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Chutando o balde – por Heitor Freddo (20/01/2019)

HEITOR FREDDO | 20/01/2019 | 11:30

Campeonatos Estaduais (ainda) são fundamentais

Num futebol cada vez mais globalizado, é normal que a análise sobre o esporte brasileiro seja feita sob a lupa europeia. Para quem acompanha a brilhante e emocionante Premier League, a astronômica Liga Espanhola ou o imortal Campeonato Italiano fica cada vez mais forte o discurso de que os campeonatos estaduais são desnecessários. É comum, inclusive, ouvirmos o argumento de que “só no Brasil existem essas competições”. Sim, é verdade. Porque a nossa realidade é bem diferente.

Defender o fim dos estaduais é condenar à morte centenas de clubes do interior do país, principalmente no estado de São Paulo. Se clubes como o Paulista, União Barbarense, Mogi Mirim e tantos outros tradicionais ainda estão vivos é porque existe uma chama de esperança de voltar a disputar uma competição de primeira grandeza – o Campeonato Paulista da Série A-1. E se outros clubes como Mirassol (que montou um centro de treinamento de primeiro mundo) e o Ituano (que tem uma estrutura melhor do que clubes que estão na Série A) conseguem crescer é porque eles tem no calendário um torneio de visibilidade, com pelo menos três confrontos contra os principais clubes do país.

Acabar com o Paulistão seria assumir que São Paulo só se preocupa com os times grandes e que, eventualmente, um time do interior pode aparecer em cenário nacional. E por mais boa vontade que haja em propostas como criar ligas nacionais de menor apelo – Série E, Série F – isso na prática condenaria clubes menores a viver sempre no ostracismo, à sombra dos gigantes.

Paulistão tem um clima de luta de classes, onde apesar das dificuldades um Bragantino pode vencer o Corinthians num Pacaembu lotado. Para quem nasceu na capital paulista, isso pode parecer pouco. Mas só quem foi criado num estádio do interior sabe a importância de jogos assim – basta lembrar o eterno gol de Mazola.

Se para o estado de São Paulo o campeonato estadual é a sobrevida de clubes do interior, em outros estados ele é a salvação de potências regionais. O que seria da rivalidade entre Remo e Paysandu se eles não se encontrassem no Campeonato Paraense? E como o clássico Ba-Vi sobreviveria com encontros esporádicos entre Bahia e Vitória? Salvador respira futebol e vive dias incríveis quando a final do campeonato baiano se aproxima – é a chance de comemorar um título em cima do seu rival.

O fim dos estaduais decretaria a queda de status de clubes ainda considerados grandes. O que ganhou o Botafogo nos últimos 20 anos para ainda merecer o status de gigante? Tire as taças locais do Atlético Mineiro para ver o que sobra. Será que para esses clubes os estaduais realmente atrapalham a temporada? O Brasil só tem duas competições nacionais – Brasileiro e Copa do Brasil. Só dois clubes dos 12 grandes vão terminar a temporada com taças. Isso realmente é positivo?

Medir o futebol brasileiro pela realidade europeia é ignorar que nosso país é gigante, com realidades muito diferentes. Repensar os estaduais é fundamental para eles voltarem a ter força e apelo de público. Decretar o fim é uma elitização que não faz parte da nossa história.
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