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O trabalho incansável de quem semeia amor

| 06/09/2014 | 18:54

“As pessoas não conseguem arrumar tempo para ajudar a quem precisa, até que adoecem e este tempo aparece, mas da pior forma possível”. Não foi o que aconteceu com Felipe Teixeira de Barros Nonato, fundador da AMA – Associação do Voluntário Amigo -, já que tempo ele encontra para administrar uma rede de 120 voluntários que, dedicados, não promovem o assistencialismo, mas maneiras de ajudar cada um – pessoa ou entidade – a descobrir como é possível encontrar caminhos para sair de uma crise, se valorizar, crer que é possível mudar.

A disposição para distribuir conhecimento e amor, sem medidas, este administrador de empresas de 39 anos encontrou a duras penas. Espiritualizado, Felipe descobriu seu caminho vendo a mãe se livrar das garras do DOPS (Delegacia de Ordem Social e Política, que reprimia que era contrário ao regime militar, nos anos 1970) e, tempos depois, lutar contra o câncer. O estágio para voluntariado ele foi buscar no Hospital do Câncer, em São Paulo, onde se ofereceu para trabalhar na equipe de luto. “Eu entrava em cena quando a criança estava em fase terminal”, conta ele, que recebeu a gratidão de muitas mães por seu trabalho. “A maior transformação ocorre no voluntário que se transforma”.

A AMA, que tem foco em instituições dedicadas à proteção da criança e do adolescente, ajuda as entidades a “pescarem o peixe”. mas não é somente um trabalho de consultoria. Os voluntários convivem, conhecem a realidade, veem formas de transformá-la e colocam a mão na massa para acontecer. E isso Felipe, que também é chef de cozinha, gosta de fazer.

Jornal de Jundiaí – Muitas entidades em Jundiaí desenvolvem trabalho social. Qual o diferencial da AMA?
Felipe Nonato – A AMA presta ajuda apenas a entidades dedicadas à proteção de crianças e adolescentes. Pesquisei e fui buscar este modelo fora do País, onde agentes multiplicadores e grupo de voluntários ficam à disposição de entidades que atendem meninos e meninas em situação de risco, abandono ou necessidade. Os voluntários vão até as instituições cadastradas e por meio de um trabalho em conjunto com dirigentes e funcionários identificam os pontos fracos a serem melhorados e potencialidades a serem aproveitadas. Diante deste levantamento, fornecemos ferramentas e suporte para a multiplicação do amor com um plano de metas, organização, captação de novos voluntários e gestão de recursos.

Não é ajuda financeira?
A nossa entrada nas entidades é para ajudar, não necessariamente com dinheiro. Hoje, temos uma equipe, de cerca de 120 voluntários, que promove atividades para ocupar as crianças; além de psicólogos, médicos, dentistas. Enfim, entramos nas entidades para dar um fôlego.

Como escolhem as entidades?
Temos uma equipe que faz visitas que detecta o que aquela entidade necessita. Na maioria das vezes é dinheiro para construir ou melhorar alguma coisa. Mas nós queremos mais: queremos uma abertura para ajudar. Além disso, tem que ser uma entidade que esteja regularizada. Somente a partir daí, é feita a escolha.

Há um prazo para este trabalho ser concluído?
Ao ser definida a entidade, chegamos com um corpo composto por 30 ou 40 voluntários e desenvolvemos um projeto com começo, meio e fim. Caso contrário vira assistencialismo e não é esse o objetivo. A nossa proposta é dar fôlego para que a entidade cuide daquilo que não está conseguindo. No caso da PAIM (Pastoral de Integração do Menor), por exemplo, assumimos a cozinha. São 70 refeições diárias, incluindo o pagamento de funcionários e a arrecadação de alimentos. Enquanto realizamos este trabalho, a entidade organizou o outro lado, até que conseguimos devolver à administração da entidade a cozinha.

O jundiaiense é mesmo uma população caridosa?
É. Tanto que 90% das doações chegam do jundiaiense. O restante vem de empresas que são parceiras, como a AOC e a Mahle. Vale ressaltar que Jundiaí só não vive um caos, pelo menos na área da criança e adolescente, por conta da população. Você não vê crianças nas ruas, mas não por resultado de algum trabalho desenvolvido pelo governo, mas por causa da população. Então, as instituições que existem na cidade não recebem uma ajuda do governo, mas uma contribuição que não vai além do pagamento de um funcionário ou do fornecimento da merenda, por exemplo. O governo finge que ajuda. Se não fosse a sociedade civil, Jundiaí seria um caos absoluto. Eu me sinto orgulhoso em dizer que a população de Jundiaí é diferenciada. Isso não significa que é fácil, principalmente quando envolve dinheiro. Este ano, por exemplo, ninguém tem dinheiro.

Qual o próximo desafio da AMA?
Depois que atendemos a Creche Wilson (Anhangabaú,), pensamos em assumir um bairro. Este é hoje o nosso maior desafio. Este trabalho já começamos a fazer. Com o apoio da Fumas (Fundação Municipal de Ação Social), chegamos ao centro comunitário e desenvolvemos atividades direcionadas às crianças e suas famílias, como cursos de cabeleireiro, manicure, corte e costura, artesanato, capoeira e uma biblioteca com informática. A proposta é transformar, no futuro, este centro comunitário em uma fonte de geração de renda para a comunidade. Isso já existe em São Paulo, em Heliópolis.

Se tornar voluntário não é tão fácil quanto parece. Qual o desafio?
Como faz muitos anos que eu trabalho com voluntariado eu já vi de tudo. Geralmente ocorre que as pessoas se empolgam, mas não conseguem arrumar tempo para assumir o compromisso. Aqui, nós temos muitos voluntários que não ficam na sede, mas trabalham à distância. Costumo dizer que cada um tem que dar o que pode, tendo a consciência de que, em algum momento, terá que abrir mão de alguma coisa em sua vida pessoal para exercer o voluntariado. Muitas pessoas não estão preparadas para isso. Quando abrimos seleção, aparecem 80 candidatos. Ao fim restam dois.

Tem havido uma queda no número de voluntários?
Sim. Hoje em dia as pessoas estão se deparando com questões pessoais. Muitas estão vivenciando problemas como depressão, conflitos pessoais. Este ano mesmo tivemos muitos voluntários que trabalharam anos e precisaram se afastar. São pessoas com tantos problemas pessoais que não conseguem administrar nada. Daí esta queda. Nós, felizmente, temos uma equipe sempre pronta a ajudar. Acho que falta, por parte do governo, incentivo.

A AMA trabalha com crianças e adolescentes. Quais os principais problemas detectados?
Narcotráfico e prostituição. Hoje, vivemos uma guerra e ninguém se dá conta disso. Cada criança que acolhemos será um traficante a menos, uma prostituta a menos, um assassino a menos que pode matar o seu filho. Por isso prefiro trabalhar com criança, que é um público capaz de se recuperar. Pesquisas comprovam que entre adultos, a recuperação é de 2%. Mesmo uma criança depois que entrou no tráfico, só 15% conseguem se recuperar. Antes, as organizações criminosas buscavam crianças com mais de 15 anos. Se o governo decidiu baixar a maioridade penal, as organizações criminosas passarão a buscar crianças com 13 anos. A solução para este problema social é acolher estas crianças e analisar a situação. Recentemente acolhemos uma menina prostituta aos 12 anos. Então, não adianta fechar os olhos, mas encarar a situação de frente, aprender a lidar com uma criança que aos 10 anos é mula (usada por traficantes para transportar droga). Hoje, das crianças que chegaram ao AMA em situações de risco, conseguimos recuperar 40%. Como? Mostrando um outro caminho que não o da criminalidade.

Nas entidades, quais as dificuldades?
Elas passam por muitas. A maioria está nas zonas carentes, o que dificulta a nossa entrada. De qualquer forma, são carentes de tudo: dinheiro, material didático, atividade com as crianças. Neste sentido, conseguimos atender no que é possível. Claro que eu não posso fazer o atendimento direto, colocando em risco um voluntário. O que falta? O nosso governo olhar para estas instituições, auxiliando no que for possível e não fechar os olhos. Jundiaí tem uma vantagem e uma desvantagem: as comunidades carentes estão escondidas, mas fingir que elas não existem não resolve o problema social.

Até que ponto a sua formação religiosa, como espírita, contribuiu para abraçar o voluntariado?
Não importa a religião. Eu acredito que somos mente, corpo e espírito. Nós precisamos a cuidar dos três. Cada um se encontra em uma religião e todas estão corretas, mas eu acredito na união. Não basta apenas rezar, é preciso fazer algo para mudar sua realidade. Estas crianças fazem parte da minha realidade. Elas podem estar assediando seu filho, cercando para roubar seu carro. Para mim o Espiritismo dá estrutura para encarar a situação de uma criança de seis anos fumando maconha.

Você também recebeu influência da sua família?
Eu sempre tive esta consciência. O exemplo da minha mãe foi muito forte. Eu vi minha mãe lutar muito. Ela foi fichada pelo DOPS por participar de manifestações. Então, buscar o melhor para a sociedade foi a herança que recebi da minha mãe. Para a minha filha quero deixar não dinheiro, mas estes valores: ajudar. Se eu e você agirmos assim estaremos mudando a nossa realidade.


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