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Após veto do pai, Maria do Carmo não tira o pé da pista

Thiago Batista | 08/03/2020 | 07:51

Maria do Carmo Viana dos Santos tem 56 anos e metade da vida esteve ligada ao atletismo, onde sempre procura passar pelos grandes desafios. Atualmente se concentra para não tirar o pé da pista (ou do asfalto) nas provas da marcha atlética. O início tardio no esporte somente não ocorreu por causa uma barreira que foi rompida após a sua infância. “Quando eu era criança e vivia em Poté, interior de Minas Gerais, meu pai não deixava brincar e nem permitia que eu praticasse esporte”, conta.

O seu início no atletismo foi apenas aos 28 anos onde teve que viver uma rotina inusitada. Trabalhava durante a madrugada e logo em seguida ia treinar. “Foram 13 anos desta rotina. Eu trabalhava em uma empresa de alimentícios. Entrava às 22 horas e saia às 6 da manhã. Sem me alimentar eu seguia para o Bolão treinar. Somente depois da atividade é que eu comia alguma coisa”, conta.

Justamente por esta rotina que não combina com um atleta, Maria do Carmo levou algumas broncas. Seu treinador, Robson Mian, a alertava sobre as consequências, mesmo assim ela não mudava a rotina durante as competições. “A única explicação para estar ainda hoje no esporte é pela saúde e porque eu gosto de treinar. Nem me importo de ganhar as provas, pois teria que ficar limitada aos patrocinadores e ser cobrada e não viveria como desejo. Eu sou assim. Se ganhei bem está ótimo, se não venci também estou bem”, descreve.

Maria não foge dos desafios. Ela gosta sempre do mais difícil. Depois de participar de provas de 15km nas ruas, como a São Silvestre e algumas maratonas, ela passou para as pistas onde disputou corridas de longa distância. Nas raias recebeu o convite de encarar outro desafio, o mais duro do atletismo para muitos: a marcha atlética.

Na prova o corredor pode no máximo tirar os dois pés do chão por duas oportunidades. “Eu gosto do difícil. O fácil não tem graça, tem que fazer o complicado. Eu tinha um gosto pela marcha, mas tinha medo por causa das regras que podem desclassificar o atleta. Um dia estava acontecendo uma prova e algumas mulheres falaram que eu estava muito bem”, afirma.

O desempenho na marcha foi um sucesso. Ela conquistou duas medalhas de prata nos Jogos Regionais, nas duas últimas edições. “A primeira vez que conquistei não acreditei. Somente a ficha caiu quando eu escutei meu nome.”

O treinador Robson Mian, do atletismo Time Jundiaí, falou da técnica que a corredora tinha para manter o ritmo. “A gente sempre falou que ela é muita técnica e se adaptada a qualquer prova. E falei que ela tinha condição e pela postura seria possível, mesmo falando que não. Foi medalhista em Jogos Regionais e tem grandes possibilidades de conquistar o índice este ano para os Jogos Abertos”, diz.

CARINHO
Quando fala de Maria do Carmo, o treinador gosta de citar seu apelido, a Toco. “É um apelido que ganhei do meu pai, e gosto dele, pois quando eu era menina dizia que eu era pequena um toquinho”, diz ela, com seus 1,56 metros de altura. “Para todos ela é uma pessoa exemplar. É um pouco mais experiente que as demais e acaba sendo espelho de todos pela dedicação aos treinamentos. Ela era boa na corrida de rua ganhando vários provas e acabou se descobrindo após os 50 anos, quando trouxemos ela para as provas de pista e agora ganhou medalhas em Jogos Regionais e participou de edições dos Jogos Abertos”, diz o treinador.

E completa. “Ela está numa idade que poderia estar parada, mas está igual vinho, quanto mais velha melhor”, finaliza.

A companheira de equipe, Thaíssa Gabriela. fala com carinho de sua amiga. “Ela tem mais de 50 anos e com ritmo e rendimento muitos bons, além de um preparo físico superior a muitas atletas mais novas. Eu quero chegar na idade dela com esta mesma disposição”, conta Thaíssa.

Maria do Carmo sonha em participar ainda do pentatlo no atletismo, combinação de cinco provas distintas no mesmo dia, e sempre que possível passa conselhos para as mais jovens. “Eu conversei com uma menina de 20 anos e ela me disse que ao chegar na minha idade esperava treinar igual a mim. Eu disse a ela que não precisava chegar a minha idade, que poderia começar agora.”


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