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Portador de deficiência e com qualificação: não há vagas disponíveis

| 31/08/2014 | 00:02

Pessoas com deficiência buscam qualificação, mas o mercado de trabalho ainda não oferece oportunidades para esses profissionais. De acordo com Reginaldo Fernandes, da Coordenadoria da Pessoa com Deficiência de Jundiaí, ainda falta que a maioria das empresas olhe para as habilidades desses indivíduos aproveitando sua qualificação. “Poucas empresas dão esse espaço. A maioria apenas cumpre a Lei de Cotas contratando pessoas com deficiência para cargos baixos.”
Para ele, é preciso mudar a mentalidade do setor industrial e empresarial. “Hoje, todos buscam profissionais que se adaptem ao espaço físico que já existe, quando deveriam pensar em formas de adaptar estes espaços aos profissionais.”
A deficiente auditiva Ariane Cantuária da Silva, 25 anos, sente na pele essa dificuldade. Primeira engenheira química deficiente do Brasil, ela já enviou mais de 300 currículos desde o fim do ano passado, quando se formou. Até agora foi chamada para uma entrevista, mas a vaga ficou indisponível. “Me sinto desvalorizada, discriminada e rejeitada pelas empresas”, desabafa.
Antes de se formar, ela costumava receber propostas de emprego, mas logo que ingressou na faculdade já sentiu a diferença. “Nós tivemos que fazer uma denúncia no Tribunal do Trabalho para que ela conseguisse uma vaga de estágio, mesmo assim a empresa só ofereceu os quatro meses exigidos por lei e nada mais”, conta o pai, Acilvio Oliveira da Silva.
Juntos, eles dispararam o currículo para todas as agências de Jundiaí, depois passaram a enviar direto para as empresas, segmento por segmento. Mesmo assim, não obtiveram êxito até agora. “Só há vagas para os setores de produção”, acrescenta Acilvio. “Na minha opinião, falta vontade das empresas por criar oportunidades de inclusão efetiva. Elas não querem ter que se adaptar.”
O pai já cogita fazer uma denúncia na Organização das Nações Unidas (ONU). “Que inclusão é essa? Incentivam o estudo, a qualificação, mas não auxiliam a entrada no mercado de trabalho”, alega.
Segundo a Lei de Cotas, todas as empresas com mais de 100 funcionários precisam oferecer vagas para Pessoa com Deficiência (PCD). No entanto, não é estipulada a diversidade de qualificação.
O Censo 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que 45.6 milhões de habitantes declararam ter pelo menos uma deficiência.
Em 2011, um total de 325,3 mil pessoas com deficiência tinham vínculo empregatício, de acordo com a última Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho. O número seria 700 mil se a lei fosse integralmente cumprida, de acordo com o presidente do Conade.

Iniciativa
Oposto à situação enfrentada por Ariane, o também deficiente auditivo Adriano Massoli, 35 anos, trabalha há nove anos como webmaster da Unianchieta. Para ele, foi exatamente a qualificação profissional que o fez conseguir uma colocação no mercado. “Tive que me esforçar muito e estudar. Fiz pós-graduação, me especializei”, conta.
Além da abertura da empresa, os próprios colegas de trabalho também se esforçaram para ajudar na inclusão do profissional. O analista de programas André José da Silva chegou a aprender a Libras para poder se comunicar melhor com Adriano. “A princípio foi para falar com ele, hoje vejo que isso mudou minha vida. É especial poder ajudar alguém no mercado, na rua, em qualquer lugar.”
De acordo com Aline Bertalia, do setor de inclusão social do centro universitário, a inclusão social que não existe apenas para cumprir cotas é uma iniciativa de cada empresa. “Assim como nós, outras empresas da Região também oferecem essas oportunidades, embora ainda seja tímido. No geral, faltam, sim, oportunidades.”
Por outro lado, ela ressalta que a busca por qualificação tem sido cada vez maior, o que se reflete no vestibular da instituição. “De quatro anos para cá aumentou muito. Hoje temos cinco estudantes com deficiência, contratamos tradutores de libras para incluí-los, além das instalações e a própria consciência dos professores em falar mais devagar e tentar oferecer uma educação para todos.”


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