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Cobrinha: patrimônio do esporte jundiaiense

| 28/06/2014 | 21:43

O apelido no diminutivo, Cobrinha, revela sua característica mais marcante: a humildade – traço da personalidade deste galiense (ele nasceu em Gália, interior de São Paulo) inversamente proporcional à legião de amigos que conquistou. Mas Luiz Antônio de Oliveira é mais do que isso: ninguém em sã consciência consegue imaginar uma partida de futsal realizada no Centro Esportivo ‘Romão de Souza’ sem a presença deste comunicador esportivo da Rádio Difusora. 

Com o gravador, seu velho companheiro há quase 50 anos, ele arma jogadas e bate um bolão. O coração deste ex-meia, que já honrou a camisa de 30 times do futebol amador de Jundiaí, pulsa mesmo quando ocupa a cabine cinco B do Estádio Jayme Cintra e informa seus fiéis seguidores sobre as últimas do Paulista Futebol Clube. Entre uma revelação e outra, Cobrinha deixa escapar que já derrubou lágrimas pelo Corinthians.        

Esta semana, seus olhos encheram d‘água. Não por um time, mas por um ídolo que o futebol deu adeus: Giba, o técnico do Galo, responsável pelos títulos conquistados em 2001, pela Série A2 do Estadual e o Brasileiro da Série C, que faleceu na terça-feira (23).

Nesta entrevista ele confirma a fama de conhecedor e defensor do esporte e comprova que idade e memória podem, sim, compor uma dupla de zaga campeã.


Jornal de Jundiaí – Você fala sobre futebol com muita propriedade. Chegou a jogar bola?

Cobrinha – Eu joguei em 30 times do futebol amador de Jundiaí. Comecei disputando, em 1957, o Campeonato Varziano pelo Sport Clube Boa Vista e, em seguida fui para o Clube Atlético Nova Estrela, encerrando minha carreira com 43 anos, pelo Continental da Vila Jundiainópolis. Nunca fui, nem tive a pretensão de ser técnico. O dado interessante é que, de 1956 a 1984, eu cumpri tripla função: trabalhava como metalúrgico, como repórter da rádio e como jogador de futebol.       

JJ – Você começou muito cedo, ainda como gandula. Isto de teu alguns privilégios?

Cobrinha – Com certeza. Uma das mais marcantes aconteceu em 1954. O Expresso da Vitória Vasco da Gama foi jogar contra o Tupã, com a mesma base da seleção brasileira que perdeu para o Uruguai, em 1950. Como gandula eu fiquei atrás do gol do Barbosa, com um time que tinha no ataque Sabará, Maneca, Ademir, Jair e Chico. Uma experiência que tive com apenas 14 anos.   

JJ – O que mudou no futebol jogado hoje?

Cobrinha –  O futebol brasileiro caiu muito. Se fizermos uma comparação entre as seleções brasileiras de hoje e a de Pelé, de 1958, por exemplo, havia em campo quatro craques. Os chamados jogadores ‘meia boca‘ apenas completavam o elenco. A seleção de agora depende muito do Neymar, o que é uma responsabilidade muito grande para um garoto. Uma realidade do futebol praticado em outros países também, como a seleção da Argentina que depende de Messi, a de Portugal de Cristiano Ronaldo. Então, no futebol da atualidade existe um craque, que é o maestro, que comanda toda a orquestra, ou seja, os demais jogadores. 

JJ – Já que o assunto é Copa. O que você tem achado da seleção brasileira?

Cobrinha – Cada torcedor é um técnico e eu não sou diferente. Na minha opinião, existem muito jogadores atuando no Brasil que se enquadrariam perfeitamente na seleção de Felipão (Luiz Felipe Scolari). Entre os goleiros, por exemplo, há muitos outros mais experientes. De qualquer forma, esta seleção que está aí merece respeito por ser jovem, com jogadores que têm experiência em campeonatos mundiais e que estão sendo muito bem conduzidos pelo Felipão. 

JJ – Você acredita no hexacampeonato?

Cobrinha – A cobrança é muito grande. Muito se fala que a seleção é a favorita, mas não é: a seleção brasileira é uma das favoritas. Em 50, a imprensa fazia, desesperadamente, a seleção brasileira como a favorita absoluta ao título, chegando a ponto de realizar as festividades no sábado, um dia antes do fatídico jogo contra o Uruguai. Em 1958 e 1962, quando a seleção foi campeã, não se falava em favoritismo. Então, hoje a pressão é muito grande. A seleção é avaliada a cada partida, quem viu o Brasil empatar com o México já desconfiou do título. Então, se vence, é a melhor do mundo; se perde deixa de ser a melhor do mundo. Eu fico imaginando se o Brasil não for campeão, já que neste país não se admite o segundo lugar. 

JJ -Você arriscaria dizer quem pode levar este mundial?

Cobrinha – Cada rodada aparece uma surpresa positiva. Antes de começar a Copa, não se falava da Costa Rica, mas de mais um adversário para compor o grupo de seleções que estariam no Brasil. O mesmo valia para a Nigéria. A Inglaterra cotada para ser uma das cinco melhores do mundo já voltou para a casa. Portugal e Espanha que metiam medo foram desclassificadas. Isso prova que no futebol não se ganha pelo nome. Se ganha pela capacidade. Há muitas seleções que podem pregar peças. 

JJ – Tem alguma seleção que vem te surpreendendo?

Cobrinha – O Brasil tem um futebol bonito e alegre e, mesmo dependendo só do Neymar, apresenta um futebol diferente do jogado pelas demais seleções. Apesar disso, o Chile é uma boa surpresa, assim como a Argentina que eu considero forte candidata ao título.

JJ – Você era metalúrgico, como foi parar na rádio?

Cobrinha – Eu comecei em 1966, quando recebi um convite do Rolando Giarolla para cobrir o futebol amador. Nos dois anos seguintes, porém, comecei a trabalhar no futebol profissional, participando, como repórter, de todos os jogos do Paulista enquanto esteve na série A2, permitindo que eu conhecesse todas as cidades do interior de São Paulo. Em 1974, durante uma decisão de título do amador, na Associação Primavera de Esportes, o convite da Rádio Difusora foi feito por Hélio Luiz e doutor Tobias Muzaiel. Sem desmerecer a empresa que trabalhava, eu fiquei entusiasmado porque a Difusora abria, na época, pouco espaço para o futebol amador. Eu acreditava que a minha chegada à emissora abriria mais espaço para a modalidade. Foi quando surgiu o slogan: “Futebol amador é comigo mesmo”, que não só pegou, como me deu mais de 80 prêmios individuais, incluindo a ‘Bola de Ouro’ da Associação dos Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro, em 1982. No ano passado, recebi um prêmio ainda maior: a Secretaria de Esportes, por meio do titular da pasta, Cristiano Lopes, decidiu promover o campeonato de futebol com o meu nome. O melhor disso é receber esta homenagem em vida. 

JJ – Como você avalia a situação do Paulista?

Cobrinha – O Paulista sempre teve dificuldade em montar um time que representasse bem Jundiaí. Acontece que o Paulista já nasceu grande, tanto que em 1953 chegou à semifinal no Pacaembu, contra o Atlético Linense. Em 1957, foi vice-campeão paulista da segunda divisão de profissionais contra o Botafogo de Ribeirão Preto. A partir daí, o Paulista viveu um drama sem condições de montar um time profissional. Até que em 61, numa iniciativa do Nivaldo Bonassi, surgiu a ideia de montar um time com a seleção amadora de Jundiaí que ficou conhecida como ‘O Time do Salário Mínimo’. Em 64, este time decidiu o título com a Prudentina. Em 68, o Paulista tinha um time que ninguém acreditava e acabou campeão invicto da Segunda Divisão, o melhor time que vi jogar, além da equipe de 2005, campeão da Copa do Brasil. O que eu acho é que todas as vezes que o Paulista melhorou sua situação financeira foi porque recebeu investimento de empresas de fora da cidade (Magnata, Lousano e Parmalat) e por que não de Jundiaí? O Paulista hoje está às minguas e se a cidade não acordar, o Paulista, que hoje está na disputa do A2, para chegar no A3 serão seis meses. Por isso que eu acredito que esta situação do Paulista é culpa de todos.

JJ – O futebol, o Paulista e Jundiaí perderam um grande treinador e atleta com a morte do Giba. Como era a sua relação com ele?

Cobrinha –  Vou falar do Giba e vou chorar. Eu tive o privilégio de entrevistar o Giba enquanto jogador do Guarani e do Corinthians. Quando ele veio para comandar o Paulista, em 1997, eu fui a primeira pessoa com quem ele conversou quando cruzou o portão do Jayme Cintra. Havia um respeito, que ia além da amizade. Eu considerava Giba como um filho. O treino acabava e ficávamos simplesmente batendo papo. O Giba morreu magoado com o Corinthians, que o dispensou após ter sofrido uma lesão no joelho, na melhor fase da sua carreira. Sempre que Giba tocava neste assunto, chorava. Então, eu perdi um filho. O beijo que ele me deu no dia do meu aniversário, no ano passado, só os meus filhos e minha esposa me deram.         


Link original: https://www.jj.com.br/esportes/cobrinha-patrimonio-do-esporte-jundiaiense/
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