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Cuidados médicos vão além da doença

| 17/10/2014 | 23:18

A complexidade dos casos, os desafios da doença e do tratamento, o desejo de buscar novidades terapêuticas, oferecer qualidade de vida aos pacientes e lutar pela cura movem a rotina dos médicos, que comemoram seu dia hoje. E entre as muitas especialidades da Medicina, os oncologistas vivenciam diariamente as particularidades de uma doença cercada de questões sem respostas e fortes experiências de vida com seus pacientes e familiares.

Esse é o caso de Sonia Regina Iantas, de 51 anos, hematologista e oncologista clínica do Hospital Pitangueiras, do Grupo Sobam, que se graduou nos anos 80, época em que as possibilidades de diagnóstico e tratamento do câncer eram bastante limitadas. No entanto ela afirma que a complexidade dos casos e o desafio de vencer a doença sempre estiveram presentes em sua vida. “Isso continuou durante o período de residência, principalmente no Hospital das Clínicas onde o número de casos que envolviam as duas especialidades (hematologia e oncologia) passou a me interessar bastante. Devo ao professor Auro Del Giglio, um dos meus preceptores na residência pelo interesse pela oncologia”, explica.

O oncologista clínico Marcello Ferretti Fanelli, 44 anos, que trabalha em parceria com o Hospital Santa Elisa, conta que o interesse pela especialidade surgiu no quarto ano de faculdade quando teve contato com a clínica médica e recebeu apoio de um professor que havia estudado oncologia na Itália. “A atração ocorreu pelo desafio que representa o tratamento do câncer e pela complexidade da especialidade, integrando várias áreas do conhecimento médico e científico”.

Para a oncologista clínica Daniella Adolpho Reis de Moraes, que trabalha na Intermédica Jundiaí, no Hospital Paulo Sacramento, trata-se de uma área da Medicina que permite ao profissional exercer tanto a parte técnica como a humana para lidar com os desafios da doença e do trabalho. “Por ser uma especialidade muito dinâmica, ela exige que o médico se atualize permanentemente através dos estudos e participações em Congressos, o que me atrai. Por outro lado é preciso ter sensibilidade e uma relação próxima com o paciente e familiares. Sendo assim, o oncologista, muitas vezes, se torna um pouco psicólogo e amigo daqueles que mais necessitam de apoio durante o processo”, avalia.

Desafios – Na avaliação de Marcello, graças à melhora na capacidade de cura e de controle de casos, o estigma de morte relacionada ao câncer atualmente é menos acentuado. Para ele, a cura do câncer depende ainda de diagnóstico precoce. “Rastreamento é fundamental assim como estar atento a alterações na saúde. O tratamento de doença avançada também melhorou muito: sobrevidas longas são alcançadas em doenças que há pouco não conhecíamos nenhum tratamento. Realmente os avanços são formidáveis”, comemora.

Sônia completa que nos últimos anos ampliou-se a capacidade de diagnóstico precoce, inclusive por conta dos métodos mais apurados. Ela destaca ainda o avanço terapêutico que não para dia após dia. “Por isso, digo aos meus pacientes que a cura é possível e mesmo que não seja, também podemos transformar essa doença, que antes era mortal, em uma doença crônica, como é o diabetes, hipertensão ou doenças reumáticas”, observa.

Para Daniella, o oncologista tem que transmitir segurança para o paciente e adotar a postura de passar a informação sobre a doença e o tratamento, mas ao mesmo tempo ele deve oferecer acolhimento e carinho. “Isso porque nos tornamos uma referência para o paciente que passa a nos procurar até quando ocorre outra intercorrência médica. É preciso ter uma visão ampla para tratar o ser humano, não só a doença. E junto com o paciente tem a família que passa a enxergar o médico como um amigo, um psicólogo, ou seja, ele assume muitas funções”.

Estrutura emocional – A relação com os pacientes e suas famílias é baseada no completo esclarecimento sobre o que os médicos irão fazer e quais serão as metas e expectativas sobre o tratamento. Para lidar com a rotina e se desligar de momentos difíceis vividos com alguns pacientes, os especialistas procuram se apoiar em uma religião, na família, nos momentos de lazer e bem-estar, assim como a prática esportiva.

Sônia procura manter uma relação próxima com todos porque sabe o quanto é difícil esse momento. Para ela, o câncer não é uma questão apenas de uma doença específica, envolve todos os familiares. “Por isso todos têm a minha atenção. Sou budista desde 2002 e justamente a prática do budismo de Nitiren Daishonin diariamente é que me auxilia a ser uma pessoa que pode transmitir confiança e esperança às pessoas. È orando diariamente pela felicidade das pessoas que consigo seguir em frente e estar pronta para apoiar e ser apoiada pelos pacientes e familiares. Minha prática do budismo é diária e a recitação do daimoku do Sutra de Lótus (Nam-Myoho-Rengue-kyo) antes de ir trabalhar e ao retornar me dá paz, tranqüilidade e sabedoria”, comenta.

Para Marcello, a melhor forma de lidar com os desafios é estudar muito e compreender a doença em toda sua evolução e, principalmente, estar lado a lado com o paciente em tudo que ele precisar. “Sinto as perdas e as alegrias de meus pacientes e familiares intensamente, fico realmente envolvido e procuro dar o meu melhor, sempre. Entendo meu papel de médico e muitas vezes de amigo, seja na cura dos pacientes ou no apoio para lidar com situações onde a cura não é um objetivo real”, avalia. Após um dia de trabalho, o que conforma o especialista é chegar em casa e ficar com sua família, esposa e filhos.

Já para Daniella, o que lhe conforta é lidar com a certeza de que pode fazer a diferença na vida das pessoas. “Mesmo que não seja necessariamente curando, mas batalhar por uma qualidade de vida, no conforto físico e emocional em um momento tão difícil. O oncologista vive na expectativa da busca incessante pela cura e vai atrás dos avanços em tratamentos”, conta. Para seu fortalecimento espiritual, ela freqüenta a igreja católica e também procura se distrair da rotina de trabalho com a prática de atividade física e momentos de lazer com a família e amigos. “É preciso ter uma válvula de escape”.

Aprendizado – Apesar dos momentos difíceis, os especialistas relatam que há vivências que lhes marcaram positivamente, mostraram o valor da gratidão, o significado da vida e o aprendizado proporcionado. Marcello diz que são muitas histórias que envolvem pacientes desenganados, na flor da idade, na fase mais produtiva de suas vidas, acometidos pelo câncer e que conseguiram cura definitiva. “Há pacientes idosos que sabem exatamente o que têm e que lutam pela vida minuto a minuto, valorizando cada momento, cada etapa. Histórias, às vezes, não tão bem sucedidas, mas que guardo todos na minha alma e sempre levo meus pensamentos a essas pessoas e familiares”, relata.

Daniella agradece as oportunidades que vivenciou e vivencia na profissão e ressalta a gratidão de pacientes e familiares. “Infelizmente não é sempre uma gratidão pela cura, mas no sentido de que fui importante em um momento complicado para todos. Meu maior aprendizado na especialidade foi passar a pensar no hoje, a valorizar a vida, os momentos. Me tornei um ser humano melhor porque comecei a redimensionar muitas coisas”.

Sônia lembra um caso que lhe marcou em 2005 com um paciente com diagnóstico de leucemia mielóide promielocitica aguda. “Ele era ex-esposo de outra paciente minha que havia falecido por câncer de ovário. A situação de sua ex-mulher foi muito grave e dramática para as filhas. Quando uma delas soube que era eu que cuidaria do pai, me disse: ‘você novamente em nossas vidas? Não é possível‘”. Na hora a médica admite que foi difícil esse reencontro com a família, mas felizmente o pai das meninas recebeu o tratamento e conseguiu vencer a leucemia. “Atualmente ele vem me visitar anualmente, mas sem qualquer sinal de doença. Como recompensa pela sua cura, mantenho a amizade com suas filhas até hoje. No próximo ano fará 10 anos que fez o tratamento e nem necessitou de transplante de medula óssea. Foi muito gratificante”.


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