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FURIA vira modelo de gestão nos eSports e põe Brasil à mesa com gigantes


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FURIA vira modelo de gestão nos eSports
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#DiadeFuria é a hashtag disparada por fãs da equipe brasileira de esportes eletrônicos (eSports) quando ela está envolvida em grandes competições.

No último dia 5, a mensagem ocupou a primeira posição entre os assuntos mais comentados do Twitter por pelo menos seis horas. Na ocasião, o time de CS:GO da FURIA (em caixa alta, como preferem seus criadores) foi derrotado nas quartas de final da PGL Major Stockholm 2021 pelos russos da Gambit.

Apesar do revés no jogo de tiro, a campanha que levou os brasileiros aos playoffs de um dos principais torneios do mundo foi celebrada pela equipe e seus torcedores. A partida teve pico de 342 mil espectadores simultâneos no canal do streamer Gaules na Twitch -no total das transmissões, o número de espectadores passou de 1,2 milhão.

"Se tem uma coisa que me deixa feliz é ver brasileiro realizando seus sonhos. E quando você conhece a pessoa, a felicidade triplica. #DiadeFuria", escreveu Neymar.

A amizade do principal jogador de futebol do Brasil e a torcida de outros atletas e celebridades digitais indicam a repercussão alcançada pela vencedora da categoria de melhor organização no prêmio eSports Brasil 2020.

Apesar de não parecer, o ponto inicial dessa trajetória é recente. Em agosto de 2017, o empresário Jaime Pádua, apaixonado por CS:GO, tirou do papel o sonho de viver de eSports e se associou a André Akkari, jogador profissional de pôquer, e Cris Guedes.

A primeira sede foi montada em Uberlândia (MG), onde Pádua vivia. "Naquela época eu fazia de tudo, montava a mesa e o sofá, comprava comida para a casa, fazia pagamento, era social media, tirava foto, gravava conteúdo...", relembra.

Além dos sócios, a empresa consistia apenas em um time de CS:GO, mas que logo começou a se destacar em competições nacionais e no ano seguinte foi explorar o mercado dos EUA.

Sob o comando do treinador Nicholas Guerri Nogueira e com o reforço de Kaike Cerato, as vitórias se acumularam de forma surpreendente. Da terceira divisão à elite norte-americana, o caminho foi rápido, e os antigos prêmios de até R$ 5 mil que a equipe ganhava nos torneios do Brasil passaram a se multiplicar em dólares.

Parte da operação comercial e esportiva da FURIA migrou para Boca Raton, na Flórida, e aos poucos chegaram grandes patrocinadores, muitos deles sem tradição nos esportes eletrônicos. Companhias como Nike, Red Bull, Santander e PokerStars já estiveram ou ainda estão entre os contratos.

No último mês, foi dado o maior salto do ponto de vista dos negócios: a aprovação no processo seletivo que garantiu entrada na ESL, principal liga de CS:GO do mundo. Além de vaga cativa nas maiores competições da modalidade, o movimento torna a empresa brasileira sócia do grupo, com participação na divisão das receitas e nas tomadas de decisões.

Mais de 40 organizações participaram da concorrência, chamada de Louvre Agreement e comparada no meio ao Pacto de Concórdia, acordo que regula as relações entre os principais agentes da F1. O processo durou meses entre apresentações, auditorias e reuniões e selecionou outras duas postulantes ao grupo. O valor pago pelas três como taxa de entrada soma US$ 20 milhões (R$ 110 milhões).

"Isso coloca a FURIA numa situação de igual pra igual com as maiores organizações de eSports do mundo. Foi um casamento. A liga precisava ter um pé brasileiro e alguém que tenha relevância para eles, e a gente passa a estar associado a um grupo de elite", afirma Pádua.

"Parte da nossa proposta sempre foi trazer um ar de mais profissionalismo a um cenário que em 2017 ainda era meio amador no Brasil. Acredito que hoje somos espelho para outras organizações", completa.

Atualmente, a empresa conta com 190 funcionários, dos quais cerca de 50 são jogadores profissionais e 70 streamers, dedicados às lives em canais de vídeos como Twitch e Youtube. Além dos times de CS:GO, a FURIA possui equipes que disputam campeonatos dos jogos League of Legends, Rainbow Six Siege, Free Fire, Rocket League e Valorant.

Tem ainda contratos assinados com profissionais de outras áreas que de alguma forma estão ligados ao cenário de games e streaming, como os pilotos Pietro e Enzo Fittipaldi, o enxadrista Krikor Mekhitarian, a lutadora do UFC Livinha Souza e o cantor de pagode Duzão.

"A FURIA é uma organização de eSports, busca performance nos jogos e lucratividade, mas o objetivo final é que ela se torne um movimento sociocultural", diz Eduardo Lacortt, diretor-geral para o Brasil.

"Foi rápido perceber que, conforme a gente estabelece um time que vence competições e torna um jogador ídolo ou impulsiona streamers, também ganha um canal muito potente, com mensagens passadas para pessoas muito jovens", completa.

Em São Paulo, o escritório da equipe ocupa um andar inteiro de um prédio próximo à avenida Berrini com salas de treinos separadas por modalidades, estúdio de gravação e um consultório. Profissionais de fisioterapia, nutrição e psicologia se revezam nos atendimentos.

Assim como clubes tradicionais passaram a criar suas divisões de esportes eletrônicos, a FURIA buscou no futebol uma estratégia para se relacionar de forma intensa com seus torcedores e para que eles vestissem sua camisa literalmente.

Além da venda dos uniformes oficiais de jogo, a empresa apostou na criação de uma linha própria de roupas casuais e de um marketplace para comercializar os produtos da casa.

"Trabalhamos com paixão. Nosso fã é apaixonado tanto online quanto offline. A Nike trouxe para nós o conceito de camisa de jogo oficial, que foi super bem aceito e validou darmos um passo além. Essa parte de lifestyle também faz parte do lado cultural que a FURIA quer atingir", explica Rafael Gimenes Pereira, 34, diretor de produtos.

Posicionamentos contra racismo e sexismo Num universo em que muitas vezes as identidades reais estão escondidas atrás de máquinas, avatares e nomes de usuário, discussões sobre problemas como racismo, sexismo, bullying e discursos de ódio dentro dos games ganharam tração nos últimos anos.

Pessoas ligadas à FURIA foram atingidas por ataques preconceituosos que repercutiram no meio. Em setembro de 2020, o streamer Mose recebeu uma sequência de mensagens racistas em seu canal. Em março deste ano, as integrantes do recém-criado time feminino de Free Fire Emulador foram vítimas de machismo.

No primeiro caso, a equipe publicou um vídeo em suas redes sociais gravado por Mose e buscou marcar posição ao declarar apoio ao movimento Black Lives Matter.

O ataque direcionado às atletas gerou uma campanha interna de suporte a elas. Antes disso, o anúncio do time já havia sido acompanhado de um vídeo em que as jogadoras aparecem ouvindo frases de desincentivo por serem mulheres e depois escrevem juntas mensagens de força em seus corpos.

Lacortt invoca até a forma de escrever o nome da equipe para corroborar os posicionamentos. "A gente quer comprar briga mesmo. Briga para ganhar título, para crescer o mercado de eSports, para incluir mulheres no cenário, contra os racistas... A gente não quer ficar passivo. FURIA em caps lock vira um carimbo de quem está disposto a tretar pelas coisas que acredita."

A empresa acabou de contratar um diretor de inclusão e diversidade, cujo nome ainda será anunciado.

Apesar de a princípio não existir divisão por gênero nas competições de esportes eletrônicos, as principais equipes são majoritariamente compostas por homens. Ainda é baixo o número de mulheres que se destacam nas ligas mistas, e por isso foram criados campeonatos exclusivamente femininos.

Uma realidade que muda aos poucos. Os nove managers responsáveis pelos times da FURIA em diferentes modalidades são coordenados por uma mulher, Julia Zaz. Na entrada do escritório estão em destaque os troféus conquistados pela sua equipe feminina de CS:GO, que também disputa os torneios mistos.

Uma das integrantes é Karina Takahashi, 26, que fez faculdade de produção de música e nos últimos três anos conseguiu transformar a paixão pelos eSports em carreira.

"As organizações investirem em nós ajuda bastante a normalizar uma coisa que já era para ter sido normalizada. Mulher joga, ponto. E tem gente que não entende isso, ainda acha que mulher não pode jogar", lamenta Takahashi.

A atleta acredita que sofre menos com ataques por já ser conhecida no meio, mas vê um ambiente ainda tóxico especialmente para aquelas que estão começando. "Nosso trabalho é mostrar para o mundo que existem mulheres que jogam e conseguem fazer as mesmas coisas que os homens. Já sofremos com isso e estamos lutando muito para que não aconteça mais."


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