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ONG denuncia grupo de hotel favorito da CBF para hospedar seleção na Copa


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ONG denuncia grupo de hotel favorito da CBF para hospedar seleção na Copa
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O grupo hoteleiro do qual faz parte o hotel favorito da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para hospedar a seleção brasileira durante a Copa do Mundo do Qatar, que será realizada de 21 de novembro de 2022 a 18 de dezembro, possui contrato com uma empresa de segurança acusada de violar direitos humanos e trabalhistas.

Trata-se da GSS Certis, uma companhia que presta serviço a diversas grandes empresas no país do Oriente Médio.

A denúncia é feita pela ONG britânica Business & Human Rights Resource Centre e pelo ativista queniano Malcolm Bidali, que trabalhou para a GSS Certis.

Com uma estrutura luxuosa na região central de Doha, o Westin Hotel é um dos reservados pela Fifa para a Copa do Mundo. Foi o melhor avaliado pela CBF após diversas visitas ao Qatar nos últimos anos.

"A razão pela qual isso chamou nossa atenção é que o Westin Hotel foi especificamente citado em uma denuncia como uma das empresas que contrataram a GSS Certis para trabalhar na parte de segurança", diz à reportagem Isobel Archer, da ONG.

A organização chegou a entrar em contato com a CBF para avisá-la sobre as denúncias e convidá-la para conversar a respeito do tema.

"A CBF fez a escolha do local de hospedagem e treinamento para a Copa do Mundo do Qatar 2022 dentre as opções aprovadas e recomendadas pela organização do evento", respondeu a entidade, em nota à reportagem.

Procurada, a GSS Certis não retornou os contatos da reportagem.

O grupo Marriott, responsável pelo hotel, afirmou que, atualmente, não tem contrato com a companhia de segurança.

"A Marriott International é comprometida em manter um local de trabalho seguro, respeitoso e justo para todos", disse, em nota.

À ONG, a Marriot afirmou ainda que outra propriedade sua, o W Doha, tem contrato com a GSS Certis, mas que a rede hoteleira garante a qualidade de vida desses funcionários.

Para Archer, o fato de o contrato não existir atualmente não diminui a responsabilidade da CBF, já que as violações de direitos humanos e trabalhistas no Qatar são "endêmicas".

"Deveria ter sido uma bandeira vermelha para o Brasil. Nós gostaríamos que eles ao menos tivessem reconhecido o problema, são denúncias documentadas contra uma propriedade específica. E ao menos garantir que os trabalhadores - que são quem vão cuidar da seleção no hotel, fazer suas camas, servir sua comida, fazer sua segurança -, estão sendo bem tratados", diz.

"É preciso ir além do fato de que simplesmente o contrato se encerrou e começar a questionar como está a situação agora, o que a empresa faz para garantir a segurança e conforto dos seus funcionários, porque pode estar acontecendo a mesma coisa com outros trabalhadores", completa.

Segundo a denúncia contra a GSS Certis, publicada em maio de 2020, a empresa mantinha 2.000 funcionários em condições precárias.

Eles viviam em conjuntos habitacionais, na chamada área industrial, periferia de Doha. Oito pessoas dividiam um ambiente de cerca de 4 metros quadrados. Havia oito chuveiros para um grupo de 72 pessoas.

Quando a pandemia chegou, os funcionários foram realocados para uma vila. Por pouco tempo: em junho de 2020 foram levados de volta para o conjunto, sob as mesmas condições de antes.

Isobel Archer entende que a maioria das denúncias contra as condições de vida dos trabalhadores migrantes no Qatar foca no ramo das construções e o setor de hotéis ainda não tem tantos holofotes, apesar de sofrer com os mesmos problemas.

Ela conta que tem procurado diversas federações nacionais para conversar sobre o tema, mas que não tem tido muitas respostas.

O último relatório da Human Rights Resource Center sobre o setor hoteleiro, publicado no meio deste ano, aponta que há uma cultura de medo entre os trabalhadores no país. Cerca de 50% dos entrevistados não quiseram dizer o nome de seu empregador, com medo de retaliações, e nenhum quis expor o seu próprio nome.

A recente mudança nas leis trabalhistas teve efeito limitado na prática. Antes, por exemplo, trabalhadores migrantes não podiam mudar de emprego. Agora, em teoria, eles precisam apenas preencher um formulário no site do Ministério do Trabalho para solicitar a mudança.

Mas nas entrevistas conduzidas pela ONG com trabalhadores, nenhum afirmou que conseguiu mudar de empregador com facilidade. Muitos não sabiam dessa nova possibilidade, outros seguiam com medo de acabarem sendo deportados, por exemplo.

Muitas empresas seguem adotando práticas da lei anterior, como a exigência de um certificado para solicitar a mudança de emprego ou ordenando que o trabalhador termine todo o tempo de seu contrato antes de ir para outro lugar.

Seleções como a da Noruega e atletas como Lewis Hamilton têm tentado alertar sobre as violações no país.

"A Copa do Mundo no Qatar lançou um holofote sobre os problemas, então para nós é menos uma questão de fazer ou não um boicote ao Mundial, já que estamos a menos de um ano do torneio, ou de trocar de hotel, porque se o Brasil não ficar no Westin, outra seleção vai ficar", argumenta Archer.

Ela defende que as seleções exijam provas de que os lugares onde elas ficarão cumpram as leis e façam campanhas para denunciar as violações.

Até porque nada indica que os problemas vão terminar ao apito final da Copa.

"A não ser que as reformas sejam de fato implementadas e mudem a estrutura [das relações de trabalho] no Qatar, há uma grande chance de que tudo volte a ser como antes, uma grande chance do mundo esquecer as questões do Qatar", diz.

"Temos total noção que os problemas que nós ficamos sabendo são apenas a ponta do iceberg", completa.


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