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Elas gritam gol todos os finais de semana na televisão

Thiago Batista | 19/01/2020 | 10:22

Narrar futebol precisa de dedicação, conhecimento e vontade. Um ambiente genuinamente masculino, cada vez mais as mulheres estão ganhando espaço e participando das locuções dos principais eventos nas emissoras de televisão do Brasil. Duas moradoras de Jundiaí estão trabalhando em grandes veículos e demonstrando o seu talento. Todos os finais de semana, elas estão soltando a voz e gritando gol ou narrando jogadas das outras modalidades.

O caso mais recente é de Natália Lara. Atualmente trabalhando na Copa São Paulo pela TV Cultura, diz que todo seu esforço está valendo a pena. “Foram dois anos de muito estudo e trabalho para chegar ao reconhecimento que tenho atualmente. Eu tenho certeza de que é só o começo. Hoje me sinto muito honrada e grata quando alguém fala comigo dizendo que me admira e admira meu trabalho”, detalha.
Lara fez curso de narração esportiva, onde recebeu seu primeiro incentivo, do professor Renato Rainha (narrador da Rádio Band News FM) e dos colegas de classe.

“Depois fui selecionada para o processo seletivo do ‘Narra Quem Sabe’ (do canal Fox Sports), onde eu fiz minha primeira narração oficialmente, que foi o jogo do heptacampeonato do Brasil na Copa América Feminina. Narrei pela CBF”, lembra. Ela ainda passou pela rede social da FISU America Games e na Web Rádio Arquibancada, antes de ganhar a projeção que tem atualmente. Além da Cultura, ela também é locutora no aplicativo Dazn e na TV FPF.

Precursora
Luciana Mariano é a mais experiente. Iniciou a carreira na Band e atualmente está narrando nos canais ESPN. Seu início com esportes foi na equipe da Rádio Difusora (810 AM), do Grupo JJ de Comunicação, nos anos 90, que tinha direção de Hélio Luiz.  “Fui para equipe de esportes, onde o Eduardo Augusto, o Hélio e o doutor Tobias Muzaiel comandavam e eles achavam que tinha que ter uma mulher na equipe. Aí comecei entrevistar a ‘galera’ (torcida)”, conta.

E completa. “Um dia, um colega que fazia reportagem de campo faltou e perguntaram se eu dava conta. Era um jogo do Paulista em Bauru e, a partir daí, comecei a fazer reportagem de campo e fiquei por algum tempo”, diz Luciana. Seu começo como narradora foi na TV Bandeirantes, em 1997, na equipe de Luciano do Valle. “Surgiu um concurso da Rede Bandeirantes a convite do Mauro Beting e queriam descobrir a primeira narradora do país. Acabei ganhando o concurso e fui contratada”, detalha.

Inspirações
Alguns nomes inspiraram Natália Lara na narração. “Acho que o primeiro de todos, que é indiscutível a sua importância para a narração é o Galvão Bueno (atualmente na Globo)”, e ainda cita que outras referências são Rogério Vaughan (ESPN), Luis Roberto (Globo), Nivaldo Prieto (Fox), Everaldo Marques (ESPN), Renato Rainha e Éder Luiz (Transamérica).

Luciana teve como grande mentor um narrador que fez sucesso na televisão brasileira até 2014. “A minha grande inspiração foi o meu ex-marido, o Luciano do Valle, que me ensinou depois que nos casamos. Eu pude trocar muita experiência. Mais recebi do que entreguei. E ele era uma grande inspiração. Foi o melhor narrador que a gente teve.”

Portas
Para as duas, as portas estão se abrindo para que mais mulheres possam aprender a narrar. “Quando eu comecei como repórter já era grande novidade. Imagine narrar. Quanto mais mulheres aparecem para narrar, tantas outras vão ver e ouvir”, diz Luciana. “Cerca de 97% da área é totalmente masculina e acredito que isso me move. Recebo mensagens de meninas que fazem jornalismo e querem trabalhar na área, e isso me deixa feliz”, complementa. Natália espera incentivar futuras gerações. “O que eu mais quero é que as mulheres e meninas que virão, possam enxergar a profissão ‘narradora esportiva’ como um caminho a ser seguido”, sonha.

Experiência no SESC motivou a carreira

A narradora da TV Cultura, Natália Lara, no ano passado esteve narrando jogos da Copa do Mundo (que ocorreu na França) no SESC Pompeia, em São Paulo. A experiência de contar jogos da seleção brasileira da ‘Rainha Marta’ e de outras seleções – como a campeã Estados Unidos – é qualificada como única.

“Nunca tinha narrado com uma plateia ali ao vivo. É uma sensação maravilhosa ter a torcida ali vibrando com você a cada lance, e deixa tudo muito mais emocionante. Além do que tínhamos muitas mulheres e crianças acompanhando. Foi lindo de vivenciar esse momento”, conta.

Contar as emoções da seleção brasileira feminina em um campeonato mundial foi a realização da vida da locutora. “Um dos meus sonhos sempre foi trabalhar com a seleção de mulheres e com a Copa do Mundo. Então foi algo que com certeza eu não vou esquecer nunca mais”, detalha.

Só que Natália Lara ainda tem grandes sonhos para serem atingidos ao longo da sua carreira.
“Espero ser uma grande referência e poder fazer a diferença na área. E também quero narrar diversas modalidades e competições de peso, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.”

Dicas para quem deseja narrar
Ser narrador esportivo não é apenas pegar o microfone e começar a falar. Exige muita atenção e preparação. A locutora da TV Cultura Natália Lara destaca que o importante para quem deseja narrar eventos esportivos precisa estudar e treinar .

“A pessoa também precisa montar seu portfólio e seja determinado. Não tem uma fórmula certa, mas você pode alcançar seus objetivos.”

Para Luciana Mariano, narradora da ESPN, é preciso uma formação básica – com cursos de rádio ou faculdade de jornalismo para trabalhar com a locução.

“Foi fundamental ter trabalhado em rádio, pois foi uma universidade para mim”, lembra.

Para os dias dos jogos, Luciana conta que é necessária uma preparação básica. “Um jogo envolve estudo com um olhar mais jornalístico do que entretenimento, porquê a nossa responsabilidade é levar a comunicação correta”, conta a narradora. “Se você diz alguma coisa no ar, o telespectador checa na internet e fica muito mais tenso”, completa.

Natália detalha que é preciso também aprender com as críticas. “Você precisa filtrá-las e apenas absorver o que é de construtivo pra você. E seja feliz.”


Thiago Batista
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