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O poder do cabelo natural para a autoestima


CABELOS ENCARACOLADOSCABELO AFROKATIA TEOFILOCABELEIREIRA
Crédito: Reprodução/Internet
Há muito tempo o corte do cabelo representa muito mais do que uma simples questão estética. No século 17, por exemplo, os guerreiros da tribo Mohawks eram conhecidos por terem todo o cabelo raspado, com exceção de uma faixa no meio da cabeça, que ia da testa à nuca, criando o famoso corte moicano, que na época representava bravura na luta contra a opressão dos brancos. Também existem os longos cabelos trançados da era viking, que remetia aos povos daquela época um tipo de ligação com forças mágicas além de deixá-lo com sensação de virilidade. Ainda como forma de movimento, na década de 1970, o Black Power criou um estilo de cabelo que marcou época, com cabelo afro, rastafári ou cachos. Um dos pioneiros do movimento em Jundiaí foi Altair de Campos Felício, 61 anos. O cabeleireiro deu início à carreira alguns anos antes do auge das manifestações na década de 70, que logo chegou ao Brasil. “Eu comecei a cortar cabelo na época dos grandes movimentos blacks que existiram no Brasil, em 1970. Aqui em Jundiaí, eu sou um dos primeiros especializados em cabelos crespos. Naquela época, as pessoas tinham aquele cabelo black power grande. Se encostasse no cabelo era até motivo de briga”, brinca Altair. Com a mudança na tendência do mercado, o cabeleireiro revela que, aos poucos, foi se especializando para agradar seus clientes e atrair novos. Antigamente tinha um grande público masculino, mas, com o tempo, o seu público foi se tornando em maioria feminino. “Com o tempo, a moda foi mudando. Os homens começaram a cortar careca e eu parti para os cabelos femininos”, explica. Altair comenta ainda que cada vez mais as mulheres estão procurando assumir o seu cabelo, e tratá-lo da melhor forma para que fique natural. O cabeleireiro explica ainda que hoje, com acesso a tantos produtos de qualidade, é mais simples para cuidar e tratar até mesmo dentro de casa. Kátia Teófilo, proprietária de um dos principais salões de cabeleireiro da cidade, explica que a tendência é que as pessoas passem a ver mais cabelos crespos naturais pelas cidades, pois as pessoas estão aprendendo a aceitar como são e a se redescobrirem. “O que a sociedade fez com as pessoas negras, de querer que nós fôssemos diferentes do que deveríamos ser, para sermos aceitos, foi muito cruel. Foi uma época dolorida, eu como uma criança negra, quis mudar o meu cabelo, para pelo menos meu cabelo não ser motivo de chacota na escola. Eu alisei o meu cabelo por 18 anos. Naquela época, quando eu tinha 12 anos, se você me perguntasse porque eu estava fazendo isso, eu não ia falar que era para me esconder, mas hoje eu consigo identificar isso”, explica. De acordo com Kátia, a sociedade acabava impondo uma situação que fazia com que as crianças de cabelo encaracolado se sentissem mal por serem daquele jeito. “Hoje é tudo muito diferente. Tem toda a questão do empoderamento feminino, aquela coisa do ‘sou assim e gosto de mim do jeito que eu sou’. A mudança na aparência é externa, mas a principal mudança é interna. A questão do cabelo está muito atrelada a autoestima. Eu mesma passei por essa transformação. Eu decidi deixar meu cabelo natural por causa da minha filha. Eu tinha alisamento, mas decidi cortar o meu cabelo todo e deixar crescer novamente, pois eu queria ser referência para a minha filha. Foi muito difícil na época, mas foi o que mudou a minha vida. Deixar o meu cabelo natural e aceitar quem eu sou, como eu sou, me ajudou muito em relação à postura na vida e em relação à minha filha. Hoje, ela já entende que o cabelo dela é lindo. Ela mesma cuida, inclusive, nunca me pediu para alisar, coisa que na minha época eu já teria feito. Sinto que ela é superempoderada e se aceita como é.”.

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