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Chutando o balde: Futebol, eleição e a união perigosa do fanatismo

HEITOR FREDDO | 14/10/2018 | 08:00

Uma das ideias mais alienantes da história é o discurso que “política, religião e futebol não se discutem”. Somos movidos a política em qualquer relação pública, religião não é verdade absoluta nem entre os que seguem a mesma fé (basta ver a diferença da bíblia católica para a evangélica) e o futebol não está alheio à sociedade num país em que ele vai muito além do entretenimento. O problema é quando os assuntos se misturam e são usados como bandeiras.

Na mais assustadora eleição brasileira – que nos conduz para um caminho tenebroso –, o futebol está sendo usado como palanque. No desespero de não se mostrarem isentos, personagens e instituições estão confundindo direito de expressão com imposição e opiniões vazias.

Os anos 80 foram marcados por um movimento revolucionário que ia além do debate político: a Democracia Corintiana. Quando os atletas assumiram o protagonismo e promoveram uma relação na base do diálogo em um dos mais populares clubes do Brasil antes mesmo da queda da Ditadura Militar, o gesto ia além da paixão injustificável que assistimos em 2018. Comparar um movimento histórico com postagens usando “hashtags” é um equívoco enorme. Mas a relação se torna promíscua quando foge da opinião pessoal.

O episódio mais emblemático aconteceu no Atlético-PR. O dirigente que se comporta como dono do clube, Mário Celso Petraglia, declarou apoio pessoal a um candidato à presidência da República. Na véspera do primeiro turno, maquiando a ação como gesto patriótico, o clube determinou que os jogadores entrassem em campo no duelo contra o América-MG vestindo camisas amarelas com frases que lembram o mote da campanha do candidato. O zagueiro Paulo André se recusou a aceitar tal pedido com cara de coação.

Dias antes, o volante do Palmeiras Felipe Melo dedicou um gol ao mesmo candidato, já o chamando de “nosso futuro presidente”. Declarar apoio em suas redes sociais é absoluto direito democrático do cidadão Felipe – e temos que lutar por esse direito todos os dias das nossas vidas. O problema é usar um momento em que o atleta representa a instituição, ligando a imagem do clube ao pensamento pessoal. A associação aconteceu a ponto de ser um dos motivos para o jornal argentino Clarín publicar uma reportagem mostrando que o Palmeiras é um clube ligado a ideias fascistas desde os anos 40.

O futebol também está vinculado à violência que tomou conta da atual campanha presidencial. Todos os dias assistimos a episódios de pessoas apanhando e sendo humilhadas por pensarem diferente de um grupo que, cada vez mais, se sente à vontade nas ruas. Ver torcidas organizadas em arquibancadas e metrôs gritando frases de ódio que vão além das provocações de uma paixão movida por rivalidade é algo que assusta. Não podemos tratar como piadas ou parte do jogo. Sentar na arquibancada e xingar o seu rival com apelidos provocativos é muito diferente de cantar a plenos pulmões que um extermínio está a caminho.

Talvez os mesmos que usam a camisa de futebol para defender a bandeira política não saibam que um dos principais aliados do candidato por eles defendidos (e que foi recentemente eleito senador) é o autor de um projeto de lei para extinguir as torcidas organizadas. A paixão tomou conta de tal maneira que não se pesquisa sequer o histórico recente.
Na mistura entre os assuntos “que não devemos discutir”, candidatos viraram santos e usam religiões para propagar o ódio. E apoiador político virou torcedor mais fanático do que os de arquibancada. Pena que o futebol esteja misturado a tudo isso.
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