editar imagens, colocar recursos de áudio. Aí teria que investir numa banda larga de mais qualidade para as escolas. Acabaria com o transtorno da distribuição dos livros. Mas isso, infelizmente ainda não fui mudado”, conta Nalini.

Em um artigo escrito sobre o assunto, o professor explana a necessidade da mudança, cogitada bem antes da pandemia, porém não adotada no fim das contas. O reflexo disto é a corrida atual para reaver o tempo perdido.

“A promessa de aulas pela internet foi uma tentativa. Necessária, porém insuficiente. O governo não levou a sério a emergência de outras estratégias de preparo das novas gerações, a partir da Quarta Revolução Industrial. Negligenciou a implementação de banda larga em todas as escolas. Boicotou um livro digital praticamente pronto, a despeito de constatar que a dispendiosa logística de impressão anual e de entrega a milhões de alunos, esbarrava em dificuldades evidentes. Como a reação de um alunado adolescente, que jogava o kit assim que o recebia, chamando-o de ‘kit favela’.

O resultado é que praticamente 70% dos estudantes da rede pública em São Paulo não conseguiram receber o conteúdo previsto na legislação como o necessário para as etapas seriadas do ensino oficial.

Lição a se extrair disso: oportunidade para refletir que a escola precisa ser repensada. O professor valorizado. E incentivado a estar atualizado com as novas tecnologias. Há os que já fazem isso, a duras penas. Com sacrifício pessoal e dispêndio de recursos próprios.”

O ex-secretário de Educação percebe a mudança que virá ainda que o retorno às atividades seja autorizado pelas autoridades. “Muitos pais não vão mandar os filhos para a escola por medo. Os pais que já pensavam em educar os filhos em casa, esta discussão vai voltar.” Por conta disto, o modelo de educação que conhecemos hoje também pode ser alterado a partir desta experiência que vivemos hoje. “A criança é inteligente, mas há uma imbecilização da criança, a gente a faz decorar uma porção de coisas e isso sufoca a criatividade”, explica Nalini.

Por fim, das ponderações, Nalini acredita que as lições experimentadas podem ser proveitosas, mas deve haver revisão e reinvenção da escola. “Acho que esta história será positiva. A pandemia é uma desgraça, mas temos que nos acostumar com essa metodologia.”

Ainda assim, não há como prosseguir com as atividades sem que haja um balanço do período e ajustes. “Agora é assumir que o retorno às aulas nunca será igual. O desafio de recuperação do tempo ao menos parcialmente perdido. As estratégias de tornar assimilável em menor tempo um contingente maior de matéria. Tratar cada caso como deve ser tratado, quase que uma aula particular, pois as pessoas são diferentes, têm percepções distintas, aproveitamento singular e não podem ser tratados como grupo homogêneo”, declara Nalini.

A Secretaria Estadual da Educação afirmou, em nota, que o governo instalou uma plataforma gratuita de ensino para todos os alunos da rede, com acesso gratuito, além de aulas ao vivo na TV Cultura.

 

Na Fundação Cintra Gordinho, emoção e educação são aliados no novo modelo

A professora-mestre Aparecida Bosco é diretora da Fundação Antonio-Antonieta Cintra Gordinho, instituição de ensino privada sem fins lucrativos que atende crianças de baixa renda. Ela conta que nunca viveu algo parecido com o ensino remoto em 26 anos de experiência.

“Todo afastamento da escola deixa déficit, na questão da aprendizagem e também o contato emocional. Os alunos têm o desejo de estarem juntos, passamos oito horas por dia junto com as crianças. Então, a questão emocional também está sendo afetada”, diz Aparecida.

Segundo ela, há muita importância na estrutura adotada pela Fundação para um sistema de ensino remoto efetivo. “Nós não temos coordenadores, temos uma equipe com professores que fazem trabalho em sala de aula e também na administração em algumas frentes. Montamos uma equipe para ajudar professores e alunos que precisem.” Além disto, Cida conta que um contrato que a Fundação já tinha com o Google facilitou o processo de implantação dos encontros a distância, por conta da plataforma utilizada.

“Não é aula on-line, nós chamamos de encontro. A gente entende que são encontros, porque não há a obrigação, o formato de uma aula presencial. Pensamos em algo que seja prazeroso para as famílias também, para que todos participem”, diz ela, principalmente, sobre os alunos mais novos, que precisam de orientações de familiares e desta interação.
Já para os alunos mais velhos, do ensino médio, Cida explica um fator importante no ensino, a preparação para o Enem e vestibulares. “Criamos oficinas on-line para que os alunos possam entrar em contato com os professores e falamos sobre a saúde mental. A palavra ‘ansiedade’ está em voga e a psicóloga da Fundação tem nos ajudado a organizar isso com os estudantes.”

Cida explica que a diferença não se limita à falta de contato, mas ao ambiente também e diversos outros fatores. “Nós tínhamos a casa escola, organizada para o aprendizado, e agora entramos em diferentes casas, cada uma de um jeito, e não sabemos como este aluno pode estar estudando”, conta ela.

A diretora de formação da Fundação, Ana Teresa Gavião Mariotti, ressalta a relevância do serviço social da Fundação, para a adaptação dos alunos e para a supressão de possíveis carências nas casas, que possam atrapalhar o acompanhamento do conteúdo. “Temos um serviço social que mapeou a disponibilidade de internet e telefone para adaptar possibilidades para as famílias. Pensamos em propostas para a experiência das crianças, para acolher as famílias e o conceito da aprendizagem, para que as crianças aprendam com a experiência e não com a quantidade.”

Sobre o saldo destas mudanças, tão grandes e repentinas, a diretora de formação diz que espera algo de bom. “O que eu vejo é que é uma oportunidade para a escola se rever, é uma oportunidade para a escola mudar o vínculo com a família. Isso é importante para as crianças, principalmente as menores, que precisam desta confiança.”

Além disto, Ana Teresa salienta a troca proporcionada pelo momento. “É uma oportunidade de aprendermos com a nova geração. Até os próprios pais estão aprendendo com essa relação. De modo genérico, eu vejo a reconstrução do vínculo com a família. Todos estamos aprendendo e a escola deve dar valor ao grupo e à união de alunos, professores e direção”, conta a diretora de formação sobre a ajuda mútua que este período proporcionou.

 

Alfabetização terá prejuízo

Na cidade é oferecido ensino a crianças, das creches até o ensino fundamental I. Uma importante fase, a alfabetização, está inclusa neste período e a pausa deste processo pode gerar impactos no futuro, como explica a gestora de Educação, Vastí Ferrari Marques. “Pode e haverá déficit. Isso é inegável. Precisamos nos preparar com estratégias eficientes para diminuir os prejuízos dessa pandemia. As formações dos educadores e os documentos oficiais que preparamos para o retorno às aulas serão os grandes aliados da escola”, conta Vastí sobre o retorno à normalidade, em que pretendem angariar dos alunos as percepções sobre a experiência.

Ainda sobre a adaptação de todos, Vastí fala sobre o esforço da Unidade de Gestão de Educação (UGE) para que a educação remota supra necessidades. “Para todos, independentemente da faixa etária e segmento, temos buscado muitas alternativas para que as tarefas cheguem indistintamente sem deixar ninguém de fora dos processos de ensino e aprendizagem. Os educadores têm o apoio da UGE em formações para todos os servidores da rede e apoio técnico para utilização das tecnologias”, explica ela sobre a adoção de plataformas e conteúdo distribuído aos alunos de toda a rede municipal.

“Vamos dizer que poderemos ter reflexos negativos. No entanto, a aproximação entre escola e família, as novas relações a partir das tecnologias, as novas estratégias de trabalho serão certamente fatores preponderantes para dirimir prejuízos”, explica Vastí, ressaltando a nova vivência como fator importante para o retorno e o futuro da educação.


Leia mais sobre | |
Link original: https://www.jj.com.br/educacao/estado-de-sp-nao-se-preparou-para-a-tecnologia-em-sala-de-aula/
Desenvolvido por CIJUN