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Educar é um ato de coragem

| 08/10/2014 | 09:00

O título deste texto inspira-se numa frase de Paulo Freire, um dos maiores educadores brasileiros. Ele escreveu: “A educação é um ato de amor e, portanto, um ato de coragem.” À primeira vista, parece estranho dizer que um ato de amor é um ato de coragem. Por que seria preciso coragem para amar? E o que isso tem a ver com a educação?

Educar é um ato de amor, pois significa respeitar a criança em seus momentos de desânimo e raiva, é estar presente quando as coisas não vão bem, para ensiná-la a superar essas dificuldades e fazê-la crescer com o sofrimento. É não querer protegê-la demais, pois a dor tempera o caráter e nos amadurece, quando sabemos encará-la adequadamente.

Educar é amar com desprendimento, sem pensar em retribuição. Um pai ou uma mãe não cuida de seu filho pensando em ter “lucro” um dia. Ama de forma desprendida, pelo amor que tem pelo filho, pelo desejo de que ele seja feliz. Esse amor é um ato de coragem, pois exige tolerância, paciência, doação. Quem ama assim deve aprender a controlar suas emoções, deve pensar muito antes de tomar uma decisão, deve estar preparado também para a ingratidão.

Deve saber que nem sempre seus conselhos serão seguidos e sofrerá antecipadamente por isso. E terá de impor limites, terá de saber proibir, pois educar não quer dizer deixar a criança fazer tudo que deseja. Educar também significa preparar para o trabalho, mas sem fazer do sucesso profissional um fim em si mesmo que justifique sacrificar a vida pessoal, a paz de espírito, o prazer de viver, a moral e a ética.

O dinheiro não compra tudo. Aliás, não compra as coisas essenciais da vida, como amizade, companheirismo, afeto, amor. Ficar rico não pode ser um objetivo de vida. Uma pessoa bem-sucedida profissionalmente não vale mais que as outras. É preciso resistir a essa tendência moderna de querer ver o trabalho como valor supremo. O sucesso na profissão faz bem, é claro.

Deixa-nos realizados e satisfeitos. Mas que isso não elimine as outras dimensões da vida, aquelas que dão qualidade à nossa existência. Se desejamos um certificado de boa qualidade profissional, mais ainda devemos desejar um certificado de boa qualidade de vida, não só para nós mas também para aqueles com quem vivemos. Quem ama, educa com firmeza, mas sem medo do diálogo.

Sabe falar mas, sobretudo, sabe ouvir, é capaz de entender o que se esconde atrás das palavras ou dos silêncios. Não apela para a violência nem para o autoritarismo, mas faz valer sua experiência de adulto para orientar sem imposição nem caprichos. Mas principalmente quem ama sabe perdoar. Não o perdão que humilha, mas o que renova o ânimo de quem errou, o que ajuda a acender uma luz e a devolver um sorriso, o que alivia.

E esse exemplo de saber perdoar e desculpar será um exemplo para toda a vida, ensinando o filho a evitar a intolerância, a inflexibilidade, o rigor excessivo no julgamento dos outros. Um adulto — professor ou não — aprende muito sobre si mesmo enquanto educa uma criança.

Por isso, precisa ter coragem para rever suas ideias, para avaliar seu próprio comportamento, para saber pedir desculpas quando errar. Um adulto educa-se a si mesmo ao educar uma criança. Por isso, educar é um ato de amor e, portanto, um ato de coragem.

Douglas Tufano, professor e autor de livros didáticos e paradidáticos. Contato: dgtufano@terra.com.br.


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