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Pesquisa e humanização na saúde

| 17/10/2014 | 23:26

“Aprender a se colocar no lugar do paciente. É só sentindo na pele que podemos ajudar”. Esse foi o maior aprendizado que a oncologista clínica Celia Tosello de Oliveira, de 65 anos, professora do Departamento de Clínica Médica, da disciplina de Oncologia da Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), teve com sua especialidade.

Ela se interessou pela área quando era monitora da anatomia patológica e presenciava os tumores de pacientes operados. “Tinha contato com a peça retirada na cirurgia para estudarmos e definirmos o diagnóstico, mas sentia falta do contato com o paciente”, explica. A partir daí, investiu nos estudos e começou a trabalhar no Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), em São Paulo, onde atuou por 35 anos. “Montei um serviço de pesquisa clínica para buscar novas drogas, protocolos de tratamentos, desafios dentro das áreas de oncologia e de ensino, como aluna e professora. A oncologia está em constante renovação então é preciso se atualizar constantemente”, avalia ela, que fez mestrado e doutorado na especialidade.

Lidar com uma doença de difícil tratamento e que abrange muitas áreas do corpo humano eram situações que fascinavam. “A abrangência de especialidades me atraiu, assim como a necessidade do empenho nos estudos e a busca de novos conhecimentos e atualização constante”, afirma Celia.

Ela procura desmistificar os pontos negativos da patologia que geralmente está ligada a missão de dar más notícias aos pacientes e familiares, no fato de encarar a morte, e justifica que a oncologia pode ser considerada uma área difícil se pensarmos em uma doença de complexo tratamento com poucos casos de cura. “Mas se eu pensar nos desafios, na busca pela compreensão da doença, é uma área promissora”, analisa.

Perfil do profissional – Ter sensibilidade, tato e aprender a se colocar no lugar dos outros são características que ela elenca como essenciais aos oncologistas, principalmente na hora de anunciar o diagnóstico ao paciente e aos familiares. “Não é um momento fácil nem para o médico e muito menos para o paciente que, em alguns casos, ainda têm a esperança de que não seja nada tão grave. E nessa hora tão crucial é preciso saber falar porque dependendo da forma, ele poderá ou não fazer o tratamento, se desesperar, ou não, com a nova realidade, entender e principalmente aceitar a doença para se preparar para a cirurgia, o tratamento e todas as complicações que poderão surgir”.

Outra característica essencial é o equilíbrio emocional para saber lidar com as pessoas e com as situações, assim como atuar de forma mais humana e não pensar somente na doença. Uma das preocupações da especialista é que infelizmente no Brasil o diagnóstico da doença é tardio, ou seja, muitos casos são detectados em estágio avançado onde a possibilidade de cura é remota. “Isso entristece o oncologista e eu bato muito nessa questão nas minhas aulas, na formação dos meus alunos, de que a busca do diagnóstico precoce é crucial, que é preciso tentar fazer o diagnóstico antes que a doença seja incurável. Eu insisto nisso”, ressalta.

Além do consultório – Como o interesse pela especialidade vai além do atendimento aos pacientes no consultório, a oncologista admite que é gratificante e fascinante se envolver na área da pesquisa e atualizações constantes. “Não desisto de colocar uma sementinha mesmo que ela demore. Eu lido com uma doença de difícil tratamento que poderia me levar a um quadro depressivo. No entanto acredito que seja importante buscar uma maneira de encarar a doença como uma vitória que seria na área de pesquisa”, avalia.

Trata-se de uma questão de postura da profissional que prefere pensar dessa forma, do que encarar os doentes de maneira negativa. ” A busca de um novo tratamento ou de uma nova estratégia terapêutica que leve a uma sobrevida maior de um paciente e com qualidade de vida. Isso é o que me motiva”.

Em agosto deste ano, a oncologista fez um trabalho sobre o câncer de pele operados no Hospital Universitário da Faculdade de Medicina de Jundiaí, no período de novembro de 2012 até novembro de 2013. Ela explica que o objetivo do levantamento foi ressaltar o alto índice da doença na população da cidade. “Isso se deve principalmente pela presença de imigrantes italianos que tem a pele mais clara e também a presença de trabalhadores rurais que ficam mais expostos ao sol”, detalha.

A partir desse estudo, ela explica que a ideia é ressaltar a importância do diagnóstico precoce e a necessidade de campanhas e políticas públicas voltadas à prevenção. “A manutenção de um banco de dados torna-se de fundamental importância para estimular campanhas de saúde pública para busca ativa de novos casos. A prevenção e o controle do câncer precisam adquirir o mesmo foco e a mesma atenção que a área assistencial, visando redução no número de casos através da conscientização da população”.

Lições – Das experiências com tantos pacientes, ela admite que são muitos aprendizados valiosos e relembra um momento marcante de uma freira que estava internada em estágio terminal após alguns anos de tratamento. “Eu queria dizer de alguma forma que não tinha mais o que fazer por ela. Foi então que ela me surpreendeu e disse: “Doutora Célia eu sei que estou morrendo. Não fique preocupada, a senhora já fez de tudo por mim‘. Ela consolou o médico que se lamentava de não poder ajudá-la mais”, relembra emocionada .

Em outro caso terminal de uma paciente muito simples que era atendia pelo Sistema Único de Saúde, ela também precisou de forças para falar que não era possível fazer mais nada. “Queria dizer de um jeito sutil que achava que ela deveria morrer perto da família porque há momentos em que é mais importante o aconchego familiar do que o médico ou um hospital”, explica.

Com sua sensibilidade, a médica conseguiu esclarecer que trata-se de uma doença grave e que não tinha muito o que fazer por ela. “Falei o que achava, ela me agradeceu e falou que iria comprar uma passagem para ficar perto de sua família que mora no Norte do país. Fiquei feliz porque ela compreendeu o momento e não ficou triste comigo de dizer que eu não iria mais tratar dela”.
Diante desses e tantos relatos, Célia diz que aprendeu que é preciso oferecer uma boa qualidade de vida aos pacientes até os últimos momentos. “Sabemos que um dia vamos morrer. Somos só uma passagem e tenho que acreditar nisso e oferecer ao meu paciente a melhor passagem possível. É difícil porque não fomos educados para a morte, apenas para a vida, mas eu tenho que passar o que tem de bom e não de ruim”.

E será que depois de tantos casos é possível se desligar da rotina em um ambiente hospitalar e do consultório ao chegar em casa? A oncologista garante que sim. “Totalmente. Essa é uma característica minha”. Ela exemplifica que quando está com a paciente é 100% a doutora Célia. “Quando ele saiu pela porta e eu preciso atender uma ligação do meu filho eu sou a Célia. Se o paciente voltar depois de 10 minutos e perguntas sobre o exame que pedi eu pergunto: Que exame? Eu não sei o que pedi?”.

E ela garante que só dessa forma é possível lidar com a profissão. “É uma defesa minha que é boa porque senão fico com uma carga muito grande e não vou conseguir lidar com isso, com o próximo paciente que entrar no meu consultório. É preciso separar senão teria de fazer terapia”, brinca.

Apesar de todos os desafios e dissabores vivenciados, ela afirma que é realizada como médica e oncologista. “Escolheria a mesma profissão e especialidade”. Questionada sobre o maior aprendizado com a oncologia, ela reforça que cada dia que passa tem a certeza que o profissional precisa se colocar no lugar do paciente. “O médico tem que vivenciar como o paciente para poder ajudar. É só sentindo na pele que a gente pode ajudar “.


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